Jairo Marques

Assim como você

 

Sinta o som!

Um troço intragável para mim é quando um ‘serumano’ não dá oportunidades para outro se baseando apenas num relance visual, em ideias próprias (sem o mínimo de fundamentação) e em conceitos sem propósito, sem nexo.

 

Com o povo estropiado essa realidade é insistente e, muitas vezes, perversa. Por não andar, alguém já inventa que o nego não pode agitar caixinha de Toddynho Muito feliz. Por não ouvir, o cabra não pode interagir com a novela, por não ter um membro, o brasileiro não tem como abrir a latinha de sardinha e por não ver... o rapaz não pode produzir uma baladona?! Convencido

 

Mas o tio, como ‘ceitudo’ sabem, faz questão de caçar histórias que a moçada ‘matrixiana’, de propósito Rindo a toa, inventa de ser tudo aquilo que imaginam que ela não deveria ou não poderia ser... um luxo!

 

“Eu sempre ouvia os caras tocando música eletrônica e achava um barato. Até que um dia, em 1993, um amigo, também cego, e eu resolvemos comprar uns aparelhos, umas fitas, e começamos a tocar também. O que aconteceu foi que a ‘novidade’ deixou muita gente desconfiada, como se a gente não pudesse saber tocar direito por não enxergar”.

 

 

DJ Roger em ação em frente à mesa de som

 

Não é demais? O bacanudo aí é o DJ Roger Marques (será que é meu primo????). Ele, hoje com 36 anos, é cego de nascença, em razão de uma toxoplasmose. Mas o ouvido não veio avariado!!!!

 

No começo da minha carreira como fabricante de parágrafos, também sentia que um monte de” boca-aberta” ficava pensando: “Oh, gzuis, quem soltou isso aqui dentro da redação?”  Rindo a toa O que uma pessoa pode ou não pode, quer ou não quer fazer não depende exclusivamente da vontade alheia, meu povo.

 

“Mesmo com o espanto de muita gente, em 1995, resolvi, junto do meu amigo (também DJ Anderson Farias), entrar um concurso de DJ’s, que aconteceu em uma boate chamada ‘Curto-Circuito’. Tinham mais de 200 concorrentes e funcionava como em um mata-mata. Meu colega foi eliminado nas quartas-de-final e eu acabei indo à final e fiquei em segundo lugar. Para mim, foi muito surpreendente e gratificante. Não esperava a colocação. Como prêmio, ganhei um mixer, que é um aparelho usado para misturar os sons”.

 

 

Roger também em ação em uma festa

 

As capacidades de um cegão, de um tetrão (Clica na florzinha se não sabe o que é! Sorte), de pczão (Clica na florzinha para aprender mais!Sorte) são desenvolvidas, incentivadas e ampliadas de acordo com eles mesmos e não de acordo com o que as aparências possam sugerir.

 

Vocês devem pensar em como o cara faz para catar os discos, trocar as faixas... bom, organização. 

 

“Quando ainda tinham muitos discos de vinil, dava para escrever em Braille nas capas e saber qual é. Já com os CDs, o negócio é separar bem direitinho os discos estilo, temas, ordem alfabética. Aí, eu memorizo a ordem e mando ver. Na mesa de som, também não tem nenhuma adaptação. Enquanto um CD toca na caixa, com o fone eu já conto as batidas e decido qual música vou usar para misturar e fazer o som”.

 

 

Cartaz promocional do DJ

 

Eu não sei o que seria da galera se me dessem o comando das aparelhagens de som para eu agitar uma “boatinha” (lembram disso, zente? Tonto). Talvez eu tocasse só Tonico e Tinoco, Abba e Kaoma... Magina que eu dar jeito de fazer aquelamistureira toda frenética de um DJ.

 

“Depois de um tempo e de cansar de ter que enfrentar o preconceito e o desconhecimento das pessoas, resolvi parar de tocar. Isso em 1998, 1999. Era muito chato ter que provar que poderia fazer bem o trabalho só porque não enxergava. As pessoas exigiam mais, não acreditavam que eu podia fazer. Até que parei porque não estava conseguindo me manter do trabalho”.

 

Brochada geral, né, povo? Mas o período longe das carrapetas fez com que o Roger virasse “dotô”. O cara se formou bacharel em Direito e depois foi cuidar, junto da família de um negócio próprio... mas... mas... e a sonzêra?????

 

“Em 2004, eu estava seco de vontade de voltar a tocar. Aí, devagar, voltei a comprar equipamentos, som, iluminação. Comecei a fazer aniversários, casamentos, festas para pagar o investimento. E também, o tempo ajuda a gente a não ligar mais para o que as pessoas acham que você consegue ou não fazer. Então, parei de me chatear com essas coisas para fazer o que gosto”.

