Jairo Marques

Assim como você

 

No Carnaval, só vai dar o Gargalhadas!

Desde quando comecei a ‘mexer’ com esse povo abatido da guerra que vive no universo paralelo da Matrix parei de acreditar no “ah, não é possível que isso aconteça”!

A cada mergulho que dou nesse universo recheado de diversidade de “como viver”, vislumbro novas possibilidades de ir adiante, de conseguir chegar a um objetivo, de ser protagonista e não espectador da existência.

Com a ajuda fundamental da minha patroa, a Thaís Naldoni Cada Vez Mais Linda Bobo, busquei nesse oceano uma excelente história de.... Carnaval!!!

Bora curtir?!

Sorte

Se você é do tempo em que um surdo em bateria de bloco de carnaval era apenas aquele instrumento que fazia uma barulheira danada, é hora ampliar seus horizontes tudo.

No Rio de Janeiro, a cidade maraviwonderful, um bloco mostrou que o conceito está para lá de ultrapassado. Aêêêê...

Há sete anos, surgia, na Vila Isabel, o Bloco Gargalhada Rindo a toa. Levando ao pé da letra, o samba do compositor Noel Rosa “lá em Vila Isabel, quem é bacharel não tem medo de bamba”, a ideia dos fundadores Yolanda Braconnot e Francisco Rocha era a de congregar foliões de todos os tipos e  idades em um clima de alto astral e criatividade. E o diverso fez parte do grupo desde a sua fundação.

Tão sacando onde eu quero chegar?! Diverso, gente de todo tipo... gente que dá um trabaaaalho danado... Convencido

“Meu filho é surdo e, para que ele tivesse pleno acesso aos eventos do bloco, contratamos uma intérprete de libras, que participa inclusive dos desfiles”, contou a Yolanda. Isso foi mais que um convite para que outros surdos se juntassem aos eventos sociais do bloco, como bingos, entre outros.

No lugar da tradicional Rainha boazuda, à frente da bateria do bloco estão as gargalhetes travestidas Kitana McNew  e Many Pipoka, respectivamente rainha e princesa da “agremiação”. As duas, surdas.  Falaí, zente, é pura purpurina malacabadada, num é?! Tonto

“Para este ano, o bloco ganha mais uma musa, que é cadeirante”.

A grande inovação, no entanto, aconteceu no ano passado.  Por sugestão de filho de Yolanda, que incorpora a travesti Kitana McNew, foram juntados à bateria dez ritmistas surdos, que tocam ganzás coloridos, feitos com material reciclável e confeccionados por Flávio Monteiro – músico percussionista e luthier.

Por essa ‘ceitudo’ não esperavam, vai. Uma bateria cheia de gente com o escutador de novela desregulado? Ah, legalpracaramba.com.br! Eu não consigo tocar nem gato do muro, pô! Muito triste

“Quando fui conversar com nosso mestre de bateria, dizendo que haveria integrantes  surdos, ele até achou que eu estivesse falando do instrumento”, brinca Yolanda. Hoje, dos 30 membros da bateria, 10 são prejudicados dos ouvidos. surpreso

Neste ano,  mais um passo do bloco rumo à dominação do mundo. Uhrúúúúúú

O Gargalhadas juntou forças com a Comunidade Anjos de Visão  (se lembram daquele sambinha que o tio botou aqui? Não? Clica no bozo! Brincalhão) e o Instituto Interdisciplinar Rio Carioca e, neste carnaval, estreia com o compositor Waldir Lopes, que é cego.

Waldir, em parceria com Cheila Felton, compôs a marchinha “Tô no Gargalhada pra fazer você sorrir”.

Para tudo, recapitula, ‘zimininos’: Um bloco com bateria composta por avariados da audição, com componentes cadeirantes, com gente que se traveste e com compositor do samba arruinado das vistas???? Bem humorado... Achei o paraíso matrixiano!!!!

Agora ‘escuita’ um trechinho do enredo deste ano! Tem a letra mais em baixo!

