Jairo Marques

Assim como você

 

Qual é o seu papel?

Tenho pra mim, como diria um tio meu que já morreu, que pessoas que exercem alguma influência sobre as outras, perezempe assim o tio, lido por três ou quatro pessoas, tem a “responsabilidade” de tentar construir melhores realidades para todos.

Milhares de pessoas abatidas da guerra espalhadas pelo Brasil, sil, sil carecem, ainda, de informações básicas sobre direitos, sobre como possibilidades, sobre tecnologias, sobre o básico “como é possível” seguir adiante sendo prejudicado das vistas, tendo o escutador de novela avariado, as pernas mancuebas e por ai vai, né, não? Bem humorado

Eu também sempre fui e ainda sou inspirado e influenciado pelos ‘malacabados’ mais prafrentex. Quando vi o Marcelo Rubens Paiva, que é tetrão, dirigindo uma komboza, tive certeza que eu podia chegar lá também.

 

A Tabata Contri foi quem me mostrou que cadeira de rodas precisa ser “vestida” na gente. O Billy Saga me ensinou que é “junto e misturado” que a gente vai dominar o mundo e por ai vai.

 

Por isso eu costumo sempre (ou quaaase sempre) responder a dúvidas que me mandam sobre esse universo paralelo em que vivem os ‘dificiente’ e tô sempre dando pitacos na vida dos coleguinhas ‘malacabados’ sempre no intuito de melhorar.

 

O post de hoje é sobre isso. E quem conta a história é uma freguesa antiiiiga aqui desse diário, a Ana Carolina, que já foi barrada em  loja, já perdeu causa na Justiça, mas tá tá na batalha, mas ganhando do que perdendo! A Aninha _para saber mais dela clica na florzinha Sorte_ é beeem estragadinha da partes locomotoras Bobo, tem a síndrome dos ossinhos de cristal, mas o tio azucrinou tanto a vida dela para que desse um salto de qualidade que.... enfim, bora ler?!

 

Devagar

 

Dia 25 de julho de 2011... dia de mais uma conquista dentre tantas que obtive em minha vida... Fui aprovada no exame de direção logo na primeira tentativa! Pode parecer corriqueiro e normal, não fosse minha deficiência (osteogênese imperfeita) e a frequente sensação de que não seria capaz!

 

Na imagem, Aninha faceira no carro

 

Como boa aquariana, nasci com uma vontade imensa de liberdade e independência... causa de muitos de meus conflitos diante da limitação física que possuo. Sempre pensava em como seria bom dirigir, pegar meu carro e sair por aí, sem precisar sempre pedir que me levassem aos lugares, sem explicar aonde iria, o porquê e pra quê... Mas isso sempre foi um pensamento que passava por mim no futuro do pretérito, parecia que enxergava nos olhos das pessoas a certeza que eu não era capaz, e eu acabava não me apegando à ideia.

 

Isso começou a mudar no dia em que encontrei o ilustre dono e proprietário deste blog (Eu, eu, eu, eu! Convencido), que chegou ao casório em que nos encontramos todo pimpão dirigindo seu carro, e a partir daí surgiu a conversa de que eu deveria dirigir, que eu poderia perfeitamente... esse fato já acendeu uma luzinha dentro de mim... o que se intensificou com uma fase meio rebelde de minha vida em que achei que tudo deveria mudar.

 

Na imagem, documento de aprovação na prova

 

No dia 09 de março deste ano, estava em Belo Horizonte para passar pela junta médica que avaliaria o meu potencial para conduzir um carro e emitir um laudo com as especificações das adaptações.

 

Naquele dia, imaginei que realmente aquilo não era pra mim e que acabaria ali o sonho de dirigir... por desconhecerem minha doença, a experiência naquele lugar foi péssima e apenas consegui sair de lá com um laudo na mão depois de muito choro e da sensibilidade do Delegado, que ousou pedir ao médico e aos peritos em adaptações que me dessem o laudo sob sua responsabilidade...

 

Enfim, o principal ponto de partida havia sido dado, e partir daí comecei com as aulas teóricas na autoescola e a correr atrás da papelada para conseguir as isenções para a compra do carro, pois precisava dele para fazer as aulas práticas (em alguns casos em que a adaptação não é universal, o Detran faz essa exigência, povo).

 

Acabei com o mito de que é tudo muito difícil e burocrático... NÃO é... o procedimento é bem mais simples e  rápido do que todo mundo imagina, tanto que o primeiro papel foi entregue na Receita Federal em 15 de março e em 18 de abril já estava com a isenção do IPI e  IOF na minha mão. E na Receita Estadual então, meu susto foi maior, a isenção do ICMS foi concedida no mesmo dia!

