Jairo Marques

Assim como você

 

Cuidado com o assédio

“Zente”, hoje vou tentar escrever uns três parágrafos, sem fazer graça porque o assunto é mais sério que atendente de laboratório de análises clínicas...
 
Empresas do Brasil todo estão mandando ver na contratação de gente sem perna, sem braço, que tropica de muletas, que puxa cachorro, que tem o escutador de novela afetado, que anda sentado, que é despombalizado’ de maneira geral.

Todo mundo está atrás de cumprir a lei de cotas e, ao mesmo tempo, promover a inclusão. Até que enfim, estão entendendo que a pluralidade de um local de trabalho só aumenta a criatividade, só melhora a produção. Ah, sim, também tem o medo de tomar uma baita multa, né?


 

 

Obviamente que comemoro essa conquista de todas as pessoas com deficiência que, com trabalho, conseguem dar um up em sua qualidade de vida, conseguem dar outro rumo a uma realidade até então de exclusão, consegue estabelecer condições de se firmar em sociedade.
 
Acontece, porém, que colocar uma pessoa “malacabada” em uma empresa consiste em aceitá-la com suas possibilidades e também limitações. Quem contrata um cegão, por exemplo, não poderá jamais exigir dele que analise uma obra de Salvador Dalí, nem que um tetraplégico participe da pelada de confraternização dos funcionários aos finais de semana.
 
Mas, por ‘incrível que parível’, há gestores exigindo de seus empregados ‘matrixianos’ que exerçam atividades com agilidade ou desenvoltura além do que, física ou sensorialmente, essas pessoas conseguem cumprir.
 
Todas as vezes que isso acontece, a pessoa com deficiência NÃO PODE se acuar. É preciso deixar claro que a função “xyz” envolve habilidades que o trabalhador não tem condições de desenvolver. É como mandar um administrador de empresas operar o cliente da próstata...

Tenho recebido muitas queixas de leitores relatando essa situação que, a meu ver, pode se configurar como “assédio moral”, sujeito às penalidades da lei, que pode incluir indenização por danos ao empregado.
 
Uma empresa que vai receber um cadeirante _contratado ou não pela Lei de Cotas_ tem de fornecer a ele condições de acesso em seus diversos ambientes, precisa ter ciência de suas reais capacidades e precisa coibir qualquer iniciativa que vise isolá-lo, rejeitá-lo ou que vai o expor ao risco em decorrência de sua deficiência.
 
Como já disse algumas vezes aqui, em meu trabalho aqui na Folha, sou eu quem sempre deixou claro os tipos de reportagens que, diante de minhas condições físicas, eu era capaz de produzir. Jamais me foi cobrado ou exigido um resultado que fugisse a isso.
 
Em um caso concreto, uma leitora que não quis se identificar, relata que a chefe do setor em que trabalha estava se negando a entender que ela precisava de um intervalo maior de almoço (ela só tinha uma hora). Muitas vezes, uma pessoa que faz “xixi pelo canudinho” (clica no bozo para saber o que é isso Brincalhão), por exemplo, pode ficar até meia hora para dar conta do treco todo.


 
Bem, a situação da moça foi ficando tão aguda que a leitora, que é cadeirante, passou a sofrer perseguição no dia a dia do trabalho, com a gestora exigindo dela um esforço laboral além do que ela conseguiria cumprir.
 
Imaginem, por exemplo, uma pessoa que não tem os dois braços e digita com os pés, ok? Por melhor que seja o desempenho dela, digitar com as mãos PODE ser mais rápido, logo, colocar os mesmos limites, para funcionários de um mesmo setor, um com e outro sem deficiência não rola.
 
Isso não tem naaaaaada a ver com bairrismo, com proteção da “classe”. Tem a ver com lógica, com respeito às condições trabalhistas, com respeito às diferenças. A gente quer igualdade? Siiiim... mas isso não quer dizer que tenhamos de ser atropelados nas nossas particularidades físicas ou sensoriais.
 
Há casos em que a deficiência não irá impor nenhuma condição diferenciada para o trabalho. Mas há outros que sim. Seja qual for a condição, porém, trata-se de um trabalhador.

Pois bem, a leitora, que mora no interior de São Paulo, acabou sendo demitida. Ela, que não é boba, procurou seus direitos na Justiça. Na primeira decisão, que saiu neste mês, ela teve ganho de causa: quase R$ 60 mil de indenização + o seu posto de trabalho de volta.

Sim, o trabalho de volta. Apesar de pouquíssima gente saber, mas a lei garante à pessoa com deficiência, contratada pelas cotas, que sua demissão sem justa causa só poderá se concretizar quando a empresa colocar na MESMA FUNÇÃO, outra pessoa COM CONDIÇÕES semelhantes.

Antes de chegar a uma situação limite com seu chefe, no caso de uma discriminação, de um comportamento que vai contra suas possibilidades, não fique sofrendo sozinho, não fique doente. Bote a boca no trombone.

