Jairo Marques

Assim como você

 

A história de um casal fofo

Nunca conseguia entender ao certo o que representava a palavra “fofo”, quando ligada às pessoas. Algo como “Ai, o tio Zairo é um fofo”... Com vergonha

Pensava que era devido à minha pança, ao meu jeito de ser meio fanfarrão!. Mas eu estava errado, pois ser fofo é autoexplicativo.

Por exemplo, impossível não vir o casal Suely e Augusto saracoteando por ai e não pensar: “Puuuuxa, como eles são fofos”. Apaixonado

“Augusto e eu tivemos poliomielite _paralisa infantil. Eu com oito meses e ele com um ano e meio de idade. Fizemos tratamento na AACD desde a infância até a adolescência. Por ironia do destino, só fui conhecê-lo com dezessete para dezoito anos e ele com vinte e poucos.

Eram os anos 80 e eu começa a fazer o curso técnico em Citologia (estudo das células), profissão que exerço até hoje e ele estava fazendo o curso de Engenharia Civil na USP de São Carlos.

Ele vinha todos os finais de semana para São Paulo. Começamos uma grande amizade entre. Saíamos muito, íamos ao cinema, às discotecas, aos restaurantes, participávamos de eventos de associações de deficientes.

Porém, por motivos diversos, acabamos perdendo o contato. Cada um seguiu o seu destino. Quinze anos se passaram e Augusto, num momento de saudosismo, resolve me procurar, pois, segundo ele, jamais havia me esquecido”.

Taí mais uma característica de eu ter batizado esse casal de “fofo”, pois acredito que só os fofos sabem curtir o tempo da amizade (mesmo já rolando um amorzinho no ar) e sabe ir atrás de quem gosta, quando o coração exige... hummmmm Alegre

“Naqueles instantes do nosso encontro, senti algo diferente, uma emoção boa, algo que jamais havia sentido antes. A cada palavra que ele dizia caia como um bálsamo em meu coração sofrido pelas decepções de amores passados.

Sentia fluir um sentimento que outrora ficara sufocado sem que eu percebesse, enfim, eu estava me apaixonando pelo meu até então querido amigo.  Augusto por sua vez, parecia cauteloso em deixar transparecer qualquer sentimento, porém acabou se rendendo ao  nosso primeiro beijo! Confesso que foi o melhor beijo da minha vida.”

O que isso tudo ai de cima, diz, meu povo?! É ser fofo, num é?!

“Como nem tudo são flores numa relação meteórica, havia chegado a hora de colocar os ”pés no chão” e “os pingos nos is”.  Algum tempo havia se passado, quando Augusto começa a repensar melhor a nossa relação e chega infelizmente a uma drástica conclusão: aquele não era o momento ideal para começar um novo relacionamento.  Esse dia “fatídico” ficou marcado para sempre na minha memória.  Mais uma vez, nos afastamos.

Foram aproximadamente cinco meses sem nos vermos mais, cinco meses de tristeza, angústia e incertezas quanto a uma possível volta. Durante esse período, comecei a trabalhar numa empresa canadense e teria que fazer um curso de especialização em Nova Iorque. Vi então a possibilidade de mudar o foco dos meus interesses."

Tá bem, admito que essa parte não foi com a fofura que nossa expectativa esperava. Mas em toda história de “grande amor” tem os momentos de dar uma ‘sofridinha’... falai?! Muito triste

“Já estava com tudo preparado, passaporte na mão e viagem marcada. Porém, uma semana antes da viagem, chega uma ordem da empresa matriz lá do Canadá para fechar a empresa onde eu trabalhava aqui, por falta de aceitação dos serviços que não condiziam com a realidade do Brasil nessa época.

Por outro lado, o destino estava reservando uma grata surpresa. Encontrei o Augusto em um supermercado, um lugar onde ele ia com frequência na esperança de me encontrar também. A partir daquele momento, percebemos o quanto nos amávamos.

