Jairo Marques

Assim como você

 

Como assim, 'não faz nada'?!?!?

O jornalista Ricardo Noblat, um dos mais festejados da mídia brasileira, colocou ontem em seu twitter a seguinte  frase:

"Tudo bem que Luciana, paralítica, não faça nada. Mas boa parte das mulheres de Viver a Vida não faz nada fora tricotar e passear."

 

Ele disse, depois que eu enchi a paciência dele por lá, que não teve a intenção...

 

 

Sinceramente, eu também acho que ele não quis ofender esse bando de gente ‘malacabada’ que não ‘faz nada’ além de reclamar da vida, né?!Nervoso

 


O que acho, porém, é que ele agiu que nem o presidente Bush, que limpou as mãos nas costas do Clinton após cumprimentar uns ‘afrodescendentões’ lá no Haiti... Quem não viu, clica aqui.

 

O Noblat foi um dos primeiros a comemorar o lançamento do meu blog nas “internets” e me deu boas-vindas, mas, agora, pra mim, urinou fora do penico...

 

Não basta pedir desculpas, neste caso, precisa ter uma atitude em favor das milhares de mulheres com deficiência do país que não são nada paradas, correm atrás da vida, em calçadas cheias de buracos, em vias sem acesso e, sobretudo, tendo de ler pataguadas como essa... 

 

* Imagem do Google Imagens

 

Escrito por Jairo Marques às 09h37

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Sem festa no interior

Recebo muitos emails de ‘malacabados’ que vivem (ou será que tentam viver? Cansado) em cidades que são do ermo do mundo e onde esse papo de dominação por parte da Matrix, de acessibilidade ainda é história pra boi dormir. O mesmo acontece em bairros da ‘perifa’ aqui da metrópole. Por lá, esse papo de colocar o deficiente na sociedade é pura lenda...

 

Como nasci e cresci num local com umas três ruas, a que vai, a que vem e a que ‘trevessa’ Muito triste, as 'Trelagoa', sei bem dessa realidade. Sem falar que eu adoro viajar e tô sempre em cidadinhas que se piscar muito distraidamente ela passa e você nem vê...

 

Cidades médias, com recursos de sobra pra promover infra-estrutura urbana, também, em muitos casos, contam com prefeitos que sentam as bundas em suas cadeiras e só esperam o quinto dia útil para sacar os salários (isso quando eles não sacam de outras maneiras)....

 

 

Leiam um trechinho de uma mensagem que recebi do leitor Antenor Pereira Giovanini, de Santarém, no Pará (num sabe onde é? Pensa num lugar longe, longe. Pensou? Agora vai mais uns 1.500 quilômetros pra frente... é lá! Rindo a toa)

 

“De dentro do meu carro, acompanho o trânsito lento numa das ruas do centro da cidade e ouço um buzinaço. Ao conseguir avançar mais alguns metros, encontro a causa. Não consigo evitar pensar que a criatura que enfiou a mão na buzina e causou todo aquele barulho não deve ter sido gerado por uma mãe. O ‘desiluminado’, o ‘ensombreado’ de alma não teve paciência nem respeito ao próximo que tentava se locomover em sua cadeira de rodas. E como as calçadas transitáveis são poucas por aqui e invariavelmente sem rampas, o alvo do buzinaço tentava pacientemente seguir ao lado do meio fio, até atingir seu objetivo que era entrar em um banco.

Mas, como subir na calçada? Obviamente, sua cabeça procurou entre os passantes uma alma caridosa que erguesse a sua cadeira e o colocasse à frente da porta. Tudo isso porque os dirigentes de nossa cidade, atuais ou antigos, nunca deram a menor atenção a esse contingente de pessoas que, por mais surpreendente que possa parecer, são cidadãos como todos os demais. Aliás, até são eleitores e votam embora nunca lhes sejam concedidos e respeitados os direitos como a qualquer pessoa.”