Se você foi contratado para ser advogado, mas está apenas servindo de peso de porta, de carimbador de papel, há algo muito errado e que precisa ser revisto, ser mudado. A nossa capacidade intelectual não está ligada a nossas habilidades físicas.

Não sou nenhum especialista em mercado de trabalho, mas entendo um pouquinho de “serumano”. Se a sua deficiência estiver falando mais do que seu talento, se estão exigindo mais do que seu físico ou seus sentidos podem dar contam, procure o RH da empresa, relate a situação ao superior de seu superior, deixe claro que está se sentindo desvalorizado, discriminado ou em casos mais extremos, assediado.

Por fim, digo que uma boa empresa precisa ter um planejamento mínimo _o que não envolve muita frescura_ para ter os deficientes em seus quadros. De forma geral, a inclusão rola super mega de boa e todo mundo sai ganhando _a empresa, o funcionário e a sociedade. Mas há também gargalos nesse processo que devem ser observados e reparados!

Bom final de semana e beijo nas crianças!

*Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h05

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Sobe no bumba!

Vocês podem não acreditar, mas no tempo que eu era pobre (até agora pouco... ahahhahahhahaha Bobo), andava muito de buzão. Mas não ônibus urbanos, ônibus desses “de linha”, que a gente viaja junto com galinha, com porco, com ‘minino chorando’, com cabrito.

 

Quando fui estudar em Campo Grande, tomava o bumba quase todos os finais de semana (mentira, só quando sobrava ‘ricurso’ do bolsa família Muito triste) de volta para as “Trelagoa” para ver as ‘famiage’.

 

Confesso a vocês, meus dois ou três leitores queridos e cativos, era um sacrifício para esse menino bão que vos escreve essa rotina. O lance é que para entrar numa condução dessas, um cadeirante tem de ter uma mente aberta, quer dizer, escancarada.... Insatisfeito

 

Lembro que eu ficava beirando o motorista e o cobrador até eles sacarem que eu não estava ali para pedir amendoim, eu ia mesmo embarcar. Muitas vezes, muitas meeesmo, o tio ia ficando por último, como se fosse a última mala a ser colocada no bagageiro... Sem jeito

 

Mas, apenas uma vez os ‘pessoais’ se negaram a me dar colinho e me “depositar” dentro do buzo. Em geral, me abraçavam (ai que delícia) e me colocavam na poltrona. E, assim, eu deitava o cabelo para todos os cantos.

 

Atualmente, vários ônibus desses de viagens tem estampado o símbolo universal dos malacabados. Entretanto, eles não são acessíveis cacildas nenhuma. É preciso ser carregado para subir e para apear... Cansado

 

Um empresário aqui de Sampa, porém, resolveu investir e acreditar que o mundo vai ser dominado pelos ‘matrixianos’, em breve, e mandou fazer uma adaptação em um bumba turístico, para que os cadeirantes pudessem se sentir como passageiros convencionais... aêêêê!!!!

 

 

 

 

O bacana é que não é um ônibus “exclusivo”. Ele também pode e é usado por gente... tipo... normal... Bem humorado.

 

“A adaptação do ônibus não interfere no layout interno, as poltronas podem ser removidas ou recolocadas no lugar em questão de minutos. Este equipamento, para ser instalado, só depende da boa vontade do empresariado, pois não atrapalha na capacidade total do veículo e não o torna de uso exclusivo.”

 

Isso aí de riba quem me falou foi o Dario Piza, da empresa Sunflower Turismo, que fez o investimento. Eles tão na ‘vibe’ (to modernex, né? Rindo a toa) de atender iniciativas de públicos diversos.

 

 

 

Tô achando que vou alugar essa marinete, catar ‘ceitudo’, e deitar o cabelo lá pra... Praia Grande, para tomar banho de mar de tanga, heim?! Quem topa levanta a mão \o/.

 

O bumba permite que até duas pessoas (aqueles estropiados mais pesadões, tipo eu Carente, ou com restrições severas de movimento) possam ficar acomodados na própria cadeira, com segurança, para fazer o passeio e ou a viagem.

 

O restante do povo cadeirante se transfere para as poltronas de boa, depois de subir pelo elevadorzinho maneiro!  E o Dario disse que foi uma trabalheira danada para encontrar uma empresa no Brasil que fizesse a adaptação... Ah, fafavor, né?!

 

 

Curti a iniciativa. Achei visionária em um país que ainda peleja para fazer rampa na rua. Gosto de saber que há uma alternativa mais confortável, mais inclusiva e plural surgindo para usufruirmos!

