Jairo Marques

Assim como você

 

Uma nova imagem

Li no blog do meu brother Ronald Andrade um texto bem curioso sobre o fato de alguns ‘sereshumanos’ estranharem ou fazerem piadinhas infames quando veem um ‘malacabado’ ao lado de uma mulher bonita. (para ler o post, clica no bozo! Brincalhão)

 

E vou contar uma verdade pro ‘ceistudo’: cadeirante tem um pozim do pirlim pim pim e, realmente, garra as gatas tudo… Beijo. Os motivos disso, talvez, seja explicado por um texto que escrevi lá no tempo que esse diário ainda chupava chupeta: "Ninguém vive sem sexo"! O tio também é desses ‘matrixianos’ sortudos e tem uma patroa mais bonita do que filha de costureira. E ela, por razões profissionais, tem de dar sempre um tapa no visu para aparecer bem na fita ou no vídeo, né, não? Então, como é para uma pessoa normal, que depende um pouco da imagem em sua profissão, sofrer o baque de entrar para o mundo paralelo dos deficientes e ter redesenhada sua aparência?

 

Para contar sobre como é um processo de ‘reconstrução’ de imagem bem-sucedido, vibrante e empolgante, a retomada da vida profissional em um ambiente imagético (no caso, um canal de televisão), é minha linda patroa, Thaís Naldoni, quem conta a história da repórter Ana Paula Cardoso.

 

Sorte

 

Desde a faculdade, ouço uma máxima: jornalista de televisão vende mais que notícia, vende imagem. Esse é um conceito estranho quando falado, mas real quando entramos no mercado de trabalho restrito e competitivo da comunicação. A boa aparência, a fotogenia, a simpatia, a confiança com a qual você transmite a informação, acabam sendo “diferenciais” que garantem sua entrada e permanência na mídia.No caso da televisão, a cobrança pela imagem extrapola os limites da empresa.

 

Quem já não viu um jornalista na TV com o cabelo meio bagunçado, a camisa meio desajeitada, uma olheira que sobressai e pensou: “ué, o que aconteceu com ela hoje?”. E, neste exigente mercado é que a jornalista brasiliense Ana Paula Cardoso, 27, direcionou sua carreira, após sua saída da faculdade, em Campo Grande (MS).

 

 

 

“Em julho de 2007, fui contratada pela TV Record MS. Venci pela insistência, mas também porque gostaram do meu trabalho. Super crua, mas acreditaram que tinha potencial. Quando a emissora foi reformulada, em agosto de 2008, com a contratação de profissionais de renome da concorrente, me agarrei à oportunidade e, literalmente, os sugava o tempo todo.

 

Eles perceberam e gostaram. Tanto que da equipe anterior, apenas eu permaneci como repórter de rua. Foram cinco meses de entrega total.  Conquistei a confiança dos meus superiores e eles iam cuidando da minha estrutura textual. E fui ganhando pautas maiores.”

 

 

E foi nesse momento de ascenção que aconteceu o acidente em que Ana Paula ficou tetraplégica, entrou pra a Matrix, como diria o "patrão".

 

“Eu estava em férias, após quase dois anos trabalhando. Tenho família em Brasília e sempre que podia ia visitá-los. Na segunda semana, recebi um convite de um amigo de longa dada para ir a Pirenópolis (GO). O acidente aconteceu na volta, quase chegando a Brasília.

 

Havia chovido muito no dia ,e no momento do acidente, caia uma chuva fina. Lembro que o motorista se abaixou segundos antes como se coçasse a perna.  O carro estava a aprox. 120 km/h e próximo ao carro da frente que freou no quebra-mola. A colega que estava atrás se assustou e gritou. Com isso, o motorista, em de tentar frear e permitir uma batida, puxou o carro para a esquerda. 

 

 

A estrada em que estávamos é seguida por ribanceiras. Caímos de uma altura de quase 10 metros, o carro capotou aproximadamente quatro vezes. Lembro de ter vivenciado todo esse momento, não desmaiei. Dessa forma pude perceber o exato momento da lesão, quando meus braços travaram e se fecharam. Embora não entendesse o que havia acontecido e não imaginasse que estava tetraplégica”.

 

Conheci a história de Ana Paula nesse ponto. Fiz diversas matérias sobre as campanhas realizadas pela TV Record para ajudar na reabilitação, o que ela precisava para retomar a vida. Uma busca real,sem milagres. 

 

“A TV MS Record deu todo o suporte possível a mim e a minha família. Muitos me questionam sobre isso e até duvidam. Na época, ajudaram a montar uma campanha de arrecadação de dinheiro e divulgavam nos telejornais. Fora isso, meus colegas de redação e nosso diretor, Ulisses Serra Neto, mantiveram o apoio emocional”.

