Jairo Marques

Assim como você

 

“Escadafobia”?

Essa talvez seja uma das histórias mais doidinhas que já publiquei aqui no blog. Tive de ler algumas vezes, rir um bocado, para, enfim, acreditar. Acessos facilitados e alternativas às escadas por meio de rampas e elevadores ajudam gente que não fazemos a menoooor ideia!

 

O povo cadeirante, muletante e outros esculhambados dos esqueletos ficam mais bravo do que cobrador de pedágio quando recebe nota de R$ 50 quando um ser normalzinho das pernas “disputa” com ele o uso elevador.

 

Tem uns rapagões com as pernas mais forte do que jatobá e umas moçoilas mais esbeltas que a Wilza Carla que, sem o menor pudor, entram na fila do elevador e, quando muito folgados, até passam na frente de quem não tem outra maneira para subir ou descer.

 

 

A maioria desse povo é mesmo mais folgado do que colarinho de palhaço, é fato. Acontece, porém, que existe ‘serumano’ nesse mundo que... TEM MEDO DE ESCADAAAA! Muito triste

 

O relato, saboroso demais da conta e engraçadíssimo, é da leitora Karla Fabrício de Godoy, advogada aqui de Sampa! Aprendam e divirtam-se muuuuito!

 

Bom final de semana e beijo nas crianças!

 

Sorte 

 

“Já tive vergonha desse meu medo. Não pelo medo em si, mas pela incapacitação que ele causa e pelo sentimento de culpa de uma não “matrixiana”. Afinal, tenho plena capacidade física e (supostamente) mental. Passa pela cabeça aquela coisa “isso é frescura!

 

Você é uma moça com duas pernas, braços, tudo funcionando, e fica aí empacando por conta de meia dúzia de degraus! Tanta gente com cadeira de rodas, muletas, que tinha tudo para empacar, mas vai que vai que é uma beleza, descendo escada, morro, ladeira, de um tudo! Fresca, fresca, fresca.

 

 

 

Mas, a gente amadurece e percebe que todos nós temos limitações. Pode ser física, mesmo. Ou pode ser um medão danado, que não faz sentido para mais ninguém, e que parece a coisa mais ridícula do mundo.

 

E o negócio é respeitar as nossas limitações, a dos outros, e aprender a lidar com elas e ajudar os outros a lidar com as suas, né? E, se der, nesse meio tempo, dar umas risadas da nossa própria cara... afinal, seria muito injusto que só outras pessoas se divertissem às nossas custas!

 

Por essas e por outras, quando travo por causa da minha “escadafobia”, eu me respeito. Sento, respiro, desço de bunda, e, se for preciso, chamo os bombeiros (ainda não precisei fazer isso, mas essa hipótese não está descartada)... Carente

 

Uma vez na saída de uma reunião com um cliente, tinha uma dessas escadinhas malditas em espiral... Ui, na subida eu já sabia que não ia conseguir descer em pé. Quando a reunião terminou e eu precisava descer, com o cliente me acompanhando muito educado e gentil, não tive dúvidas, pedi uma licencinha, descalcei o salto alto, fiquei de meia e, não bastasse, desci de bunda... Beijo. Ainda bem que o cliente era do tipo que acha que alguma loucura é necessária num bom advogado.

 

Mas, vai imaginando que cena linda, uma pessoa descendo a escada de bundinha, toda vestida “de social”, segurando os saltos nas mãos. Uma coisa linda. Mas mico é assim, tá aí pra gente pagar, mesmo.

 

Já tive um incidente internacional parecido. Tem um restaurante, muito bom por sinal, em Buenos Aires chamado Millon. Fica num prédio que foi um internato, construção estilo inglesa e tal. Além da boa comida, o legal é conhecer o casarão onde ele está instalado. Escadas mil, daquelas de madeira, polidas com cera que chega a brilhar.

 

Subi até o último andar. Não fosse o meu total desapego à preservação de minha imagem, estaria sentada no alto daquela escada até hoje... Desci sentada... e demorei mais de uma hora. Fui perguntada várias vezes se estava “borracha” no caminho... Bem que eu queria estar, “borracha” eu fico mais corajosa em relação aos degraus dessa vida. Embaraçado

 

 

Outro dia estava na estação Barra Funda do metrô e dei de cara com a escadaria. Afrouxei, arrisquei não. Fui até o seu guarda da estação e perguntei onde ficava o elevador. O moço se dignou a sair de trás do balcão para me dar uma olhada de cima a baixo e verificar onde é que estava a minha “necessidade especial” que justificasse eu pedir para usar o elevador!

 

Sei que pode ser pecado, mas fiquei com vontade de ter uma perna mecânica e arrancar a dita cuja para esfregar na cara do seu guarda. O que ele era?! Um censor de acessos?! Tive que explicar todo o meu problema psicológico na frente de outras dez pessoas para finalmente o seu guarda me dizer onde ficava o elevador que dava acesso a plataforma que eu precisava ir.

