Jairo Marques

Assim como você

 

Sentir na pele... ou nas rodas!

É ‘di certeza’ que pelo menos trêeeees ou quaaaatro leitores eu tenho lá nos Estadusunidos...  Ser chique faz parte de mim, né, zente? Beijo

 

Uma das pessoas que dão essa audiência ‘maraviwonderful’ é a Simone Duarte, que eu quaaaase conheci quando estive em Nova York, faz dois anos.

 

Ela havia lido um post que escrevi, lá mesmo em Manhattan, quando vi o tio “Obamba” passar pela rua (quem não leu, clica no bozo! Brincalhão) e me mandou um email para tomarmos um café... mas, houve um contratempo e nem rolou.

 

Bem, mas a Simone acabou por virar ‘habitue’ (aprende tres antonte essa palavra Muito triste) do “Assim como Você” e mandou uma dica sensacional, que fecha bem essa semana que falei tanto de infância...

 

“Jairo, ontem fui ao NY Hall of Science (um museu de ciências aqui em NY) com a minha filha e vi um "brinquedo" que achei bem interessante...

 

O museu é inteiro "hands on" (algo como com as mãos na massa, em portuga!), então as crianças brincam pra testar a ciência. E não é que tem uma sessão nova com esportes?!

 

Lá, a criançada testa a velocidade de diferentes bolas, o equilíbrio numa prancha de surf etc. Agora, o detalhe um dos brinquedos é uma corrida de cadeira de rodas, com dois tipos de cadeira, uma normal e uma daquelas de corrida.”

 

 

Povo, só esses americanos pra criar um troço desses, mesmo, né, não? E, pra mim, faz todo sentido! Quando eu era moleque, meus colegas eram doidinhos, doidinhos pra ‘testar’ a minha cadeira de rodas.

 

Os mais chegados, eu deixava que usassem, que dessem uma corridinha e, sobretudo, que tomassem um tombaço, pois quem não tem o dom de usar o ‘cavalo’, ele dá uns coices brabos! Insatisfeito

 

“O brinquedo, na real, é um simulador, então a cadeira não sai do lugar e a corrida passa numa tela, como fosse um vídeo game. Mas as crianças têm de tocar a roda pra ganhar.. Achei bem legal e era o brinquedo preferido da molecada”

 

 

Talvez, uma iniciativa como essa sirva demais para a aproximação de uma criança andante com outra cadeirante. Nada melhor do que saber um pouco da realidade do outro, sentindo na pele, para aprender a respeitar, admirar, entender....

 

Evidentchimente, o museu é absolutamente acessível e faz questão de deixar claro: “para toooodas as deficiências”. Quem manja um bocadinho de inglês, pode visitar o site do local clicando no trevo da sorte Sorte

 

 

 

Da próxima vez que eu for lá nos EUA, farei questão de visitar esse espaço e tomar um café com a Simone....

 

Enquanto isso, aqui em terras “bolsonarianas”, onde o desrespeito com o ser humano vence eleição e atropela direitos constitucionais, crianças com deficiência ainda são barradas em escolas, impedidas de curtir espetáculos, esquecidas em passeios aos museus...

 

Ah, mas eu ainda domino esse mundo.... ah se domino....Bora lá, Matrix?! Legal

 

Beijos nas crianças e bom final de semana!

 

Em tempo: "Zimininos", e ai? Já mandaram suas frases pra ganhar o Ipad? Tô eperandooo.. Pra saber mais, clica no bozo! Brincalhão 

 

* Fotos de Simone Duarte

Escrito por Jairo Marques às 00h44

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bullying e deficientes

Ontem conversava com uma amiga sobre esse negócio de bullying. Na minha época, o nome não era americanizado e chamava-se “encher o saco dos zoto” mesmo. Sem nenhuma dúvida, crianças com algum tipo de deficiência física ou sensorial entram na mira das perseguições e, inclusive, na lista dos alvos preferenciais.

 

Devido minha idade avançada Beijo, “difinitivamente”, como diria minha tia Filinha, não consigo me lembrar de nenhuma situação em que sofri bullying devido a minhas pernocas secas, pelo menos que tenha sido flagrante. Mas são claras na minha recordação os apelidos, as risadinhas de canto de boca.

 

Também consigo puxar dos guardados a vontade que eu tinha de ser fortão, igual ao menino gordinho do famoso vídeo que circulou o mundo (clica no bozo se você não viu Brincalhão), e reagir dando um safanão, um “fatalit” naqueles que “se achavam” a última bolacha do pacote e me perturbavam.

 

 

Mas, a minha realidade era mesmo a de um garotinho franzino (juro que eu magriiiinho quando era mais menino surpreso) que reagia apenas dizendo “seu bobo”, ou fazendo cara feia, ou ignorando o fato e partindo para os braços de quem era meu amigo de verdade.