 

Ter apoio é fundamental para enfrentar um processo de readequação, de retomada da estima, de querer enfrentar a realidade da vida .

 

“Meu contrato não foi expirado, ao contrário ele é mantido. Meus chefes não me forçam a retornar até que eu me sinta apta para isso, apesar de demonstrarem constantemente que desejam o meu retorno. Não por obrigação, mas por sentirem falta do meu trabalho e presença. Tô podendo, né?" Rindo a toa  

 

Atualmente, Ana Paula prepara esse retorno. Fisioterapia três vezes por semana, hidroterapia e equoterapia. Para as mãos e braço, terapia ocupacional. Com isso, ela ganha cada vez mais equilíbrio, sustentação e movimentos de mãos e braços para alimentação, escrita e aquela maquiagem básica.

 

“O impacto na medula foi muito grave, mas já tenho conquistado grandes avanços. Já tenho sensibilidade de toque em quase todo o braço e já recuperei da coordenação motora. Com isso alimento-me sozinha e pego alguns tipos de objetos leves. O tronco está sob maior controle, possibilitando maior equilíbrio tanto ao sentar na cama quanto na cadeira. Além de contração voluntária de bíceps, leve contração de tricípites e avanço na contração abdominal. Consigo sentir o alongamento da lombar e observo pressão nas coxas e panturrilha, além de perceber quando sou tocada nas plantas dos pés.” 

 

A nova imagem da jornalista já pode ser vista na TV, em entrevistas dadas por ela sobre sua recuperação. E, em breve, nas telas da TV Record de Mato Grosso do Sul, novamente como repórter.

 

“Eu já queria ter voltado em dezembro passado quando deixei o hospital Sarah, mas meus movimentos de braços ainda eram muito limitados. Logo dediquei esse ano para a reabilitação. 

 

Em principio, vou trabalhar com produção e edição. Mas a meta é reconquistar a desenvoltura profissional e ir pras ruas, plano que já foi deixado claro pelos meus chefes. Sem falar no desejo de criar um programa que trate de assuntos relacionados a pessoas com deficiência.”

 

Alguém duvida que seja possível? Beijos nas crianças e bom feriado!

 

* Fotos de arquivo pessoal

Escrito por Jairo Marques às 00h39

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Na labuta

“Zente”, hoje (31) falei lá na coluna do jornal sobre uma mega abertura de vagas para o povo ‘malacabado’ que está sendo feito por um desses bancões cheios da “bufunfa” aqui no Brasil, o Itaú-Unibanco.

Apesar de não ser um favor da empresa, e sim uma obediência à lei de cotas e também uma forma de estimular a diversidade produtiva, que dá lucro, (afinal, eles não vão queimar dinheiro, né, não? Olho no dinheiro), achei que abrir MIL vagas exclusivas para os “matrixianos” algo um tanto importante para constar no “acessômetro”.

O banco já tem em seus quadros cerca de 4.000 “dificientes” espalhados por suas agencias em todo o país e os postos abertos agora também são para o Brasil sil sil inteiro.

 As funções, segundo informou a assessoria da empresa, são para cargos diversos, inclusive para os de alta especialização (e salários que dá pra comprar pizza toda sexta-feira Rindo a toa).

Para se inscrever, o “esgualepado” precisa acessar http://www.itau.com.br/ e buscar a opção “trabalhe no Itaú”, depois vá em “cadastre seu currículo” e, em seguida, clique em “pessoas com deficiência”.  Se candidatem à vaga com o código: v283640 (tem o símbolo internacional ao lado dela!)

Mais informações, escreva para imprensa@itau-unibanco.com.br 

 

Sei que esse assunto de trabalho já tá deixando muita gente cansada Carente, mas não posso deixar de falar um bocadinho mais sobre pegar no pesado... ui.

Povo, nesse processo longo que é ‘dominar o mundo’, ter um emprego pra comprar nossas armas (cadeira de rodas, muletas, andadores, aparelhos auditivos, treinar cachorro e etc Legal) é fundamental e o mercado tá aberto para que a gente invada.

Contudo, não rola ir enfrentar os leões nas empresas com o espírito de café-com-leite, com jeitinho de batatas fritas, que só acompanham. Muito triste

A imagem da pessoa com deficiência precisa de desatrelar “difinitivamente”, como diria minha tia Filinha, de um comportamento de alguém inoperante e que só está ali na empresa para cumprir uma lei.

Quem tá selva é pra abraçar a chita, “ziminos” Beijo! Um trabalho nos exige resultados, nos exige dedicação, criatividade e iniciativa. Caso o ‘malacabado’ opte por ficar no cantinho, muitas vezes, é ali que ele ficará por muuito tempo.