 

E o retorno vem rendendo frutos. No próximo domingo (dia 25/09), o DJ Roger Marques vai tocar numa casa, aqui em São Paulo, um flash back anos 70, 80. Ele e mais dois DJ’s vão agitar a festa que começa às 16h e vai até às 22h.

 

“Eu gostaria é de viver da profissão de DJ, de me manter totalmente com ela. É que gosto de fazer, o que me dá tesão. Nunca usei da minha deficiência para ‘sensibilizar’ ninguém, nem para causar curiosidade. Curto fazer isso, trabalhar com a música e pelo meu som que quero me destacar”.

 

Deu vontade de ir dar uma chacoalhada no esqueleto? A festa rola na Dom Juan Shows, na Rua Paulino Cursi, nº21, São Mateus/SP.

 

Se quiser mais informações ou falar com o DJ, o e-mail é djrogermarques@gmail.com.

Escrito por Jairo Marques às 07h23

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Sempre em frente...

Imagina uma sensação bem gostosa: arrancar o último bagaço da laranja, sacar o sapato apertado, ouvir o barulhinho do mar quebrando, ver o sol dizendo xau xau num parque qualquer, num final de tarde qualquer.

Muita gente com deficiência, muita mesmo, daria para lotar uma caixa de fósfi Rindo a toa, tem conseguido, nos últimos anos, mais acesso ao sabor de viver podendo fazer aquilo que se tem vontade, que dá prazer.


 

Para um desavisado, pode até parecer exagero, mas as conquistas de ambientes mais universais em seus acessos e possibilidades só começaram a ganhar corpo muito recentemente, sobretudo em grandes centros.

Chego a dar risada, sozinho, bem bobão, quando tenho de esperar outro estropiado usar o elevador daquela loja, quando a casinha tá ocupada e não é por um manezão folgado, não, é por um rapazinho que usa muletas.

Tenho deixado, cada vez mais, de ser um “solitário” que toca uma cadeira e reclama dos buracos na calçada para ser um cidadão que exerce seus direitos onde quer que seja, quando quiser e como quiser. Melhor de tudo, ao lado de uma galeeeeera!

“Ah, tio, você tá viajandão com os carinhos da tia e vendo o mundo todo azul, mas a realidade ainda é bem dura na queda.”

Claro que é. Claro que precisamos de muito mais, porém, eu tenho convicção no meu coraçãozinho de que conseguimos juntos tirar da estagnação uma situação pesada, mostrenga, indecente de abandono de todo um povo: o povo que puxa cachorro, o povo com o escutador de novela estragado, o povo das pernas avariadas, o povo bem arruinado da funilaria em geral.

Desde quando me meti a escrever sobre esse mundo paralelo, a minha idea sempre foi a de ruptura total com a mesmice dos discursos politicamente corretos, atrelados ao assistencialismo (mais conhecido como dózinha), aos interesses particulares, ao senso comum, à moleza de ficar com a boca aberta à espera de uma ‘hand’, de uma migalha.

Isso tudo me trouxe centenas de amigos, mas também, vez ou outra, ter de carregar o piano e ser tido como “não comprometido” com milhares de demandas que envolvem os “matrixianos” em todo o país.

Realmente, e vou tentar manter isso sempre, me esquivo de pedidos que tendem à radicalização, à união com movimentos partidários, a uma ação ostensiva de chateação do público em geral, de pedidos para iniciativas que não acredito. Voto pelo ‘todosjuntos’, mas com amor, com leveza, com alegria, com risada gostosa...Bem humorado

Hoje é Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência e, lá nos Rio de Janeiro, o povo tá indo às ruas do centro para cobrar melhores condições pros estropiados. Pra mim, foi um tiro no pé do meu querido “Movimento Superação”.

Uma região caótica de uma cidade não vai se sensibilizar quando ela ficar ainda mais caótica. O centro do Rio já é bagunçado o bastante para ainda receber, em um meio de semana, uma porção de malacabados batendo bumbo....

Acho perigosa também a aproximação que meus companheiros de “dominação do mundo” tem tido de siglas partidárias, de líderes políticos. Uma pena. Grande parte dessa raça só busca atender interesses próprios e usa a imagem do deficiente de forma bastante questionável.

Uma pena que a passeata, tão bonita, tão democrática, tão emocionante, tenha saído da orla de Copacabana, tenha saído do final de semana, tenha se apagado para centenas de pessoas. Reconheço que, às vezes, é impossível a gente controlar certas posturas, certas tomadas de atitude, mas talvez dê para fazer diferente.