 

Próximo passo foi escolher o carro... carro automático ainda é muito caro aqui no Brasil, então a escolha não foi muito difícil, foi só escolher um dos mais baratos...Carente...mas sem deixar meu lado perua de lado, claro, quis logo um vermelho Ferrari!!

 

Na imagem, o carro vermelho de Aninha

 

A adaptação também é muito simples e é feita em praticamente meio dia de serviço... dá pra aproveitar as horinhas de transformação do carro para dar uma voltinha no shopping da cidade grande. Rindo a toa

 

As aulas práticas começaram e, por incrível que pareça, nunca tive medo da direção, mas tinha medo de não atender às expectativas técnicas do examinador. Porém, estava determinada, agora era uma questão de honra conseguir a habilitação. Todos os dias, depois do trabalho, pegava o carro e ficava rodando no meu bairro (aproveitava a falta de movimento Tonto), até adquirir segurança e confiança.

 

O resultado foi a aprovação, que no fundo até eu duvidava que aconteceria tão rápido, já que todo o processo durou 4 meses e 15 dias. Não sei se as pessoas fora do mundo da “matrix” podem imaginar o que é isso, mas para mim é um acontecimento, uma situação que nunca experimentei... em quase 30 anos de vida NUNCA havia antes experimentado a sensação de sair totalmente sozinha... (essa parte dá um apertinho no coraçãozinho, né? Apaixonado) não consigo com palavras descrever o que é isso... mas sei que é muito bom!

 

Imagem do interior do carro já adptado 

 

Saber que posso, provar que sou tão capaz quanto qualquer outra pessoa “normal”, que terei um pouco de liberdade e independência, o direito de ir e vir consagrado na lei máxima do nosso país... na prática é que se dá o valor merecido!

 

Bom seria mesmo se as autoridades reconhecessem isso... o quanto é importante e necessário facilitar para que os “malacabados” consigam ter seus carros... mas acho que isso só vai acontecer quando cair no gosto do povo da matrix, quando deixar de ser exceção... o que só vai acontecer se a gente começar a se movimentar o mais rápido possível.

Escrito por Jairo Marques às 07h19

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A briga dos “lulus”

Faz duas semanas o tio participou de um grande evento sobre o povo sem perna, sem braço, puxador de cachorro e demais abatidos pela guerra lá no Tribunal Regional do Trabalho.

Foi um dos eventos mais ‘legalzudos’que já contei umas mentiras.... Bobo. Um ponto importante para o sucesso foi que o público não era apenas formado por gente que já sabia toda a missa que eu iria “rezar”. Eram advogados, juízes, desembargadores, funcionários públicos e pessoas interessadas em promover a inclusão de fato.

Outra vantagem do evento foi que cada um dos debatedores expuseram pontos de vistas complementares sobre o mundo dos “malacabados”. O resultado, então, só poderia ser bem produtivo.

Afora a falação, um fato me chamou muito a atenção durante o seminário foi a presença em pelos... ops, em peso, de uma cachorrada acompanhando o povo cego! Só no Tribunal, pelo que me informaram, trabalham quatro cães-guia! “Maraviwonderful”, não?!

Bem, mas, em dado momento, eu vi algo inédito... dois peludões, bem pretões, começam a se estranhar. E eu que achava que esses cães puchadores eram muuuudos... Rindo a toa

Os bichos chegaram a mostrar as arcadas dentárias um para o outro com mais vontade de um agarro do que de um beijo... Com vergonha. Por pouco não rolou um arranca rabo, literal, em plena festa da inclusão! Mas por sorte e força dos condutores, os meninos sossegaram.

Perguntei para a minha assessora para assuntos ‘cachorrais’, a Ju Braga porque raios rolou aquele “flight” entre “rapazes” que deveriam, em tese, ser bonzinhos, beirando ao mocoronguimos.

Tio, os cachorros não perdem seus instintos, mesmo sendo exaustivamente treinados. Eles mantém a característica de querer proteger, de marcar território. Então, pode acontecer de haver estranhamento. O meu “Charlie”, como você sabe, é uma doçura de menino, mas acho que se alguém se aproximar de mim com um espírito ameaçador, ele irá reagir”.

É muito legal conhecer mais da vida e da realidade desses caninos, né, não? Gosto tanto que na coluna de hoje, na Folha, escrevo sobre o trio parada dura Bem humorado Diesel, Boris e Thays Martinez. Para ler, clica no bozo (assinantes Uol e Folha) Brincalhão.

 

Na imagem, Thays com seus cães Boris e Diesel

Thays, que é cega e seguramente uma das pessoas mais importantes nessa imensa batalha pela dominação do mundo por parte dos “matrixianos”, está na rua, na chuva, na fazenda e na praça Muito feliz lançando o livro “Minha Vida com Boris”.