O que as empresas precisam entender é que precisamos de condições diferentes de acesso, de atuação, mas que na labuta, todo mundo é igual.

Recebo muitas mensagens de pessoas perguntando “como é trabalhar aqui no jornal para um cadeirante”. A resposta é difícil uma vez que, boa parte da minha vida profissional, passei aqui no predião “marelo” da Alameda Barão de Limeira, mas tendo  a achar que tenho uma carreira condizente com meu esforço profissional (com viés de baixa, afinal, jornalista reclama de tudo... Inocente)  

Para evoluir na carreira, sendo deficiente ou não, é necessário estar o tempo todo mostrando que se é capaz de desenvolver uma atividade de maior responsabilidade. Se o ‘matrixiano’ ficar quietinho na dele, se não se impor como pessoa ativa, vai mesmo ficar difícil de sair do salário mínino e meio.

Claro que não vou rabiscar aqui que não exista, de forma preconceituosa, limitada, e ressabiada, uma visão de “incapacidade natural” que projetam sobre ‘nóistudo’ do time estropiado. Isso ainda vamos ter de enfrentar por longos anos, penso eu.

Mas o ônus da decisão sobre ser ou não “café-com-leite” não pode nunca partir de nossas atitudes, muito pelo contrário. Precisamos estar à disposição para evoluir, para encarar desafios, para suportar novas pressões.

Daqui para o final da semana, ainda vou falar bastante sobre labutar, afinal, semana que vem tem feriado prolongado! Bem humorado

* Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h25

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Lá vai dona Dorina

Desde menino miudinho ouvia falar de dona Dorina Nowill. Ela, infinitamente mais sabida que eu, começou o trabalho de “dominação do mundo” há muitos anos, criando uma frente de batalha fortíssima que exigia e lutava pela formação e direitos do povo cego e demais “matrixianos”.

Quando eu já era mais grandinho e conseguia entender melhor o que acontecia ao meu redor, vi de perto a grandeza do trabalho da Fundação de dona Dorina: fiquei besta de ver o que ela foi capaz de fazer por aqueles que não podem ver.

Centenas de voluntários, dia após dia, enchendo papeis de furinhos que, juntos, levam as letras, as histórias e o conhecimento aos cegos por meio de livros, manuais, guias e poesias em Braille.

Fiquei tão fascinado com aquela iniciativa que fiquei meses e meses falando para todos que conhecia se sabiam que era possível facilitar a vida do povo que não vê por meio do trabalho dos livros e audiolivros confeccionados na Fundação Dorina Nowill.

  uma vez vi dona Dorina “ao vivo”, de longe, em uma palestra. Era daquelas pessoas que, quando falavam, os outros ficavam em silêncio absoluto, em respeito, em homenagem, em admiração.

Mas minha história ficará sem um bom papo com dona Dorina e seu sorriso cativante. Mas uma vez me disseram que ela gostava de mim, e isso me dá uma alegria incrível.

A importância e dimensão da figura daquela senhora era tão latente que ela ganhou o direito de 'rejuvenecer'! É!!! Dona Dorina foi a inspiradora de "Dorinha", desenho em quadrinho do insuperável Maurício de Sousa.

 

Nos quadrinhos, Dorinha mostra ao mundo infantil que o povo que ‘puxa cachorro’ (ela arrasta o Radar Rindo a toa) é igual a toda a molecada, só precisando de alguns cuidados diferenciados!

 Se eu não pude estar ao lado de dona Dorina, minha amiga Ju Braga contou um pouquinho mais sobre a energia, alegria e força que emanava dessa cativante senhora.

“Após o meu acidente, em que a cegueira foi a consequência, a Fundação Dorina, que à epoca se chamava Fundação para o Livro do Cego, foi o primeiro lugar que tive contato, de fato, com o mundo parelo.

Hoje, passando a limpo toda a minha trajetória, vejo o quanto foi importante este período que lá estive. Poderia ficar horas e horas contanto todo o bem que me fez dona Dorina, mas quero render uma última homenagem dizendo apenas uma palavra: Gratidão. Perdemos uma grande mulher, mas ganhamos uma bela memória.”

Pra mim, não há dúvidas de que cores das mais distintas, luzes das mais diversas, brilhos dos mais escandalosos, tesouros dos mais radiantes, caleidoscópios dos mais intrigantes hão de trabalhar a todo o vapor para a chegada de dona Dorina a sua nova casa.

Por aqui, nos inspiremos na total visão que dona Dorina deixou pela inclusão, pela igualdade, pelo direito de “todos juntos” para tudo.

* Imagens de divulgação

Escrito por Jairo Marques às 00h17

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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