 

Quem me dera ter o talento e a competência da Rosely Sayão para tentar dar algum conselho aos pais de crianças “malacabadinhas” de como agir diante da ameaça aos filhos. Mas, como o tio “Zairo Shortinho” Rindo a toa, me atrevo a expor alguns pontos de vista.

 

A personalidade de um guri ou uma guria não vai depender, necessariamente, de sua deficiência. Então, se aquele cadeirantinho atentado e falante, de repente, fica amuado, muda de comportamento de forma brusca, é um sinal importante de que alguma coisa tá indo errado.

 

 

 

Por exemplo, se aquela aluninha cega, que era toda espevitada, passou a ficar calada demais, chorosa, pode ser um sinal importante de que há algo errado. Conversar, entender o que está acontecendo e AGIR é fundamental.

 

Acho que uma criança com deficiência precisa, desde cedinho, ter plena consciência de sua realidade. Quando a gente sabe que não pode andar, mas pode voar, pode brincar, pode sorrir, fica mais fácil de contra argumentar a um “ataque” de bullying.

 

O que é preciso evitar a qualquer maneira é que a criança se revolte contra sua condição, pois ai ela torna-se inimiga de si mesma, né, não?! Mostrar exemplos de outras pessoas, ajudar a criar soluções de defesa (pacíficas, sempre, claro), é um caminho!

 

 

 

E reagir com inteligência, com elegância é muuuuito bacana e efetivo. Motivar os “fortões”, os agressores é que poderá sustentar uma situação mais duradoura. Esses pequenos “monstros” se sustentam do medo alheio. Reagir com violência pode ser "muito legal" para ver no vídeo de sucesso, mas o efeito costuma ser colateral na vida cotidiana.  

 

Particularmente, e muito particularmente, penso que os pais precisam ter segurança absoluta de que há necessidade de “intervenção” nos casos. Tirar sarro, brincar e até mesmo gracinhas de jogar boi na água Inocente, de certa maneira, fazem parte do crescimento.

 

Digo isso porque o limite para que um apoio se transforme em superproteção é tênue e as consequências podem ser desastrosas para o futuro. Então, é preciso ter segurança de que realmente se flagra uma situação de bullying e é necessário agir.

 

Por fim, porque já escrevi demais, ouça muuito a criança. Perceba o que ela precisa e que sugestão ela mesma tem para driblar o problema e, sobretudo, incentive sempre os pequenos a acreditarem em si mesmos! Por esses tempos, é sempre bom também conhecer qual a política da escola para conter, punir e reverter essa prática idiota e devastadora. #prontofalei

 

* Imagens retiradas do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 15h55

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O pliê de Júlia

Acho ‘maraviwonderful’ o contraste profundo entre a perfeição exigida pelo balé, com seus movimentos clássicos e tremendamente precisos, e o abraço que muitos professores dessa arte tem dado ao povo que não anda ou que anda pelejando daqui e dali.

Toda vez que brota para mim a história de uma criança que está sendo devidamente envolvida na dança mais nobre da danças é irresistível não pensar “é, algumas coisas estão mudando!”.

E quantas meninas não sonham em ser ‘balalinas’? Quantas não querem brincar de voar no ar, leves, sonhando com o tocar no céu, querendo ser plumas, ser folhas que se propagam em viagens pelo vento?

E por mais severas que sejam as limitações de movimentos, de possibilidades de fazer os famosos movimentos pliê e damipliê, a criança com deficiência quer, pode e deve, a sua maneira, tentar bailar.

Assim fez a Júlia... guiada, incentivada e ‘empurrada’ pela mãe, Rita. 

“A Júlia gosta de tudo o que simboliza vida, adora dançar, falar, conhecer gente nova e não seria uma "simples" mielomeningocele com hidrocefalia que a iria impedir de viver plenamente... (para saber o que é o dodói, clica no bozo Brincalhão).

Em 2006, aos 4 anos, começou a fazer aulas de balé na primeira turma de dança da academia onde já fazia natação desde os 5 meses. Naquele ano houve uma apresentação de final de ano e ela dançou de muletas com a turminha, foi uma surpresa para todos quando entrou no palco, pois era e ainda é a única deficiente da turma.

A música era  "Etcetera e tal" da Sandy e Junior, no meio da dança, ela escorregou e caiu. A platéia parecia ter parado de respirar tamanho foi o silêncio. Mas no mesmo instante, ela se levantou sozinha, rindo de si mesma, e continuou a coreografia como se nada tivesse acontecido. Ao final foi aplaudida de pé. E de pé também eu chorei.”

Para nós, que somos seres de um mundo paralelo munidos de cachorros que nos guiam, de muletas que nos amparam, de cadeiras que nos levam com suas rodas, é sempre muito difícil exibir nossas partes sobressalentes ao público.

