Jairo Marques

Assim como você

 

A chateação de Drummond

Não é preciso procurar muito. Ela está sempre de butuca, com a boca escancarada, mas sem seguir a poesia de Raulzito: não tem nenhum dente.

No menor descuido, mordisca o salto alto da moça que passeia ‘avuada’ das ideias na hora do almoço, enrosca a rodinha do carrinho do bebê fofo, fofo e deixa o coração da mãe apertado.

A danada não perdoa e é bruta também com o tiozinho da bengala e prende-lhe o pé. Machuca. Pega o jogador de futebol e tira dele a bolinha do final de semana.

E esse povo montado em cadeira de rodas? A bicha age com fúria. Impede a passagem, barra o direito do sagrado “ir e vir”, machuca, quebra, luxa, faz hematoma, aprisiona dentro de casa.

As calçadas, os passeios das cidades estão aí para azucrinar. Por outros cantos são amigas. Dão segurança, tranquilidade, guiam, acolhem. Mas aqui por nossas terras, afora as mais metidas à besta, em bairros nobres, servem mesmo é para maltratar.

Solto na rua, toco minha cadeirinha vermelha sempre ressabiado, esperando pelos habitantes mais comuns das nossas calçadas: as buraqueiras, os desleixos, o descuido total, a pegadinhas, as ‘porquices’.

Não cabe na minha (falta de) razão entender porque raios os homens públicos (e todos os outros, guardadas as devidas responsabilidades, também) desprezam tanto seus caminhos. E pensar que todo o mundo planeja e busca incessantemente um caminho.

Dar cabo de tamanha angústia, a angústia do passeio comprometido, parece tarefa tão pequena para utilidades tão grandes. Na calçada a gente namora, a gente descansa à sombra, a gente passeia com o Rex (e cata a caca dele depois), a gente se entreolha.

Não dá para eternamente ter pedras, postes, caçambas, lixeiras, e outras tranqueiras no meio caminho. A rua é do povo. De qualquer povo. Drummond mesmo, o da pedra, hoje sentado à orla de Copacabana, deve ficar embasbacado e chateado por tê-lo deixado diante de não uma, mas de centenas de pedras... e das portuguesas, soltinhas, problemáticas.

O poeta e todos nós merecemos mais. Merecemos um país com passeios lisinhos, acolhedores, seguros, públicos. Enfim, que reformem, que planejem, que contemplem, por todos os cantos... as calçadas...

* Imagens feitas no centro de São Paulo pelo leitor Ric Oliveira

Escrito por Jairo Marques às 00h39

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No mato com cadeira...

Até hoje, por mais que eu seja um homi mais maduro do que fruta embalada em jornal Bobo, ainda me chateio quando me dizem ou que percebo que não vou conseguir ir a algum lugar devido à falta de acessibilidade.

Dá um ‘amargorzim’ estranho na guela esse lance de “não poder”, de a condição física ter uma voz mais alta do que a minha vontade, o meu querer fazer.

Quando fui a Paris (clica no bozo que conto tudo! Brincalhão), no ano passado, afinal sou mais chique que usar camisa por dentro das calças Rindo a toa, havia uma igreja bem famosa, chamada Sacré Coeur, cheia de escadaria, num local bem trabalhoso para chegar.

Deixei de fazer o passeio, a mulher foi sozinha, meio que frustrada, e eu também. Ao final, a gente se informou e viu que era possível, sim. Faltou planejamento, atenção, curiosidade suficiente diante do novo.

E isso é o segredo para que  um ‘malacabado’ enfrente situações adversas: ter claro o que você irá enfrentar, se vai ter ajuda, se vai ter condições mínimas para não se isolar ou se expor a uma condição de insegurança.

Quando vi as aventuras que essa garota de beleza marcante se dispõe a enfrentar, fiquei me empolgado e pensei que não tive tanta coragem como ela para enfrentar terrenos, digamos, hostis.

O lance da Keilla Araújo, 29, é.... Acampar! Ah, vá, tá achando que encar o mato montado em cadeira de rodas é para os mortais comuns?

“Há pequenos momentos que vivemos e observamos que somos capazes de fazer e curtir a natureza do mesmo jeito que todo mundo, mas usando uma cadeira de rodas. E como é bom ser livre. Saber que a minha cadeira não me limita a nada e sim me impulsiona a descobertas. Ver que não tenho limite e nem me limito a viver.
 
Sempre tive vontade de acampar só não havia tido coragem de ir sozinha, como não fui.

Primeiro passo, antes de tudo, foi olhar uma barraca que pudesse colocar a cadeira, caso tivesse chovendo. Olhei uma que tem uma varanda! Assim não tive que me preocupar em como guardar meu veículo. Parece que adivinhei, choveu bastante na primeira noite de aventura.”

Se o tio já teve vontade de se embrenhar pelos mato tudo? Claro que sim. Até me aventurei em alguns terrenos complicosos lá das “Trelagoa”, mas nada que fosse uma grande viagem, que exigisse uma logística grande.

Só de pensar que as rodas da cadeira poderiam ficar presas no meio do mato, que, de certa forma, eu ficaria empacado, me desanimava. Contudo, admito que ficar no meio do nada, sendo picado por mosquitos, mas curtindo a natureza, fez falta pra minha história... Com vergonha

“Meu primeiro acampamento foi  na Serra do Cipó, no Véu da Noiva (MG).  Antes de decidir a ida para lá, comecei a pesquisar sobre a estrutura  das áreas de camping, acessibilidade para as cachoeiras e em toda área que pudesse ser utilizada por mim.
 