Augusto agora está com 53 anos trabalha como Auditor Fiscal na prefeitura de São Paulo e a cerca de 30 anos atua como voluntário na Associação de Deficientes Visuais e Amigos. Eu, Suely, estou com 50 anos de idade (poderíamos omitir isso não?), trabalho na área técnica do Laboratório Fleury.  Neste mês de junho, completamos dezesseis anos de cumplicidade, união, companheirismo e muito, mas muito amor.”

Em dias frios como estão fazendo aqui por Sampa, agarro minha “nega” e pergunto a ela se vamos resistir ao tempo, à velhice. A gente brinca que ela estará totalmente biruta, me empurrando para lugares que não pedi, e eu um véio reclamão.

E esse pensamento “fofo” nos faz rir por horas e horas. Não é fácil conviver. Não é fácil amadurecer o amor, mas é gostoso de imaginar e de ler sobre quem está no caminho certo para isso... 

“Chamamos atenção, é inevitável, mas isso não nos causa nenhum constrangimento. Acho q temos isso bem resolvido nas nossas cabeças. Uma vez estávamos num casamento, esperando a noiva chegar, o povo todo sentado, o padre impaciente e a Suely resolveu esticar o olho lá para o altar e se desequilibrou...

Ela foi caindo bem devagarzinho e, é claro, se apoiando em mim adivinha o que aconteceu?  Desabamos nós dois bem no meio dos convidados... estatelados no chão e rindo da situação!!!”

Rindo a toaRindo a toaRindo a toaRindo a toaRindo a toaRindo a toaRindo a toaRindo a toaRindo a toa

“Como andamos de muletas temos poucos problemas de acessibilidade urbana, a não ser as escadas. Nas nossas idas a motéis (UUUIA), nunca nos preocupamos em  perguntar se existiam quartos adaptados...sempre nos deparávamos com as escadarias  para  chegar até o quarto, mas sempre encaramos  apesar das ‘dificulidadis’!!! Entorpecido

Agora com o passar do tempo, percebemos q a Síndrome Pós Pólio (clica no bozo que eu explico o que é Brincalhão) está nos impedindo de cometer alguns abusos.

Sinceramente, não foi nada fácil chegar aonde chegamos. Se vencemos algum obstáculo foi com muita garra e perseverança. Caminhamos sempre lado a lado nas mais diversas situações e em nenhum momento um tentou se  sobrepor  ao outro. Esse equilíbrio a gente só consegue ter e entender depois de muitos tropeços pela vida.

A vida nos fez ver que juntos seriamos mais fortes, mais felizes então assim fizemos. Criamos uma relação estável, sem brigas, discussões ou “cara virada”. Estamos sempre preocupados com o outro, então, tudo fica mais fácil.”

Ahhhhh, meu povo... vai falar que não é lindo?! E casal fofo tem de ser assim, comprometido com a felicidade, com a cumplicidade. Penso que se ficar junto é poder contar com o outro, ser um pouco o outro, quando necessário.

Suely e Augusto planejam para breve uma viagem a Paris e um cruzeiro marítimo. E, mesmo considerando todos os momentos em que estão juntos muito românticos, um Dia dos Namorados ficou marcado para ela.
 
“Augusto mandou entregar flores no meu trabalho. Era um arranjo lindíssimo de rosas colombianas. O único detalhe foi que as flores foram entregues para a telefonista que também se chamava Suely. Quando ela percebeu o engano, levou as flores para mim e disse: ‘puxa...queria um namorado assim’.

Fiquei  toda convencida me achando a rainha da “cocada preta”....  Nesse mesmo dia, fomos “jantar” num motel  de luxo...ai...ai..”.

E para quem duvida da “fofice” desse casal, suspirem comigo nesse final.

“Para nós o amor é tudo isso o que passamos, o que vivemos e que ainda viveremos. É um querer bem, é uma reciprocidade de sentimentos, uma vontade interminável de estar juntos para sempre”.

