Jairo Marques

Assim como você

 

A grande virada

Meu povo, não quero, ‘di certeza’, causar nenhuma polêmica com a história de hoje. Apenas mostrar um ponto de vista inédito: gente cuja vida tomou um sentido melhor após entrar para a Matrix.

“Ah véio doido. Você tá variando! Como alguém que fica todo ‘trapaiado’ das pernas, dos zóio ou do zuvido pode dizer que é mais feliz do que quando era normal?” Eu sei, num briga comigo. Sei que parece insólito. Vou narrar os fatos e, depois, cada um tira sua conclusão. Repito, não estou fazendo nem nunca farei apologia por ser ‘malacabado’, estou mostrando que há vidas ‘sobre rodas’ que deixam para trás vidas declaradamente ‘sem sentido’.

“Era 28 de Dezembro de 2006. Eu voltava do trabalho levando uma colega do trabalho na garupa da minha moto. Despercebida, entrei em uma rua errada e acabei me chocando com um carro. No tombo, bati com as costas na guia. Perdi os movimentos das pernas, a sensibilidade. Minha colega sofreu arranhões. Na época eu morava junto com um rapaz. Vivia num mundinho completamente diferente do que vivo hoje, sem muitos sonhos. Não planejava nada além de viver sem grandes turbulências. Larguei os estudos aos 16 anos. Só tive noção do quanto estava perdendo da vida depois que me ocorreu tudo isso. Com o acidente, pude constatar que o velho ditado de que “existem males que vem para o bem” era verdadeiro. Hoje, tudo mudou completamente e diferentemente do que muitos imaginam, mudou pra bem melhor. Vivo rodeada de pessoas verdadeiras, faço coisas que jamais sonhava em fazer antes, sou reconhecida pelo meu esforço e vontade de viver.”

As frases acima são da loira e linda Michelle Balderama, 22, que de manicure, antes do acidente, passou a ser tenista, atriz na “Oficina dos Menestréis e vendedora em uma das principais lojas de produtos para ‘matrixianos’.

Todas as vezes que me encontrei com a moça, fosse no teatro, fosse nas quebradeiras Inocente, ela exibia um sorrisão largo e manifestava uma alegria que é privilégio de poucos.

“Não vou dizer que não sofri em nenhum momento, que sempre foi um mar de rosas, mas não era por eu ser cadeirante e sim problemas que na época me faziam sofrer. Meu ex-companheiro não me via mais como mulher, não conseguia mais me tocar e acabava procurando outras. Aquilo mexia com o meu emocional. Mas ou eu me adaptava aquela nova vida ou viveria me remoendo pro resto dela. Escolhi a Deus, meus amigos, familiares, e uma vontade de viver. Abri mão da minha casa, do relacionamento e comecei do zero. Não tive medo, arrisquei e me dei super bem. Os problemas que enfrento atualmente são aqueles que acabam afetando a todos os deficientes: a falta de acessibilidade.”

Foi em um dia que uma grande amiga me disse “Jairo, ela sai de madrugada de casa (num região afastada do centro de SP) e pega dois ônibus para treinar tênis, para chegar à escola”, que tive certeza que a Michelle tinha de vir aqui no “ACV” contar um pouco de sua trajetória.

“Quando comecei o processo de reabilitação, fui morar com meus avós. No começo, eles não aceitavam a idéia porque mantinham a impressão da ‘menina rebelde’ que eu era antes, e pensavam que já tinham muita idade pra ficar me ajudando. No entanto, eles perceberam minha mudança e acabaram me aceitando. Moro até hoje com eles, e me sinto muito mimada rsrs... Comecei a fazer tudo o que planejada. Me matriculei em uma escola acessível e terminei o ensino médio. Trabalhei com recepcionista em alguns eventos e tive a oportunidade de conhecer cadeirantes ativos! Achei o máximo. Minha vida melhorou 100%, sem comparações com a vidinha de antes!”