Encontrei dificuldade para me locomover em alguns lugares no Véu da Noiva por causa da areia que me impedia de ter acesso até a cachoeira. Há também uma subida de uns 200 metros, uma trilha cheia de pedras e estreita para atingir o local. Não havia como chegar se não for carregada, mais vale à pena o esforço de alguém para levar, a cachoeira é linda!”

Sabiam, “zimininos”, que em muitos locais de aventura mundo a fora existem equipes de voluntários só para dar uma hand pro povo ‘matrixiano’? Juro! Há grupos que ajudam a escalar montanhas, enfrentar trechos hostis de serras, de neve, de terrenos rochosos.

A filosofia desses grupos, em geral, é que a natureza é tão ‘maraviwonderful’ que precisa ser desbravada e aproveitada por todos. Espetacular, não?! Aqui no Brasil, ainda não conheço nenhuma equipe que promova aventuras para os ‘dificientes’ de maneira voluntária... alguém conhece?

“Na área de camping havia uma piscina de água natural de fácil acesso dando para chegar de cadeira sem muitos problemas. Tinha banheiro acessível e uma  equipe de funcionários que  nos auxiliam, quando é preciso.

Fui conhecer outras cachoeiras e quis fazer algumas atividades que podem ser feitas com pessoas com deficiência. Mas, infelizmente, não posso dizer nada sobre as atividades feitas na Serra do Cipó, com empresas especializadas em ecoturismo. Era Natal e eles não trabalharam no feriado. Antes de ir ao local, certifiquei que era possível praticar algumas atividades com pessoas com deficiência como: tirolesa, canoagem, cavalgada...”

Aventura até eu já curti, mas dentro de uma estrutura ‘mauricinha’, né? Acho que algo mais ninja, atualmente, eu não toparia, não. Insatisfeito

“Gostei tanto de ter acampando que resolvi ir um pouco mais distante. Fui para Portal da Chapada, Chapada dos Veadeiros, Alto Paraíso, Goiás, uma aventura e tanto. Fui de ônibus, viajei mais de quatorze horas até Brasília, e mais 5 horas de Brasília até Alto Paraíso, mais todo esforço foi muito válido.

Antes de ir, pesquisei pela internet qual daquelas áreas de camping teria acesso para cadeirante com banheiro, uma cachoeira que fosse mais fácil o acesso para quem é ‘malacabado’. Diferentemente da Serra do Cipó, a cachoeira é bem mais fácil de chegar, conta com um caminho de pedras largo  dá pra ‘cadeirar’ até a metade do caminho, lembrando que é bom ter alguém nesse trajeto para ajudar nos pontos mais punks.”

Em geral, a pessoa com deficiência que tem restrição total de ganhar um colinho, que tem medo de apaixonar ficando em braços fortes Carente, não vai conseguir viver emoções ligadas ao turismo na natureza.

Não dá colocar cimento ou aplainar terrenos em locais mais ermos, mais desertos. Então, o lance é contar com apoio. Mas, repito, é sempre prioritário pensar na segurança. Saber se o “carregador” tem mesmo condições de levar o deficiente de forma ‘susu’.

“A Chapada dos Veadeiros  conta com empresa de ecoturismo e alguns esportes podem ser praticado por pessoas com deficiência como: a tirolesa, caminhada ecológica, etc. O portal da chapada foi o único lugar de Alto Paraíso que tinha banheiro adaptado, a área do camping é plana. O lugar conta com um trecho um pouco complicado para chegar sozinha até o banheiro. Há umas madeiras com espaço de uma para outra de uns 15cm, além de ficar uns 10 cm do chão, o que me deixou um pouco desconfortável, fiquei muito dependente!

Tem também uma trilha ecológica de madeira que dá para um cadeirante fazer, já que é bem larga e não é muito irregular, mais é bom ter alguém para ajudar por causa de um trecho até a tal trilha que é de areia e a cadeira não sai do lugar. Fiquei mais dependente do que já estava, quando o meu pneu furou e não levei outro reserva. Tá aí um conselho para quem quer acampar levar câmaras de ar na bagagem!.”

E eu reforço o conselho da Keilla. Ante de viajar, mesmo que não seja para uma grande aventura, o povo ‘matrixiano’ tem de lembrar que seu ‘complemento’ precisa de atenção especial. A cadeira, o andador, o cão-guia Muito feliz precisam estar em excelentes condições, revisados.

Uma vez, o eu ‘zambetava’ por Madri, na Espanha (Tô internacional, hoje, né?) e também fiquei num mato sem cachorro quando o pneu da cadeira furou. Eu não conseguia achar uma borracharia, só mesmo ficar borracho aborrecido.

Pensar que incidentes podem acontecer, ainda mais em situações de passeio, que vão exigir mais do equipamento que usamos, é muito importante. Ah, uma dica: atualmente existem pneus maciços, de ótima qualidade. Vale a pena testar!

“Para quem quiser se aventurar a acampar, tem um lugar muito interessante aqui em Minas chamado Carrancas, de fácil acesso para alguns campings. As cachoeiras têm estradas bem largas podendo ir de cadeira sem problema.  Só não posso dizer se há banheiros acessíveis, mas logo vou saber, pois será meu próximo destino!”

*Imagens de arquivo pessoal

Escrito por Jairo Marques às 00h04

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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