Jairo Marques

Assim como você

 

Felicidade: passei no vestibular!

Nesta semana, acabei me irritando com uns ‘minino avuado’ lá na facul. Sempre aprendi que quando um burro fala o outro abaixa a orelha, mas, nas ‘modernidades’, isso anda meio complicoso.

O moleque, que até barba já tem, num calava a boca ‘difinitivamente’ e estava me desconcentrado pra contar as piadas pro resto dos aluninhos... surpreso. Não entendo a razão de alguém permanecer em sala daquela maneira...

E olha que eu sou legalpracaramba.com.br e me esforço ao máximo para não dar aquelas aulas chaaaatas. O que mais me incomoda, porém, é pensar quantas pessoas neste país gostariam de ter a chance de frequentar uma boa universidade, ainda mais pra ouvir ladainhas de um veio doido como eu... Insatisfeito

Penso também, no povo ‘malacabado’ que para conseguir chegar até a escola, muitas vezes, tem de fazer um esforço enorme para vencer ruas cheias de buracos, transporte público sem acessibilidade, falta de grana para comprar a merenda Rindo a toa, entre outros perrengues. Nem vem você pensar: “Ah, mas é assim pra todo mundo”.

 Não é de jeito maneira, como diria um amigo meu. Pense num povo que usa ‘cadeira elétrica’ para se locomover e que qualquer obstáculo, como uma guia não rebaixada, pode significar o “não seguir em frente”. Pense em ter de superar olhares de estranhamento pro seu corpinho o tempo todo, pense em certa dificuldade para escrever...

Mas a galera ‘matrixiana’, cada vez mais, e ainda bem, tem agarrado as chances e a mão de nossa senhora da bicicletinha Sem jeito para enfrentar as durezas e seguir adiante. Afinal, é assim que vamos ganhar o espaço que nos tiram na sociedade...

Para abstrair daquele frango que não estava nem ai por uma conquista tão nobre como é poder ser um universitário, pensei na história e na vitória da querida Débora Genuíno, que pros mais chegados é a “Debs Genu”, que tem severas limitações de movimentos de braços e pernas.

“Sempre tive vontade de estudar, mas devido às dificuldades, deixava pra depois. Até chegar uma hora que pensei ou vai ou racha Muito triste. Lá fui eu na primeira prova do vestibular,a facull,era acessível, mas não adequadamente. Não passei,  mas não desisti, fui novamente, e, pra minha surpresa, estavam colocando rampas melhores. Pensei: será um sinal? Passei e não me aguentava de felicidade.

Fiquei tão ansiosa no início. Não conseguia disfarçar a felicidade. Me senti realizada e satisfeita por estar fazendo parte dessa minoria que vai à universidade no Brasil, ainda mais sendo ‘matrixiana’. Torço para que, em breve, muito outros tomem iniciativa de voltar estudar. Demorei dez anos para agir,mas sei que tudo tem seu tempo certo. Nunca é tarde pra sonhar acordada. Um sonho pode ser bom pra mente, para o corpo e, no futuro, será para o meu bolso.”

A Debs tá fazendo psicologia. Acreditam que o tio, lá no tempo do epa, também queria seguir essa profissão? Mas as ‘marditas’ palavras me seduziram mais.. Beijo. A espevitada vai de buzão para a facul, todos os dias, a bordo de sua 'cadeira elétrica'. Em algumas situações, conta com a ajuda dos colegas de sala para dar aquela ‘hand’. Mas ta lá, seguindo firme.

 

“Na primeira semana de aula foi aquela expectativa, um frio na barriga. Todo o mundo ficou olhando. Eu era o centro das atenções, mas sabia que depois de algunus dias as pessoas acabariam se familiarizando e foi o q aconteceu.

Atualmente me sinto mais à vontade, as pessoas são legais, já sou tratada com igualdade. Nem precisei dizer: ‘gente, também sou gente’ Rindo a toa. Certa vez, quando íamos ter aulas num laboratório que ficava no subsolo, entrei em pânico! Eu tinha certeza que não haveria acesso. Pensei nos posts que você contou sobre o que teve de enfrentar para estudar. Mas, havia rampa e deu tudo certo!”

Quando eu digo pro ‘ceistudo’ que qualquer lugar que um ‘malacabado’ chega ele fica meio neurótico examinando tudo pra saber se vai conseguir se virar bem não é exagerando, tão vendo? Legal

E saquem que interessante, que ‘maraviwonderful’. Uma cadeirante havia estudado na mesma universidade antes da Debis e foi ela quem abriu o campo de batalha por um ambiente inclusivo, acessível.

“Essa amiga teve umas ‘brigas’ com a direção da facul para que todas as acessibilidades fossem feitas e hoje eu desfruto do que ela conquistou. Isso me comove muito e me faz ter garra para batalhar pelos meus direitos e pelo direito do próximo.

O curso psicologia é super-complexo: quer entender o ser humano, como se isso fosse possível Muito feliz, mas confesso que estou adorando. Se hoje sou assim, enfrento a minha realidade, é graças a ajuda de psicólogos! E também quero poder ajudar outras pessoas a verem o lado bom da vida, o quanto temos para curtir, a vida é tão curta.”