Li o danado em poucas “sentadas”. Eu já sabia um pouquinho de tudo que a Thays havia passado, sei também da importância dessa cachorrada que puxa gente, mas me encontrar com detalhes da história, confesso, me desmontou.

 

Imagem da capa do livro de Thays

Chorei pra valer, em casa, no trabalho, escondidinho com a chegada de Boris ao Brasil, com a ignorância humana, com as vitórias, com as derrotas dela e, consequentemente, de todas as pessoas com deficiência _não somente visual_ do país.

 

Na imagem, Thays com seu cão Diesel

O livro está à venda em todo o país. É da “Editora Globo” e custa menos que uma pizza. Vale o investimento para a alma, para o coraçãozinho, para a razão da inclusão para todo mundo que gosta de bicho e gosta de gente!

*Imagens de divulgação e arquivo pessoal

Escrito por Jairo Marques às 07h01

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Potenciais

O povo com deficiência tem um impedimento quase natural de achar que tudo é difícil na vida e que para conseguir algo terá que comer o pão que o diabo não quis. Sem jeito

 

De certa forma, devido à falta de condições de viver tranquilo em sociedade, devido à falta de incentivos ou mesmo de presença permanente de vozes que dizem “isso você não consegue”, a gente acaba por ficar medrozão diante do mundo.

 

Eu não achava que iria conseguir nadar sozinho na piscina, não achava que ia conseguir tocar minha cadeirinha cortando meia cidade para chegar às aulas de inglês.

 

Depois eu achei que ia ser complicado demais fazer uma faculdade no período noturno. Achei que morar numa das cidades mais importantes do planeta era sonho, pensei que trabalhar no maior jornal do país era muita feijoada pro meu pagodinho. Rindo a toa

 

Tudo sempre me levou a pensar que “só por milagre” a vida de um rapaizim com as pernas finas, com a coluna torta, com um dos braços molengas ia conseguir ter um prumo. Mas, de milagre, a minha realidade e a de milhares de outros 'malacabados' espalhados pelo Brasil tem pouco.

 

 

 

 

 Na imagem, um frei bem estiloso rezando

 

 

Dentre os ingredientes para seguir em frente, em conquistar estão um pouco de coragem, uma pitada de esperança, um trocinho de vontade, um tablete de planejamento, uma colher de chá de cara de pau, um punhado de fé em si mesmo, um beicinho de sorte e um torrão de persistência, de respeito aos seus potenciais.

 

Dá pra encher até as tampas um fusca conversível de gente “matrixiana” que deixa o bom da vida de lado porque não consegue jogar na panela esses ingredientes aí de cima. Claro que, escrevendo, tudo parece super simples, super fácil, mas a gente dá valor demais para aquilo que não podemos de fato e de menos para aquilo que ainda temos de bom.

 

 

 

 

Na imagem, um caldeirão bem quente pra botar os ingredientes

 

 

Muitas vezes, o que a gente precisa para ser melhor diante das nossas deficiências é pensar em formas de combater os limites, é buscar informações (essas já estão super distribuídas, sobretudo nas internets), é enfrentar um certo desconforto momentâneo para ficarmos numa posição de mais vantagem.

 

Vejo um bocado de gente estropiada que se contenta com o básico, mesmo podendo conquistar o sofisticado. Meu mantra é dizer que precisamos aumentar a nossa musculatura de presença na sociedade para avançarmos no projeto de “dominação do mundo”.

 

Temos de ter mais pessoas com deficiência dirigindo, voando, escalando montanhas, viajando, ganhando bem, ocupando cargos estratégicos em empresas, exercendo atividades de amplo reconhecimento público para que a nossa visibilidade continue aumentando e que a mentalidade sobre nossos potenciais se modifique.

 

 

 

Na imagen, um cadeirante serelepe

 

O post de hoje é para fazer agitar em “ceistudo” (ou para que incentivem a alguém o pensamento) o desejo de ir além. Se for preciso treine mais, se for preciso estude mais, se for preciso se ajeite melhor. A acomodação e o assistencialismo não nos ajudam em nada que seja representativo.

 

Felizmente, cada vez mais tenho recebido retorno de pessoas que estão indo além do que foi dito a elas que era o razoável... Então, borá agitar a vida que é segunda-feira, negada!

 

Em tempo: talvez esse texto tenha ficado com cara de autoajuda, né?! Mas tava com vontade de escrever algo sobre a necessidade de ganharmos mais terreno nessa batalha e não contentarmos com algum avanço. Ah, e amanhã tem a coluna do tio na Folha.

 

*Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h03

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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