 

 

 

Já vivi essa situação com as minhas próprias rodas Tonto. Como molequinho irrequieto que fui, ia mesmo pela rua, uma vez que a calçada me expulsava (o que rola até hoje, ‘oficoursi’). Uma vez até atropelado fui, pra desespero da minha mãe. Mas não aconteceu nada grave, que eu saiba... talvez um parafuso torto na caxola, apenas...

 

Resolver os problemas de acesso em cidades médias e pequenas é muito menos complicado do que mexer nessa bagunça que é São Paulo ou o Rio, 'perezempi'. Mas, mesmo assim, não adiantam iniciativas isoladas, uma rampinha aqui, um sinal sonoro ali... é preciso uma política pública total de inclusão.

 

Digo isso porque, podem reparar, é comum encontrar acessos desengonçados, sem padrão, em cidades interioranas. “Ah, tio, mas num ajuda ocês tudo, não?”. Meu povo, pode ajudar, sim, porém, uma rampa mal feita, mal projetada, pode provocar um acidente sério.  E segue a bronca do Antenor...

 

“Observa-se aqui uma vergonha de obra de acesso ao mezanino do mercado na orla da cidade: uma escada ridiculamente estreita, com degraus curtos, alijando os deficientes de modo geral e também às pessoas de idade e com dificuldades de locomoção. Fica a impressão que, por aqui, deficiente não tem vez. A solução é aceitar ou se mudar.”

 

 

 

Mas, como agir, como fazer, né, não?! Bem, junte duas claras em neve, um pouco de fermento, uma ‘xicra’ de farinha de trigo e... Muito triste. Em primeiro lugar, a meu ver, é preciso juntar gente. Acreditem, em todo lugar, todo lugar mesmo, existem ‘sereshumanos’ dispostos a promover o direito pleno de ir e vir.

 

Coloque todo mundo _gente de cadeira de rodas, puxando cachorro-guia, com muleta, descompensado das pernas, com o ouvido destarraxado, com régua e compasso Beijo_ numa kombi veia, bem barulhenta e baixem lá na prefeitura. Peçam uma audiência com quem manda.

 

 

Os prefeitos, muitas vezes, nem sabem que existe gente ‘diferençada’ em suas cidades. Então, toca ‘nóis tudo’ mostrar a cara e as rodas pra eles e falar que precisamos de reparos arquitetônicos para viver com mais 'dignidadchi'! Não há outra forma que não a pressão (só tenham cuidado com os gases Beijo) de fazer uma realidade mudar. Conseguir adeptos como arquitetos, engenheiros, advogados e pedreiros também faz a diferença!

 

A gente precisa garantir essa festa no interior. Sei de um bocado de pessoas que já estão se mexendo pra isso, mas como sempre digo (igual a um papagaio) é preciso ter atitude pra mudar a história. Bora lá?!

Escrito por Jairo Marques às 00h15

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Pense nisso: aperte o cinto

Atualmente, falar para alguém: “ei, bota ai o cinto seu manezão! Quer se estropiar todo?!” é quase uma frase incomum. Pelo menos para quem está nos bancos dianteiros de um carro.

Todo mundo já tem em mente, mesmo que na obrigação para não sentir o baque da multa no bolso, que a amarração ao banco da ximbica é fundamental, essencial e é lei.

Mas, nem sempre foi assim. Centenas de milhares de ‘sereshumanos’ comuns, se tornaram ‘matrixianos’ devido à falta do cinto. Rola um acidente, o caboclo é lançado para frente e se trumbica inteiro: vira parão, tetrão (caso aconteça uma lesão grave na medula) ou vai pro país do pé junto.... aff Carente

O doido é que, como eu disse lá nas primeiras linhas, ‘pelo menos quem está nos bancos dianteiros’ já tem alguma consciência do uso, mas não sei por que raios, as pessoas que vão como passageiros, nos bancos de trás, acham que não precisam se amarrar. E precisam.

O impacto de uma batida em alta velocidade expõe qualquer um a tirar passaporte para o mundo paralelo da deficiência.   

A mensagem do vídeo abaixo, nova dica do Rapha Bathe, vai ficar cravada na mente de todos que a virem... Podem assistir sem medo, não há nada traumático, mas há uma mensagem de profundo amor à vida... di certeza!