Recebo centenas de mensagens de pessoas ‘dificientes’ que afirmam ter tomado atitudes para melhorar a própria vida após lerem algum post por aqui. Fico meio acabrunhado quando leio, fico pensativo e, admito, com muito mais peso da responsabilidade na lomba do que com vaidade na alma.

O que essa moça encantadora conta, não tenho a menor dúvida, vai dar um “acorda” na tristeza daqueles que assumem minha brincadeira como verdade: se sentem ‘abatidos da guerra’.

“Minha autoestima não poderia estar melhor. Adoro trabalhar, e, no ano passado, fui contratada como vendedora em uma loja de cadeira de rodas, a Rea Team. Pretendo crescer muito mais, usar meus talentos e aprender coisas novas. Faço tudo com muito prazer e satisfação. Não consigo ficar parada, não foi a cadeira que me segurou, pelo contrário, pude ver que poderia ir muito mais além do que imaginava. Já namorei algumas vezes depois do acidente, conheci pessoas muito legais, que ajudaram a tirar todo o trauma, pensava que não chamaria mais atenção como mulher, mas com o tempo percebi que é 100% normal, que posso sim ser feliz com alguém. Somos todos iguais.”

Não sei se tá claro pra todo mundo que o relato da Michelle, sabendo do contexto que ela viveu no passado e vive no presente, é beeeem diferente de dizer puramente que ela “tá de parabéns” pelo simples fato de seguir adiante, respirando.

Ela merece, a meu ver, admiração, porque se reinventou totalmente, porque enfrentou uma nova realidade tendo de perder praticamente tudo da velha, porque driblou um desenhado destino de uma ‘malacabada’ sofrida diante das circunstâncias, porque é corajosa para defender um ponto de visto que muitos podem avaliar “impossível”.

“Sou muito feliz do jeito que sou. Não há nada que eu pense em fazer futuramente que minha condição física impeça. Como a maioria das mulheres, sonho em casar, ter filhos, mas deixo tudo acontecer ao seu tempo. Por mais que me achem louca dizendo isso, repito diversas vezes, sou muito mais feliz agora, não trocaria minha vida pela de antes.”

Um bom final de semana pra “nóis tudo” e beijos nas crianças!

* Fotos do arquivo pessoal de Michelle Balderama

Escrito por Jairo Marques às 00h00

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Tragédias e deficientes

Todas as vezes que vejo uma tragédia do tamanho da ocorrida no Rio ontem (06), minha cabeça começa a rodar um filminho e me pergunto quantos ‘malacabados’ não ficam expostos e são vítimas desses desastres naturais por total falta de capacidade de escapar de situações limite.

Contei aqui pra vocês, lá nos tempos das cavernas deste blog, a maior tragédia que já vivi e tive de cobrir ‘jornalisticamentchi’, que foi o apagão na Ilha de Santa Catarina, em Floripa. Quem não leu ou não lembra, clica no bozo... Brincalhão

Naquela situação, contudo, eu não corri nenhum risco físico concreto, mas foi um teste para saber o quanto uma fatalidade climática, por exemplo, pode provocar transtornos ainda maiores pra vida de quem tem deficiência.

Tocar uma cadeira de rodas em meio a ruínas, a alagamentos, a mares de lama, a destroços é impossível e ponto. Quem tem algum tipo de limitação motora, sobretudo, fica completamente à mercê da ajuda do próximo.

Fico imaginando o sufoco e as barbaridades que não passaram e estão passando os ‘matrixianos’ que vivem no Haiti, envolvidos em tanta destruição.

 Dia desses, a ONU (Organização das Nações Unidas) divulgou um alerta mundial pedindo esforços específicos para ajudar o povo sem perna, sem braço, puxador de cachorro, prejudicado dos ouvidos que ficaram abandonados depois do terremoto naquele país.

O que é preciso ficar claro e, por mais que isso pareça desumano, é que as tragédias igualam as pessoas à força. Como dar prioridade a um cadeirante ou a uma criança num local desmoronado, por exemplo? A situação é a mesma para os dois, mesmo um deles tendo menos chance de escapar.