Mas o caminho daquele que se expõe, que vence o medo e aceita que ‘ser diferente é da vida’, fica mais suave, mas firme para enfrentar o por vir. Quem pode fazer pirueta no ar, bravo, quem pode fazer pirueta na imaginação, na vontade, bravo também!!!!

“Em 2007, Júlia uma cirurgia fez com que interrompesse os ensaios já que não poderia andar por uns meses. Ficou muito triste, achando que não se apresentaria naquele ano. A professora, então, adaptou a coreografia para que ela pudesse dançar de cadeira de rodas, afinal o show tem que continuar...

Se todo educador tivesse plena consciência do poder que tem de incentivar a vida de uma pessoa ou pessoinha com deficiência, a gente já teria dominado o mundo. A melhor atitude sempre é tentar ajeitar tudo para todos.

Toda brincadeira, toda arte pode ser compartilhada por todos. Ninguém precisa ser sempre a Ana Botafogo, a melhor das melhores no palco. Uma menininha “malacabadinha” só quer seu momento de bailar, a seu modo, mas estando ali... brilhando!

Ah, e se o destino e o talento conspirarem é ooooutra novela, outro post...

“Em 2008 foi a vez de homenagearem a cultura do Brasil e cada turma representou uma região do nosso país. A Júlia coube o Amazonas e, junto com os amigos, dançou "1,2,3 indiozinhos".

Em 2009, outra de suas tantas cirurgias mais uma vez a impossibilitou de ensaiar de muletas, mas o que era pra ser problema transformou-se em uma de suas mais lindas apresentações, o tema naquele ano era “Princesas Disney” e para ela coube o papel de Branca de Neve, com cadeira de rodas e tudo e com a participação exclusiva de suas dedicadas professoras.”

Ahhhhh, vai falar que agora a Rita não pegou ‘ceitudo’ no contrapé?! A mais delicada das mais delicadas donzelas do mundo, a mais perfeita, a mais encantada, a mais admirada foi, por algumas horas, diferente....

A sacada dessas mestras, para mim, é digna de prêmio. Imagine a inversão de valores que elas provocaram na cabeça do público, das crianças e da própria Júlia? Já ouvi relatos e mais relatos de pais cujos filhos ‘matrixianinhos’ sempre foram jogados a papeis mais do que secundários nas peças da escolas: a pedra, o puxador da cortina, a costureira da roupa branca, o irmão do bandido...

Avalio que tudo para uma criança com deficiência precisa ser ‘nem tanto ao céu, nem tanto ao mar’, igual é na vida. Que se experimentem as delícias e as agruras, igual a todo mundo ou “igual a tudo na vida”, como diz o homônimo filme do Woody Alen.

“Enfim, o ano passado, 2010. Além da coreografia com a turma de aula (Lua de Cristal - da Xuxa), as professoras bolaram uma outra especialmente para ela com as músicas Manequim e Companheiro, do grupo Dominó, e convidaram dois bailarinos para a acompanharem, um deles professor de dança de outra escola.

Na véspera da apresentação o professor convidado trincou o tornozelo, (Adendo do tio, fala sério... que coisa, né?), mas disse que não deixaria de dançar com a Júlia nem que tivesse que ir com o pé engessado; não a deixaria na mão.

Ele substituiu o gesso por uma tala móvel que só foi tirada para subir ao palco, usou um tensor para comprimir o inchaço, disfarçou a dor e sorriu, fazendo o seu melhor. O outro parceiro de dança é também médico e ficou o tempo todo com ele no camarim passando pomada e massageando para que aguentasse a dor na hora e depois da apresentação. Se isso não for solidariedade e inclusão, não sei o que mais seria.”

Não existem grandes histórias sem grandes protagonistas. E imagine o quanto essa pequena menina irá reproduzir esse momento do esforço de seu companheiro de dança ao longo de sua trajetória? Tendo a achar que ele não agiu para evitar um mimo, uma choradinha por algo que não aconteceu...

Talvez, o médico tenha agido para mostrar a própria Júlia que todos nós, em um momento ou outro, temos de fazer esforços, temos de apertar a dor, temos de vencer o improvável para seguir firme adiante, para ter aplausos.

“As professoras Vanessa e Silmara, bem como seus colegas de turma, sempre trataram a Júlia com respeito e igualdade, ela participa de tudo, até das cobranças e broncas. Tudo isso, me dá cada vez mais a certeza de que sua Kombi (nossa Kombi) está indo pelo caminho certo.

Cada um fazendo sua parte para um mundo cada vez mais igualitário, mesmo que para isso o esforço tenha que ser grande, pois sempre valerá a pena.”

* Imagens de arquivo pessoal

Escrito por Jairo Marques às 00h06

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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