Usem o cinto de segurança, meu povo...

Em tempo: para quem não consegue visualizar aqui, o link é http://www.youtube.com/watch?v=05u29j_6IkA

Escrito por Jairo Marques às 00h40

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Um xô pra esse papo de gente sofrida!

Me irritei dia desses porque invariavelmente, ao me pedirem uma entrevista, uma pergunta é de lei: “falaí das dificuldades que ocê teve e tem nessa porca dessa vida”.  Pô, quem gosta de falar de dificuldade babá de lutador de sumô! Carente 

Quem me conhece faz tempo sabe que sou meio “neurótico” em mostrar uma visão diferente em relação à deficiência. Esse papo de gente sofrida me dá no saco...(nooossa, que boca suuuja Inocente).

E qual não foi minha surpresa, na semana passada, ao receber um texto de uma graaaande amiga minha, que acompanhou muitos dos passos da minha trajetória profissional, falando de um tema exatamente semelhante a esse pensamento!

 A Ana Raquel Copetti me fez rir do começo ao fim deste relato com um humor capaz de corroer concreto.. Rindo a toa. Acho que vão curtir, e, mais, vamos botar mais lenha no post da semana passada, sobre sair dando parabéns aos “malacabados”....

 

Sorte

O texto da última terça-feira me fez recordar um bate-papo no bar, em um sábado qualquer. Falávamos sobre a dificuldade que as pessoas têm de conviver com “matrixianos de sucesso”. Gente que, superando – e se adaptando às - limitações físicas, tem emprego, filho, marido, cachorro, casa própria, carro do ano, bicicleta velha, plantas, cortinas brancas na varanda e parcelas de cartão de crédito todo mês.  A conclusão é a de sempre: o mundo vive muito melhor quando o cadeirante é pobrinho, triste, dependente.

É mais fácil sentir pena e oferecer uma palavra de conforto. Difícil mesmo é invejar a boa vida daquele vizinho do primeiro andar que, além de trocar a cadeira de rodas todo ano, se acha no direito de andar de carro zero.

Como que ele, CADEIRANTE, pode ter um carro melhor que o meu? Logo eu, tão perfeitinho, desenhado milimetricamente, com essas pernas torneadas, funcionando a pleno o vapor? Ah, não, a vida tá de brincadeira comigo!”...

Acho que é por essa necessidade de compaixão que as pessoas parabenizam os bons deficientes. O menino da natação deve ter contado em casa, durante o jantar, que viu uma coisa incrível hoje na piscina. Um cara paraplégico estava NADANDO... Assim, mãe, como se fosse normal, como eu!” Ele, com certeza, foi embora feliz, afinal de contas viu o milagre da vida ali, logo ao lado dele, e ainda teve a oportunidade de parabenizar o felizardo nadador. Em silêncio, enquanto se dirigia para casa, deve ter agradecido ao Deus dele pela cena de novela. E é assim que a vida se desenha. Para exercer a nobreza, infelizmente, o povão busca personagens sofridos. Gente que exala dor pelos olhos.

Reconheci o olhar de piedade dezenas de vezes em que saí na rua com o Jairo. Amigo de um ex-namorado, ele veio matar a saudade de Campo Grande e, por vontade do destino, me conhecer. Para mim, pareceu bastante arrogante logo nas primeiras palavras:

Ai, e agora, vou conversar sobre o que com esse cara? E se ele rir da minha cara?” Preferi ficar quietinha a noite toda. Mas observei bastante. Era o primeiro contato direto com um cadeirante.

Um cadeirante garboso, que vinha de São Paulo para contar o cotidiano das grandes redações aos professores perdidos no interior do Brasil. E eu, estudante que era, babei naquelas narrações. Queria saber tudo. Como tinha sido na faculdade, como foi em São Paulo, como chegou na Folha, como se virou sozinho a vida toda longe de casa, no meio da multidão de estranhos?