Escrito por Jairo Marques às 00h10

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Inspire-se no amooor!

“Mas será que essa gente sem braço, sem perna, que puxa cachorro, que tem o escutador de novela estragado, que anda sentado, que é meio esquisitona.... namora?”

Namora, meu povo! Deficiência, ‘malacabação’ não são identidades para gostar, para se relacionar.

Para o amor é preciso, sim, enlouquecer um bocadinho, como diria o poeta, é preciso dedicação, é preciso querer dar e receber cafuné, é preciso gostar de dar risada de tudo e de qualquer coisa...

Nas cláusulas do contrato de “amarração” com o outro não está: escutar direitinho, caminhar direitinho, ser todo certinho, ver com perfeição.

Quando por ventura te falarem que “matrixianos” não têm “querer bem”, tragam esse “serumano” para esta página e, em seguida”, clique no “play”!

Inspire-se no amor...

Em tempo: Todos os casais desse vídeo convivem com algum tipo de deficiência física ou sensorial!

 

Para acessar o link direto do vídeo, clique aqui.

Escrito por Jairo Marques às 07h23

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Preliminares de um amor matrixiano!

Eita que chegou mais uma vez a semana mais romântica do ano: a Semana dos Namorados! Aêêê Apaixonado . E, claro, que o ACV não poderia ficar de fora desse clima de coraçõezinhos flutuando pelo ar.

 “Di certeza” que, quem ainda não achou sua “metade da laranja”, como diria o gerador de Fiuk, o Fábio Jr. Bobo, vai ficar inspirado a, pelo menos, se abrir para a possibilidade …

 

Durante toda a semana, teremos por aqui histórias de amor, de encontro, de companheirismo, de planos eternos (ou quase eternos) para o futuro. E, começamos hoje, mostrando que o amor aparece quando menos se espera… basta estar receptivo a esse sentimento que, com certeza, deixa tudo mais colorido. (Se motivar para amar também é fundamental, né, não?)

 

Quem começa a pegação (óia!) com sua história de amor é uma das leitoras de sorriso mais aberto deste espaço: a bela loira Michelle Balderama. Há pouco mais de um ano, contei aqui sua história (Clica no Bozo que eu reconto Brincalhão).

 

Na época, a Michelle falava sobre as mudanças em sua vida depois de um acidente de moto que lhe tirou os movimentos dos cambitos, e se mostrava mais produtiva, mais feliz, mais focada na vida depois dessa virada.

 

Lá no final do texto, ela dizia que, como toda mulher, sonhava em se casar, ter filhos, mas que tudo aconteceria a seu tempo… Bom, pelo andar na carruagem, parece o que o tal tempo está se aproximando, com a entrada nessa história de Pedro Henrique, carioca e vascaíno roxo, que começou uma revolução naquele coraçãozinho…

 

 

 

Não que eles precisem, necessariamente, trancar suas vidas para o chamado sempre, mas que estão um ao outro vivendo um  momento bom de descoberta, de tesão, de carinho e de... preliminares... (uuuuia), isso, estão!

 

O texto que abre a Semana dos Namorados aqui no blog é para inspirar a mente de muitas garotas “matrixianas” ainda encanadas com as possibilidades de seus corpos e de seus coraçõezinhos.

 

A loirinha carismática fala sobre sensações, sobre descobertas e sobre a felicidade de amar... Borá ‘nóistudo’ nessa leitura?

 

Sorte

 

“Em março de 2010, havia um pedido de amizade no meu Orkut. Era de Pedro Henrique, um carioca, vascaíno roxo. Depois de muito papo, percebi alguns xavecos, mas meu medo era se ele saberia da minha condição física. Então, me cerquei de todas as formas, mas ele disse que havia visto minhas fotos e notado que eu era cadeirante. E continuou a marcação”.