Em um resgate, todos terão atenção igual. Obedecendo a uma fila de chamados, às condições de atendimento, as possibilidades de atuação de bombeiros, polícia, defesa civil...

Enquanto eu escrevia este texto, a repórter da “Grobo” dizia na TV que uma mãe estava em uma casa afetada por um deslizamento, abraçada ao filho deficiente, aguardando resgate, sentados em um sofá. Minha guela até trancou...

 

Mas o que podemos fazer para ficar menos vulneráveis? Procuro sempre agir com antecipação e nunca deixar uma situação chegar ao extremo antes de agir. Por exemplo, como todo mundo sabe, aqui em São Paulo chove e alaga é tudo em questões de minutos. Antes de sair de onde eu estiver, estudo os caminhos, penso se vou estar em segurança na rua.

Em aglomerações, no menor sinal de que algo está dando errado e pode rolar uma confusão, me afasto. Evito ser curioso e me aproximar de perigos. Não porque eu tenha medo, mas porque sou mais vulnerável.

Claro que as fatalidades não mandam cartão-postal antes de chegar, mas medidas simples como ter telefones de emergência a mão, andar com o celular sempre carregado, se antecipar aos fatos, ser prudente, podem poupar quem tem menor mobilidade de reação do pior.

Difícil demais a situações dos fluminenses e cariocas... Tomara que a situação se reorganize logo e que eles voltem o mais breve possível a ser aquele povo do sorriso constante. Torço também, com muita força, para que o menino ‘matrixiano’ abraçado à mãe tenha sido resgatado e esteja bem.

Escrito por Jairo Marques às 00h00

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Os desequilibrados

Esse tema já apareceu aqui no blog, mas sempre de forma lateral e nunca frontal (ui), da forma que deve ser tratado. Como ontem eu quase tomei um capote dentro do banheiro aqui da ‘firma’ por estar distraído lendo o meu exemplar da “Sabrina” (lembram desses livrinhos vagabundos? Rindo a toa) resolvi escrever a respeito dele...

 

Esse povo que anda de cadeira de rodas e dá um trabalhaaaado danado para manter o chão de casa encerado, porque as rodinhas sujam é tudo Embaraçado, é, sua maioria, tudo prejudicado dos próprio equilíbrio.

 

Note você (se não for 'dificiente físico', claro), que para se manter retinho, todo centrado (aff), é preciso contar com os músculos do quadril e também das coxas. Como quem é abatido pela guerra perde parcialmente ou totalmente essa função do corpo, tamo é tudo na roça! Rindo a toa

 

  

 

Para me manter equilibrado, por exemplo, tenho de usar o tronco (por isso eu sou assim, todo espadaúdo Carente) e também a força dos braços e dos cotovelos, que são bem cascudões Muito triste.

 

Mesmo assim, em muitas situações, isso não é o suficiente e a cara no chão se torna uma ameaça constante. Sacam aquelas barras nos banheiros dos ‘dificientes’? Então, elas servem, além de dar apoio para a transferência da cadeira pro vazo, para socorrer ‘nóistudo’ em caso de desequilíbrio. Não, não servem para dondocas e desocupados pendurar guarda-chuva!!

 

 

Uma vez, ainda molequinho, parei em uma bicicletaria para consertar o pneu da minha possante que havia furado (ainda bem que hoje existem bons, que não furam!).  O tiozinho que faria o remendo precisava que eu liberasse a cadeira para ele mexer, então pegou um daqueles banquinhos de boteco pé sujo (sabem qualé?) e me pediu pra sentar ali.

 

Óia, meu povo, foi um pé de... pé de... pé de jaca ficar sentado ali naquele trem, me equilibrando. Eu congelei e nem piscar  eu podia para não perder o foco e ganhar um galo na cabeça.... surpreso

 

 

É bom todo mundo saber disso por algumas razões: Quando se está empurrando uma cadeira de rodas (conhece as dicas de dar uma empurradinha? Não? Clica no bozo Brincalhão) procure olhar bem pra não enfiar o coitado do cadeirante num buraco porque ai a cadeira se projeta para a frente e o lango lango num consegue se equilibrar e catibum pro chão.