"Neste bloco da Vila, há amor!!!
Inclusão e alegria, eu vou!!!
Emoções na avenida, magia!!!
Sou o mensageiro do amor e da alegria

Há, há, há!!!
Hi, hi, hi!!!                                                                     } Bis
Tô no Gargalhada pra fazer você sorrir!!!

Teu sorriso amarelou, eu vi!!!
A piada foi sem graça!!!
Conta de novo que é pra todo mundo rir!!!

Se você gostou, sorri pra mim!!!
Se você amou, sorri assim!!!
Se você sorrir, vou repetir!!!".

Para os fundadores,  o Gargalhada tem a igualdade de condições como algo natural.

“A inclusão e a adesão de pessoas com deficiência ao bloco aconteceu de forma sempre natural. Nos preocupamos  em dar a todos as mesmas condições para brincar. E o número de pessoas aumenta a cada ano”.

Entre as providências tomadas pela organização para que todos possam se divertir sem restrições estão a concentração (que funciona em local plano e de acesso total), o percurso (também em rua plana e fechada ao trânsito), até a solicitação de banheiros químicos adaptados para cadeirantes.

Lembrando que as tais casinhas acessíveis precisam estar em todos os cantos que houver Carnaval, né, gente? Ou vamos, como falei na coluna de ontem, ter de sair urinando nos postes e sendo os ‘porcões’ da folia?

Levando em conta o slogan do bloco “Se  quiser chegar é só gargalhar”, quem quiser vai poder acompanhar o desfile do Gargalhadas no dia 6 de março, mais conhecido como domingo de Carnaval Alegre.

Os  estropiados tudo vão sair às 16h na Av. 28 de setembro, em Vila Isabel, no Rio! A concentração acontece a partir das 13h, na Associação Atlética Vila Isabel, na altura do número 160, da mesma avenida do desfile.

Mais alguém conhece algum bloco que apoia a diversidade??? Deixem as sugestões e o serviço (quando, onde etc) nos coments, fechô?

*Imagens de divulgação

Escrito por Jairo Marques às 00h11

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Insensato “Gilbertão”

Não consigo me convencer desse lero-lero de que como novela é uma bobajada, uma ficção para fazer os mortais aliviarem o dia a dia esparramado no sofá, ela não precisa ter o mínimo de cuidado ao retratar a vida alheia.

Para mim, um treco que entra na casa de milhares de pessoas todos os dias precisa pensar minimamente no impacto que as situações narradas em uma trama vai ter.

Contudo, o olho para isso me parece estar apontado muito mais para possível prejuízos comerciais do que emocionais, de criação de consciência distorcida ou errada de tudo mesmo.

Assim, demora-se 30 anos para gays aparecem dando um beijo, tendo uma relação afetiva numa trama, mas durante os mesmos 30 anos mulheres negras são coadjuvantes, empregadas na casa dos atores principais.

Essa novela nova, a tal de Insensato Coração, é de deixar o caboclo com a pulga e com o cachorro inteiro atrás da orelha Insatisfeito. O duro é que o Gilberto Braga, autor dessa trama chatérrima, vulgar e cheia de lugar comum, também foi o gênio que criou “Vale Tudo”….

“Credo, tio, porque cê ta espumando tanto por essa novela?”

Mais uma vez, um folhetim global inventa de colocar um ator numa cadeira de rodas, afinal, cadeira de rodas é total sinônimo de drama, de desgraceira, de vida de gato molhado, de infelicidade profunda para o abatido e para toda sua família.

Depois da choradeira, é só botar o sujeito em pé novamente que tá emplacada mais uma “linda história de superação”. Ah, fafavor…

Realmente, o choque de uma deficiência, de um acidente é profundo. Mas o tratamento que o ator Eriberto Leão está dando ao personagem Pedro, que teria tido uma “lesão medular” após um acidente de avião, é uma das coisas mais vergonhosas que já vi na TV atual.