 

Também no metrô, desci dois degraus, na plataforma da Ana Rosa para a da Vila Madalena (que não tem escada rolante, mas tem elevador, esses dias eu usei!) e travei. Suava frio, não conseguia nem me virar pra voltar!

 

Devia estar com uma cara de quem vai chorar (e provavelmente, eu iria), passou um monte de gente perguntando se eu estava bem, se precisava de ajuda, até que um moço do metrô veio em meu auxílio.

 

Quando disse que tinha travado e não conseguia sair dali, ele se ofereceu para me apoiar até lá embaixo. Mas o meu medo é uma coisa tão louca que é daquele tipo “se tiver gente do lado, atrás, na frente, piora”. Expliquei isso. Ele deu uma risadinha, mas ficou ali até eu conseguir subir, de ré, os dois degraus que eu tinha descido. E me deixou usar o elevador sem questionamentos. Tonto

 

 

Aliás, tai uma coisa muito louca, essa do metrô! Custava ter escadas rolantes subindo e descendo para todas as plataformas (com esse preço da passagem pela hora da morte)?! Agora, até que eles estão fazendo uns investimentos, colocando escadas rolantes aqui e ali, uns elevadores, mas mesmo assim...

 

 

Aqui na Vila Mariana já aconteceu uma coisa ridícula. A saída que eu uso dá pra rua Noé de Azevedo e só tem escada rolante pra descer. Estava eu lá subindo a escada, bem feliz, quando lá em cima dou de cara com uma moça e seu filho, de cadeira de rodas.

 

A pobre estava esperando algum cristão passar e avisar que ela precisava que invertesse a escada para que ela subisse para a estação. Claro, porque não tem funcionário do metrô lá na saída. Eu me dispus a ir. Foi ridículo. Empaquei no meio da descida.

 

A moça quase teve que largar o filho lá, que era uma criança pequena, na cadeira de rodas, e vir me socorrer... fui salva por um idosinho, que vinha escalando a escada. No fim, eu queria ajudar e tive que ser ajudada... Rindo a toa Pelo menos, consegui avisar o moço do metrô.

 

Defendo um mundo acessível de todas as formas possíveis! ‘Rampificação’ já!!!( Tai uma coisa que realmente é boa no Palácio do Planalto, as rampas)!

Escrito por Jairo Marques às 00h01

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O apetite da pantera

Só, agora, aos 35 anos (quem duvidar olha no quadrilho ai do lado com minha fota Bobo) comprei uma cadeira de rodas das importadas.

“Hummmm, tá metido, heim, tio?! Contando dinheiro na frente de pobre!”

O lance nem é que quero me “inzibir”, zimininos. Acontece que, quanto mais véio o povo malacabado vai ficando, menos esforço nóistudo devemos fazer para poupar nossos músculos. Mesmo eu sendo o rambo, preciso entrar na regra.

“Uai. E o que isso tem a ver com uma cadeira lá dos exterior de fora do Brasil, sil, sil, sil, tio?”

Infelizmente, ainda vai um queijo e uma rapadura para que a indústria nacional consiga ter a tecnologia que os gringos já têm para desenvolver cavalos possantes, levinhos, confortáveis e seguros.

Para quem faz uso frequente de cadeira de rodas, é preciso saber que não dá para pegar qualquer uma pelo cangote e sair montando. Cada pessoa tem seu tamanho específico e medidas para um tipo de cadeira. É igual a comprar uma calça nos alfaiate, sacam?

Sem isso, o malacabado, que já é mais torto que a Torre de Pisa Muito triste, corre o risco de virar pó loguinho, loguinho.

Mas eu sei bem que a realidade social desse país que tá bombando mais do que a Líbia Rindo a toa na economia, ainda é ingrata e muita gente opta mesmo pela cadeira mais barata e que lhe parece relativamente confortável para tocar.

O modelito que comprei é feita nos “Estadusunidos” à base de um tal de titânio. Pesa a metade da última que eu tinha, que já era relativamente leve. Custou os tubos. Haja cheque borrachudo, cartão de crédito emprestado, dinheiro da famiage tudo pra ajudar.

Enquanto eu pensava na compra, feita naquela famosa feira dos ‘matrixianos’, observa as centenas de pessoas que tinham de sevirar.com.br em cadeironas pesadas, velhas, e feitas em escala...  Desigualdade absurda. aborrecido

Não consigo embutir num instrumento de liberdade e de primeira necessidade, como é uma cadeira de sentar e andar, a mesma lógica capitalista de um carro: quanto mais poderoso e granudo o caboclo for, mais potente será sua charanga.

O que me impressionou de forma definitiva, porém, foi a cadeira mais cara e cobiçada do evento, uma tal de... Panthera. Sabem quanto custa o brinquedo: R$ 16 mil. Zente, é dinheiro que dá pra comprar um caminhão de esterco, né?

A tal da Panthera, fabricada na Suécia, é um sonho de consumo, de fato. Pesa dois quilos (uma nacional, das melhores, pesa 13 ou 14), tem uma dinâmica perfeita, produzida com o puro creme do milho... ou melhor, de fibra de carbono.. Bem humorado

Com o dólar não valendo nada, os cavalos puro sangue do exterior estão invadindo o Brasil, mas com preços de fazer a gente chorar pelado no asfalto quente.  