Torço muito pelo sucesso dessa menina e pensar na trajetória dela, certamente, me dá robustez para estufar o peito, falar mais alto, me impor, e ignorar aqueles que estão anos luz, anos luz de saber o valor de “passar no vestibular”.

* Fotos de arquivo pessoal

Escrito por Jairo Marques às 00h37

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Pequenos exemplos

Quem anda direitinho e não precisa de cadeira de rodas, muleta, andador, apoiador ou mesmo um ajudante pra viver escorando o corpo do lascado e evitar que ele se estropie mais caindo no chão, talvez, nunca vá conseguir entender o significado que tem para nós, os seres do mundo paralelo Legal, uma rampa, uma atitude inclusiva, uma ação agregadora.

E essas atitudes não precisam ser necessariamente grandes feitos, obras de vulto, uma mudança radical em uma estrutura urbana. Às vezes, uma pequena manifestação verdadeira pelo respeito ao diverso, já enche os nossos coraçõezinhos de alegria Apaixonado. Sentir-ser parte de algo, sentir-se bem-vindo, dá uma sensação de completude, por mais controverso que possa parecer.

Um grande amigo, Fernando Donasci, repórter-fotográfico dos bons, me abordou dia desses na rua falando assim:

“Jairãooo, vi uma imagem na fachada de uma escola aqui no centro que você vai adorar! Eu, pelo menos, achei o máximo! Vou fazer a foto e te mando!”

Como sou escolado com esse negócio de “depois te mando” Rindo a toa, nem tchum pra promessa do meu brother. E qual não foi a minha surpresa quando entra na minha caixa postal a mensagem: “Jairão, demorou, mas está ai! Espero que goste”.

 

E tinha mesmo de ser um grande fotógrafo para captar uma mensagem tão bacana e “ter certeza” que eu também iria gostar. Simples assim, um exemplo da escola pública Coração de Maria, aqui no centrão de São Paulo, que também funciona como creche.

Entendo que um cartão de visitas que já exiba uma mensagem de “aqui todo mundo é igual” bota uma semente de inclusão na cabeça de seus frequentadores.

Li ontem um comentário dizendo que esse diário aqui é um blog de “deficientes”, assim, de forma reducionista e sem nenhum ‘gramur’...Beijo

Eu reluto diante desse rótulo simplista. Esse diário é sobre uma missão: a de reconquista da cidadania do povo ‘matrixiano’.  E que venham mais pequenos e grande exemplos para que isso aconteça o mais rápido possível!

Escrito por Jairo Marques às 00h01

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E chegamos aos 20 mil!

Longe de mim de querer contar dinheiro na frente de pobre Inocente, mas não posso deixar de comemorar com meus leitores mais um feito desse espaço comando por gente sem perna, sem braço, que não enxerga um palmo na frente do nariz, que não escuta e que vive sentado em cadeira de rodas: na última sexta-feira, o “Assim como Você” chegou aos 20 mil comentários! Aêêêê

“Desculpaí”, mas são poucos os diários, iniciados com uma ideia totalmente nova, que, em dois anos, conseguem uma marca tão significativa ainda mais falando de um assunto que até pouquíssimo tempo atrás era “delicado”, era assunto de enfermaria de hospital e cheio de ‘mimimi’... Beijo

E qual não foi minha surpresa de saber que o comentário 20 mil foi feito por uma leitora que carrega esse espaço na cacunda, se preciso for! A Maysa Mascarin, minha querida Maysoka, no dia do aniversário dela! Uuuuhrúúúú

Para quem deixa seu recado no blog, pode estar certo, todos foram lidos, sorridos, gargalhados, chorados, botaram sangue no ‘zóio’, alguns deu uma ‘reivazinha’ e raros eu não liberei por serem.... bobões. Carente

Toda essa ‘comentação’ deu popularidade, importância e fôlego ao blog, sem falar que muita gente, inspirada no clima que se formou por aqui, também se animou a criar seus diários e a divulgar a necessidade da dominação do mundo! Legal

E a gente vai ampliando o boteco também em outras esferas: nos twitter, já tem uma galerooona ‘perseguindo’ o tio pra escutar um pouco das minhas barbaridades e para discutir online questões de acessibilidade e de futilidades também... Riso

Enfim, esse ‘minino bão’ é muito grato aos seus comentaristas, comentadeiros e comenteiros em geral Rindo a toa por estarem aplicando em diversas esferas da sociedade o discurso de mudança sobre a imagem dos ‘malacados’, dos matrixianos, das pessoas com deficiência.

Por todo lado que vou com minhas quatro rodas, as mudanças são latentes seja em uma nova rampa, uma nova atitude, uma nova preocupação, uma nova forma de ver esse povo que dá um trabaaaalho danado! Carente

E não tenho pudores nem dizer, com muito orgulho, que parte disso é graças às palavras incansáveis expostas em 20 MIL comentários! Brigado, meu povo!

* Imagem retira da Google Imagens e editada

Escrito por Jairo Marques às 00h16

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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