Parece que o cabra não teve o cuidado de fazer um laboratório mínimo, indo a uma clínica de reabilitação, para saber como é marromenos a vida de um malacabado. Tudo que o cara fez no tocante à recuperação é ruim.

Os movimentos são péssimos, as falas são abaixo da crítica, a interação com as pessoas é vergonhosa, o conjunto da obra é lastimável.

E me incomoda mais ainda saber que a Globo passou recentemente uma novela que mostrou, com bastante propriedade, a vida de uma pessoa com deficiência, entrou para a história, e, depois, espalhou para os quatro cantos o seu grande “papel social”.

Agora, com essa novela sem o menor zelo, menor cuidado com as pessoas com deficiência, estão fazendo é um papelão. Joga o trabalho do Manoel Carlos no lixo…

A recuperação de “Pedro” só não foi mais rápida que aquelas recuperações de charlatões que juram que receberam milagre bebendo um xaropinho do capeta dado por supostos líderes religiosos.

Em um capítulo que tive o desprazer de ver, o tal do malacabado de mentirinha soltou: “O que eu vou fazer agora que sou meio homem? Não valho mais nada….Sou um nada.”

Na hora, olhei pra minha patroa e já fui dizendo que nem adiantava ela querer ir procurar a minha outra metade que eu tava bem do jeito que sou.

Os conceitos distorcidos propagados por uma novela vão viajar a cabeça e a imaginação de um bocado de gente que vai os reproduzir, acreditar naquilo e “praticar” o conhecimento torto.

Na semana passada, o Insensato “Gilbertão” enfim conseguiu promover o milagre que a medicina mais avançada ainda peleja para passar perto: fazer uma vítima de uma lesão medular (clica no bozo que eu explico mais sobre isso Brincalhão) levantar e andar, super de boa, igual a abrir uma latinha de breja.

“Uai, tio, mas isso não é possível? Um abatido na guerra não pode se curar?”

“Zente”, isso não é pessimismo meu ou ser um ‘minino ruim’, mas ‘ceitudo’ já viram um carro batido que volte a ser igualzinho ao que era antes? Nem que o funileiro trabalhe na Ferrari!

O resultado de uma lesão na medula é bem grave. Particularmente, eu nunca conheci uma pessoa que tenha tido um acidente desse nível que hoje esteja dançando balé e correndo São Silvestre igual aos africano.

Melhoras na lataria, com boa fisioterapia, cuidados médicos é absolutamente possível, mas levantar e sair, mesmo que capengando, em muletas, é raríssimo. E vamos combinar, o tal Pedro arrastando as pernas naquelas muletas é constrangedor demais. Ninguém “caminha” daquela forma.

Novela pode brincar com gente virando vampiro, virando bicho, virando bicha e tudomais. Porém, quando se trata de abordar a maneira como milhares de pessoas precisam encarar o mundo, encarar suas realidade, sou radical em dizer é preciso o mínimo de realidade.

Somos nós, os “matrixianos”, que ficamos com o fardo de ser preguiçoso, afinal, “o rapaz da novela, com esforço, voltou a andar”. Valha-me gzuis…

Enquanto um rapaz tetraplégico salta de paraquedas, a outra moça com paralisia cerebral se transforma em modelo e um montão de malacabados entram no mercado de trabalho e quebram conceitos velhos e distorcidos, vem uma novela, em pleno século 21, fazer a mesma abordagem que no século 19? E a gente tem que ver tudo e pensar: “Ah, é pura arte”….

Botem esses cérebros bacanudos de vocês, seus diretores, para criar situações novas, próximas à realidade da gente que curte um entretenimento bobo, sem sermos insultados, vestidos de trouxas velhas.

Incomoda um monte escrever um texto com certo tom ‘moralista’ e de dono da verdade, mas meu saco não aguenta mais esses retratos rasteiros, preguiçosos e viciados da deficiência física e sensorial.  

 

Escrito por Jairo Marques às 00h00

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
Twitter Twitter RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.