 

Quem quiser ver um vídeo do bumba sendo usado pela molecada da AACD, clica no bozo! Brincalhão

 

Quem quiser saber mais sobre a empresa, clica na florzinha... Sorte

 

*Imagens de divulgação

Escrito por Jairo Marques às 00h04

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Os “especiais”

Meu povo, o tio deu uma sumida, né?! É que aproveitei que rolou a “semana do saco cheio” dos alunos lá da facul e dei uma esvaziada no meu também, que tava meio que transbordando... Rindo a toa

Queria tratar hoje de dois termos _na real, um adjetivo e uma sigla_ que tenho lido um bocado por aí como tratamento  dos menino ‘dificientchi’. São eles: “especiais e PCDs”.

 

Sim, esse blog é mais sujo que pau de galinheiro quando o assunto é abordagem politicamente correta dos ‘malacabados’, acontece, porém, esse espaço preza pela informalidade, pela gargalhada, pela troca de informações e experiências, por um pouco de entretenimento, por que não?!

 

 

Quando se trata de uma abordagem formal, em um documento ou uma reportagem jornalística, por exemplo, o recomendado é seguir a designação que está na Constituição brasileira, por meio da convenção internacional da ONU: use pessoa com deficiência!

 

“Mas causo de quê, véio?” A comissão que criou a documento pesquisou e debateu exaustivamente os termos e chegou ao consenso que dizer “pessoa com deficiência” humaniza ao mesmo tempo que integra o cabra. Atualmente, tendo a concordar com isso, apesar de ter sido crítico no passado.

 

Falar que fulano é cego, é surdo, é cadeirante também são aceitáveis e usuais de maneira formal, pois se objetiva, se torna direto o estropiamento do ‘serumano’!

 

Bem, mas o que tem acontecido é que uma praga tem se propagado com velocidade como modo de ‘tratamento’ ‘panóis’, o tal de “especiais”. Zente, toda vez que se trata uma pessoa como “especial”, ela é colocada num patamar de diferenciação.

 

Pensem no seguinte: “Esse passageiro especial já foi atendido?”. A impressão que fica é que o danado do ‘malacabado’ é uma carga pesada que vai precisar de um guindaste poderoso para entrar no buzão.... Muito triste

 

E “eles formam uma turminha especial”? Aí é de chorar... me lembra “Os Smurfs”... ‘pessoinhas’ azuis, todas especiais.... aff...

 

 

O que as pessoas com deficiência precisam, de modo geral, é de um atendimento que pode ter características diferenciadas, mas nada de “especial”. O especial qualifica a gente como gente de outra ‘catigoria’.... não, somos cidadãos, somos iguais e temos direitos e deveres iguais.

 

Claro que entendo que a intenção ‘sempre é’ a melhor possível, mas eu fico de “pá virada” todas as vezes que alguém quer me tratar como um “especial”, tipo as renas do papai Noel.

 

O olhar sobre o “especial”, o respeito ao “especial”, tende a ser muito perigoso porque o outro vai se sentir no direito de ter poder sobre você, uma vez que “ser especial” significa, muitas vezes, ser mais sensível, ser meio bobão, ser alguém com ‘menos’ capacidade global que o ‘normal’.

 

Obviamente que há quem use o “especial” no sentido de querer ser carinhoso, sobretudo quando se trata de criança. Particularmente, também não curto e também avalio que há um potencial ‘estrago’ na imagem dos pequenos.

 

No passado, a molecada piradinha, com deficiência intelectual, sobretudo, mas também com outras deficiências físicas e sensoriais, eram juntadas em uma sala da escola chamada “sala especial”. O especial, neste caso, era o confinamento e o isolamento.

 

“Pô, mas você chama o povo de estropiado, de malacabado, o que tem chamar de especial, caraca?” Bem, esses termos não têm nada de querer proteger ninguém, muito pelo contrário, eles expõem nossas fragilidades, nossas ditas imperfeições. São termos da turma, que as pessoas com deficiência usam na brincadeira.

 

 

Agora, raramente, ‘ceis’ vão ouvir da boca de um estropiado: “oi, eu sou uma pessoa especial, dá um beijo neu?” Bobo

 

A oura praga que tenho notado se propagar com velocidade imensa, até mesmo dentro de estruturas governamentais ou que visam defender os direitos do ‘matrixianos’ é a sigla PCD (resumindo pessoa com deficiência).

 

“Ai, Zairo, o que tem resumir um termo, heim?”. Poi zé, o que acontece é que um termo tão estudado para representar um grupo de pessoas está virando... três letras! Carente.

 

Eu não quero ser representado por uma sigla e nem preencher papelzinho dizendo “sou PDC. Ah, vaticatá, eu sou gente!!!! Sem falar que o PCD é invenção de quem ficou viúvo da antiga PNE, “pessoa com necessidades especiais”....

 

Insisto, um cadeirante, um tetrão, um pczão não é um PCD... Eles são, sim, pessoas com uma deficiência e que, por isso, podem dar mais trabalho...... ahahahhahahahha Tonto

 

Eu vou combater sempre essa prática de transformar gente em sigla. Gente é gente, oras...

 

*Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h07

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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