Mas o dia não é para ser azedo aborrecido. O dia é para cada um desses dois ou três leitores que me aturam fazerem um bocadinho mais para que esses avanços não cessem.

Já deu uma bronca no portuga da padoca porque não tem rampa? Já esculachou aquele “ridicolomen” que insistem em arrancar a indicação dos números em braile do elevador? Já tentou avisar para aquela dondoca que vaga reservada em estacionamento tem um sentido de ser? Já cobrou o prefeito para criar uma secretaria voltada para as causas dos ‘dificientes?

A força que uma corrente de pessoas que querem mudanças porque elas são legítimas vira o mundo de cabeça para baixo. Acredito fielmente nisso e vou em frente com esse pensamento... Tão comigo?! \o/

Escrito por Jairo Marques às 00h18

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Imagem é tudo

Se existe um negócio desacertado em relação à acessibilidade é.... banheiro, juro. aborrecido. Não é preciso visitar muitos para encontrar um bocado de desarranjos, de trem mal feito.
 
Os erros acontecem porque, muitas vezes, as pessoas e empresas querem simplesmente cumprir uma exigência de algum órgão fiscalizador e não estão nem aí para as regras que estabelecem como fazer direitinho para o uso do malacabado.
 
E essas regras, apesar de terem vários detalhes, não são coisas de outro mundo. Cumpri-las é garantir o conforto de milhares de pessoas. A ABNT (Associação Brasileira de Normas técnicas) dispõe na internet tudo certinho.
 
O que percebo também é que, na hora de fazer a obra em um banheiro, não se preocupam em fazer um test-drive básico para saber se, realmente, ficou tudo bacanudo. A porta se abre para fora? A torneira é de fácil acionamento? As barras de apoio estão bem localizadas?
 
Batam o olho nessa barra que encontrei num banheiro de um lugar de grande movimentação de pessoas.


 
Diz pra mim, meu povo, como o pobre do cadeirante, do cego, do estropiado em geral vai conseguir levantar a tampa e dar uma urinaaaaada? Muito triste . Ou o caboclo segura a tampa, impedida de ser totalmente aberta pela barra, ou segura o tchan para fazer as necessidades. Sentar no trono? Como?
 
Nesta figura abaixo, dá para sacar como as barras estão colocadas certinhas, de forma a ajudar o brasileiro a transferir da cadeira para o trono ou mesmo para equilibrar um muletante, um PC, enfim...


 
O que não estou de acordo é com esse buraco no assento, já tentaram me explicar, mas para mim não faz sentido e só serviu para encarecer o produto que, como foge ao padrão, precisa ter valor mais alto... enfim...
 
Agora, o que é “pakabá” em banheiros acessíveis são os espelhos. De cada dez que uso, uns oito estão dispostos de forma que não consigo ver a minha cara... Carente.
 
Acho que, como é o último item a ser instalado, o pedreirão já não está nem aí para paçoca e coloca de qualquer jeito. Os espelhos, então, não são colocados inclinados, de forma a possibilitar que uma pessoa sentada consiga dar um tapa no visu de boa.


 

A altura também precisa ser bem calculada, caso contrário, mesmo inclinado o espelho só vai servir para vermos a testa... Alegre.
 
Abaixo, dois exemplos de boas instalações. Uma delas, o espelho tá inclinadinho, no jeito. Consigo ver meu rostinho, ajeitar minha gravata e até endireitar as calças...


 
No outro, é o verdadeira paraíso dos vaidosos e bonitos como eu... Convencido. Como ele ocupa toda uma parede, o cabra consegue se ver de corpo inteiro, ‘excrusível’ a cadeira – que de certa forma é parte da gente.


 
Ah, só ‘pacabá’, é muito importante também, em banheiros para ‘matrixianos’, não esquecer de colocar tudo em uma altura mais baixa: o trequinho do sabonete, o bagacinho do papel, o porta papel higiênico...
 
Como sei que muita gente que freqüenta esse diário espalha informação, é fundamental que tentem orientar as boas iniciativas de acessibilidade para que elas sejam realmente úteis.
 
As normas, repito, não são para burocratizar ou tornar tudo difícil “demais da conta”. Elas existem para que o uso para quem precisa seja feito de forma tranqüila e eficiente.
 
Procurar ajuda em órgãos oficiais (conselhos de engenharia e arquitetura, prefeituras, Ongs e associações de pessoas com deficiência, entre outros) pode ser um caminho para conseguir informações eficientes. De acordo?!

Escrito por Jairo Marques às 00h02

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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