 

Outra razão: sabe aqueles tapões bacaaaanas que a gente dá nas costas dos amigos pra dizer: “Quanto teeeeempo!!!”. Então, um daqueles na lomba de um cadeirante é suficiente pro pobre ficar que nem aqueles João bobos de posto de combustível... Sem jeito

 

 

Por fim, cuidado redobrado com os ‘tetrões’, que tem equilíbrio beeeem ‘atrapaiado’. Um bom dia mais ‘balancado’ já pode desequilibrá-los. Não estou dizendo, que fique destacado, que não é pra abraçar ou agarrar ‘nóistudo’, claro que sim, mas com carinho... Ui.. Beijo

 

Com o tempo, a gente cria as nossas maneiras de ‘para em pé’ e num é qualquer ventinho que sai derrubando o ‘malacabado’, sem falar que há exercícios específicos para recondicionar o equilíbrio pós ‘estropiação’, mas que, somos um bando de desequilibrados, graças a ‘gzuis’, isso nós somos, mesmo!

 

* Imagens retiradas do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h00

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Um fio invisível

“Zente”, foi num acaso que dei de encontro com a voz de uma moça chamada “Sara Bentes”. Fiquei de queixo caído e de coração miúdo com a beleza do timbre que ela impõe às canções e, sobretudo, com a melodia das músicas que ela interpreta.

 

Sim, ela é matrixiana. Nasceu e cresceu com baixa visão (cerca de 5% da função visual), mas, recentemente, ficou totalmente cega... Mas sua arte, pra mim, ‘alumia’ é tudo...   

 

 

Bem, e daí, né?! Daí que uns ‘minino’ lá do interior do Goiás, Jussara, (esse Goiás tá sempre na frente de batalha pela dominação do mundo Legal) criaram um coral e interpretam as músicas da moça, em Libras (que é a língua que alguns prejudicados dos ouvidos se comunicam surpreso).

 

Acho ‘maraviwondefull’ esses lances da difusão de uma informação, de uma música, de uma ideia. Certa vez, minha ‘patroa’ foi viajar pra Sergipe e, no mural de uma universidade, tinha um post do tio falando ‘pataquadas’, sem falar das correntes que recebo de trecos que eu mesmo fiz Muito triste ...

 

A qualidade do vídeo é bem 6,75, ou seja, passa por aproximação Rindo a toa, mas a música está claríssima e fala, ‘evidentementchi’, da dominação do mundo... Ele reúne várias apresentações dos meninos lá do Goiás, já com seus estilingues na mão para defender um mundo mais justo pra ‘nóis tudo’!!!

 

Ganhe o seu dia e comece bem a semana: abra bem os ‘zovidos’ e viaje na canção “Eu quero ver”... Coloco a letra abaixo do vídeo, pra todo mundo cantar junto! Uhrúúúú (eu não paro de assobia-lá há três dias... Beijo)

 

 

“Eu Quero Ver”

 

Eu quero ver o mundo estremecer...

Quando chegar a hora de dizer...

A qualquer um que em nossa vida está...

Eu dependo de você...

 

Eu quero ver o mundo compreender...

Que um passo, um gesto, um olhar, um romper

Uma palavra, um som, uma invenção

Afeta a vida de outro ser...

 

Há um fio invisível entre o seu e o meu desejo...

De viver o sonho, a paz, no céu, na terra, verde e animais

 

Há um fio eternamente entre a sua e a minha mão

Me conduz por meu caminho e eu te levo na minha canção

 

Eu quero ver o mundo perceber...

A humildade pra reconhecer, que se completam todos afinal

Somos um único mover

 

Um braço, um olho, a perna, ou audição..

Sabedoria, calma ou perdão...

Se falta em mim e brilha em você...

São os encaixes do viver...

 

Refrão

 

A perfeição vai então resplandecer

E o resultado dessa soma sem fim

Pra confirmar que somos todos um

E eu confio em você

 

Refrão

Escrito por Jairo Marques às 00h03

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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