A cadeira que comprei, por exemplo, custa, nos EUA, 30% do que paguei aqui. Isso mesmo, menos do que o dobro....

Será que não era o caso das “otoridades” tomarem atitudes para que equipamentos que visem melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiência possam ser comprados sem que a gente tenha de vender o almoço para comprar a janta, sem sermos tão explorados?  

 Em tempo: Sobre o post anterior, a MTV fez uma retratação pública e se comprometeu a dar espaço de divulgação útil para a batalha da inclusão. Por hora, demos um “fatalit”, mas a gente segue acompanhando.

Escrito por Jairo Marques às 00h08

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A comédia sem graça da MTV

Assisti ontem pela primeira vez um vídeo que tá rodando nas internets chamado “A casa dos Autistas” produzido e encenado por humoristas da MTV, que tão mais por cima do que queijo em bife à parmegiana.

 

Sempre encaro as peças cômicas com o coraçãozinho aberto, afinal, graça é feita para rir e não para ficar pensando, matutando suas razões, fundamentos, ‘sacadas’ geniais.

 

Já escrevi aqui neste espaço um punhado de vezes que defendo o direito pleno à liberdade de expressão e que é a Justiça quem deve determinar o que ultrapassa o limite do bom senso e deve ser punido com indenização, com reparação moral, e tudomais.com.br

 

Sinceramente, apesar de muitos me verem como “representante” importante da classe dos ‘malacabados’, não falo jamais em reserva de mercado para nos defender de ser alvo de piada, de quadros humorísticos... Acho que, se tem fundamento, tem graça, tem elegância, tá valendo, sim...

 

Contudo, eu que me acho bem humorado, fiquei pasmo, embasbacado com o vídeo do “Comédia MTV”. Quem não viu, talvez seja importante bater o olho clicando no bozo.... Brincalhão

 

 

Não convivo com nenhuma pessoa autista, conheço pouco do mundo em que vivem e seus perrengues, mas senti um asco violento ao assistir o quadro. Não por um puritanismo de querer criar um manto de proteção aos autistas, mas, sim, por achar que o quadro tem o sentido único de tirar graça do lugar comum, do estereótipo, do estigma que paira sobre as pessoas que batalham contra o transtorno.

 

As associações que visam incluir os autistas em sociedade e tentar quebrar tabus que as envolvem estão quebrando uma pedra danada para que deixemos de ver seus pares como lunáticos, gente esquisita, gente que deve viver apartada do convívio de todos.

 

Não vai demorar, pois me atrevo a dizer que conheço um bocadinho de mídia, alguém defender que o vídeo tem um “fundo” didático e quer desmitificar o autismo. Bem, louvável seria isso se houvesse uma explicação mínima durante o quadro, um debate, uma mensagem, o que não acontece.

 

A passagem mostra apenas os atores tentando provocar graça por meio de gestos repetitivos, gestos que, a meu ver, são de cunho particular do autista, de suas famílias e de pessoas que as compreendam minimamente.

 

Tendo a achar que os jovens e adolescentes que viram o quadro do “Comédia MTV” _exibido há cerca de um  mês, mas que ganhou repercussão agora_ só reforçaram em si aquilo que imaginam que as pessoas com deficiência não são capazes de fazer ou que fazem de forma desajeitada, esquisita, mocoronga.

 

A minha convicção é que isso não agrega em nada. Agrega é mostrar o que os “diferentes” podem fazer igual ou melhor que os outros, mostrar que limitações existem, mas podem ser enfrentadas, redesenhadas e integradas nos meios sociais.

 

 

Um programa de imensa audiência nos EUA, o American Idol, tem entre seus finalistas neste ano um caboclo que possui autismo leve, juntamente com outra síndrome que afeta seu comportamento.

 

James Durbin é beeeeem doidinho durante suas apresentações. É agitado, irrequieto, fala mais do que a boca e até já fez propaganda da Pepsi, durante um programa ao vivo, patrocinado pela Coca-Cola. Mas, o que o show quer de fato saber é se ele tem ou não talento. E o cara, até agora, arrasou, quebrou tudo, cantando Rock and Roll. Saca um vídeo dele aqui.

 

Uma pena que a MTV, uma emissora que ajuda na formação de jovens, além de entretê-los, não consiga dar uma bola dentro em relação à inclusão. Gente talentosa, tenho certeza que há aos montes por lá.

 

Insisto que não se trata aqui de tornar uma “classe” de gente imune à comédia, à graça, à piada. Por essa lógica, eu mesmo estaria comprometido de seguir na batalha pelo domínio do mundo.

 

Mas fazer humor, pelo menos pensando nos grandes mestres como Chico Anysio, Jô Soares, Renato Aragão, Tom Cavalcante e outros, envolve inteligência, criatividade e respeito ao ser humano, fonte inesgotável de graça.

 

Escrito por Jairo Marques às 00h04

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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