 

Do tio: temos de parar com essa besteira de que as ‘internets’ é uma forma fria de encontrar pessoas. Ora, a rede faz parte das nossas vidas, da nossa realidade. Tomando precaução para não cair em roubada, o lance é se jogar mesmo. Se endereço de amor fosse fixo, era fácil achá-lo, falai?!

 

 

 

 “A cada dia que passava, crescia a vontade de conhecer pessoalmente aquele moço extrovertido, mas como faria com ele tão longe? Daí, então, não sei dizer se foi coincidência ou consequência do destino, surgiu oportunidade de eu gravar a novela “Viver a Vida”, no Projac, que fica no Rio (aêêêêê!), estava feliz pelo convite, mas mais ainda por saber que teria a chance de conhecer o Pedro”.

 

Do tio: Quando é para ser, não adianta se esconder nem atrás de uma plantação de melancia, meu povo. O menino cupido arma pra gente!

 

“Ao chegar no Rio, meu coração saltava de ansiedade. Quando anoiteceu, ele foi ao meu encontro no hotel em Copacabana, e foi naquela noite que rolou nosso primeiro beijo. Fiquei na cidade por quatro dias e ele foi todos os dias me visitar.

 

 

 

Quando voltei, ficou a saudade, tínhamos nos dado tão bem! Mantivemos a rotina diária de nos falar por telefone e MSN e, nas conversas, a ideia de um novo encontro. Só que queríamos mais, então percebi a paixão e sentia o mesmo vindo dele…”

 

Do tio: Ai, ai… fala se não é de deixar qualquer coração duro mole que nem margarina quente? A sequência desse segundo encontro foi o início de um namoro e, quatro meses depois, o noivado!!!! Ah, maqueeeeee que isso... Rindo a toa

 

“Antes e depois do acidente já havia me envolvido com outras pessoas. No começo, tinha um pouco de medo, até pensava que não chamaria mais atenção, com o tempo percebi que era besteira, pois nunca senti preconceito ou diferença comparado ao que era antes da lesão. O que posso dizer é que Pedro é um namorado muito atencioso, carinhoso, preocupado. As atitudes dele me conquistaram. Ele é exatamente o que sempre sonhei para minha vida.

 

 

  

Ainda sentia desejo. Queria saber como era e se seria tão bom como antes. Sempre que iniciava uma relação sentia insegurança, pois meu corpo estava mais limitado, não tinha mais sensibilidade, tudo parecia ser diferente, mas ainda assim eu queria conhecer e sentir prazer de novo.”

 

Do tio: Mulheres cadeirantes ainda penam mais do que os homens para mostrarem que a vida sexual continua ‘de boa’, reinventada, após um trauma, um dodói. Mas achar que elas não poderão mais ser feliz na cama, na rede, na praia, na casinha de sapé é puuura bobagem...

 

 

 

“A mulher, por natureza, sempre se excita com boas preliminares, no caso de uma cadeirante, acaba sendo fundamental, antes e durante a penetração. Hoje percebo que o beijo é mais saboroso, as caricias, o calor, o olhar e a respiração, tudo fica mais sensível, é algo que envolve muito, não é somente fazer, e sim curtir cada momento. Pra mim é tão bom quanto antes, só que de forma um pouco diferente”.

 

Do tio: Curta o momento, minha gente. Aproveitem seus amores, libertem suas vontades e encarem os desafios de conquistar alguém!

 

 

 

“Com o Pedro foi assim, eu ficava insegura. Queria mas temia. Aos poucos, ele foi me conduzindo, foi me passando segurança, percebi que foi 100% normal e muito gostoso. Já tinha me envolvido com outras pessoas, mas sempre tinha medo.

 

Hoje percebo que é normal, que cada pessoa tem seu jeito, seus gostos, que fazer amor é e sempre será diferente com o jeito de cada pessoa, independente de ela ser ou não cadeirante. E é assim que vai se formar a “química” do casal.”

Escrito por Jairo Marques às 00h24

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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