Jairo Marques

Assim como você

 

No banco (epílogo)

Então, depois da novela toda que contei “proceitudo” que protagonizei lá no banco do “guverno”, chegou o grande dia de ir buscar o tal documento que constava quantos cruzeiros eu tinha pra gastar.

Para quem não pegou o começo dessa conversa, clica no bozo que eu explico tudo. Brincalhão. Ah, e o segundo capítulo, que é quando a “Caxa” se defende das minhas piadas, podem ser lidas clicando na florzinha (tô meigo, né?)...  Sorte

 

 

 Logo que cheguei na porta da agência, aqui no centrão de Sampa, percebi que algo havia mudado.

 

Não, não havia rampa na entrada ainda, mas a menina de doze anos _que na ‘verdadchi’ devem ser uns quinze_ logo que me viu veio toda sorridente e receptiva me atender. Puuuxa, como é bom ver que o mundo pode mudar, né, não?! Bobo

 

Loguinho também a entrada foi aberta e eu estava sendo atendido.

 

“Vim buscar o meu extrato do dinheiro que o governo me abocanha pagando uma merreca de juros!”, falei eu, mais animado que minhoca no brejo.

 

A menina ‘pricurou’, ‘pricurou’, ‘pricurou’ e estendeu a mim o mesmo papelinho que eu havia preenchido com o pedido de informação (que demorou cinco dias para ser atendido mesmo o sistema sendo informatizado). Ali, à caneta, estavam algumas cifras em letra garranchadas.

 

Comecei a rir de tanto ‘nelvoso’ que foi me dando... “Mas isso aqui não é documento. Não serve para nada.... ‘Ceis’ tão de brincadeira comigo, né?”

 

Um menino, que deveria ser o chefe da guria de doze anos, intercedeu depressa. “Nãããão, vamos resolver isso agora! Vem aqui que falamos com a gerente e rapidinho você tem o documento!”

 

A gerente, acho que se chamava Sabrina, era daquele tipo que aparece em filmes, sacam? Falava bem rápido, parecia que tinha uma tonelada de coisas pra resolver e um certo ar de cachorro brabo, como todo respeito que tenho aos cachorros. Muito triste

 

“Todo mundo aqui na agência leu seu texto... ficamos tristes por, mesmo trabalhando tanto, ver ali que ‘temos cara de bunda’, mas é assim mesmo, né?”.

 

Fiquei meio sem graça, mas recuar numa guerra só em caso de derrota evidente, né, não? E fui pra cima...

 

 

 

“Mas a senhora leu alguma mentira?! A agência não tem mesmo rampa, não abriram a porta pra eu entrar, pediram cinco dias para resolver algo que me parece tão simples....”

 

Enquanto me olhava de rabo de olho, a gerente digitava uns códigos no computador e puxava o tal extrato, que ia saindo na hora... (mas não eram cinco dias?! Sei lá...)

 

“EU tinha uma rampa aqui. Minha agência era totalmente acessível, afinal, eu tenho seis clientes que precisam de acesso, pelo meu cadastro. Mas a prefeitura veio consertar a calçada e levou a minha rampa.

 

Que culpa eu tenho nisso? Você tinha de cobrar era eles e não eu. Já fui gorda, fiz cirurgia, e sei um pouco do que VOCÊS passam. Mas essa cobrança tá errada, não pode ser assim. Tem de procurar os verdadeiros responsáveis”, me disse a dona, já com uma leve baba no canto da boca.

 

Para quem tentou adivinhar a minha reação, provavelmente, acertou: virei foi um ‘maribondão preto’ na dentro da agência.

 

“Minha senhora. Se a prefeitura consertou a calcada, acho ótimo. Tava mesmo precisando porque isso aqui era um lixo. Agora, se levaram a SUA rampa, o problema não é meu e nem das outras pessoas, que não são seis, isso aqui é um banco público e todo mundo que é ‘malacabado’ pode vir. O problema é do governo, é seu, é do banco. O meu papel de cidadão é cobrar que vocês promovam a acessibilidade”.

 

Acho que a mulher percebeu que eu era um ‘matrrixiano’ duro de roer. Baixou a guarda e me entregou a papelada. E também fez um tal de cartão cidadão, que me permite ver a movimentação dos meus fundos de garantia sem ter de ir “encher o saco” na agência sem rampa.

 

 

E essa história acaba assim: “Afinal de contas, dona, quando é que a situação da rampa ali na entrada vai estar resolvida?!” (Nada que um bom pedreiro, junto de um projetinho simples não deem conta em menos de duas horas).

 

“Olha, já foi feito o pedido. Agora é só esperar o processo de LICITAÇÃO ser aprovado. Acho que, ATÉ O FINAL DO ANO a gente resolve”.

 

Legal, não é? E eles nem tem vergonha de usar o slogan: “Brasil, um país de todos”...

 

*Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 07h14

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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