E logo de cara achei muito legal aquela amizade do ex-namorado com ele. Subia escada, descia escada, ia pro bar, ia pra casa, contavam histórias das presepadas dos tempos de universidade. Fique fascinada. Era a primeira vez que o menino da cadeira de rodas protagonizava uma história minha.  Ele seria meu grande amigo, meu companheirão de cerveja, cinema, balada, conversas infinitas, macarrão e trabalho!!! 

Gente normal que se preze guarda sempre uma dose extra de preconceito. É pro caso de ser surpreendido pelas tais cenas de novela. “Ó pra você o meu melhor olhar de dó”.

O primeiro passeio que fizemos juntos em São Paulo foi ao cinema do Shopping Santa Cruz. Assistimos Flores Partidas. Eu, como sempre, vestia uma roupinha de moça gostosona. A saia era até comprida, mas o decote da blusa compensava a barra da saia. No estacionamento, o cara me viu retirando a cadeira do porta-malas e imediatamente sofreu. Fez uma cara triste, triste, triste. Despachada, eu logo aprendi a abrir a cadeira, encaixar certinho na porta do carro, arrumar aqui e ali e pronto, meu apoio estava encerrado.

Isso é sofrido, por acaso? E o cara olhando, olhando, olhando... Claro que não ofereceu ajuda, ficou só tentando entender como que aquela moça andava com o cara da cadeira de rodas. “Só pode ser golpe!”, pensou ele. E nos corredores, elevadores, vitrines, livrarias, bancos, em todo lugar o espanto era claro. Pra deixar o pessoal ainda mais sem graça, eu ainda dava uma rebolada. Não podia perder a oportunidade

Nós éramos freqüentadores assíduos da Vila Madalena (bairro boêmio da zona oeste de Sampa). Dois ou três lugares eram de parada obrigatória.  Sempre fui adepta das saias curtééérrimas. Aqui em Campo Grande faz muito calor, clima propício para roupas curtas. Em Sampa eu não mudei o guarda-roupa. E era com elas, sem dúvida, que eu abria o porta-malas do carro, tirava a cadeira, largava no chão, abria, levava pro lado do carro, esperava o Jairo sair.

Vocês tinham que ver a cara dos guardadores de carro. Era fantástico. O povo apontava, comentava, balançava a cabeça. E os caras sofriam. Eu e o Jairo ríamos e bebíamos. Cada chope gelado! A mulherada olhava com semblante enternecido. “Essa aí vai direto pro céu, olha só a bondade que tá fazendo!”. Era engraçado... e assustador. Aos poucos eu deixei de perceber os olhares, mas sei que eles estão sempre de plantão.

Como amiga, vivi com o Jairo muitas das situações descritas aqui no blog. Acho que a minha maior risada foi quando a caixa de um restaurante bacana olhou pra mim na hora de pagar a conta.

Meu bem, olha a minha carinha de estudante pobre... Tem certeza que você quer o meu cartão?”. Ela ignorou o Jairo completamente, como se ele fosse um bebê no carrinho. Ridícula. Queria tirar a sandália e bater a sola na cabeça dela.

Outra vez uma senhorinha extremamente fofa entrou no elevador do prédio onde morava – e onde era vizinha do Jairo – e perguntou “Você vai em que andar com ele?”. Como eu nem conhecia o prédio, olhei pro Jairo, que respondeu a pergunta da gentil senhora. Um exemplo clássico de pessoa que duvida que um portador de deficiência física motora possa ouvir normalmente. E os casos se multiplicam a cada esquina. É uma infeliz constatação, né? Uma pena o mundo ainda ser tão estúpido.

No ano passado uma colega de trabalho sofreu um acidente em Brasília e o diagnóstico foi pesado: tetraplegia. Foi triste, triste, triste. Mas tem que ser triste.  De repente a vida mudou... De uma forma estúpida. Isso é triste e traz sofrimento. A notícia, a dor. É triste quando a vida vira à esquerda se o destino que escolhemos está à direita. Mas é tristeza que passa. É tristeza de momento, ainda que o momento dure anos.

 A vida de quem supera qualquer limitação é como outra qualquer, é alegre, é triste, tem dor de cabeça, bicho de pé, coceira no nariz, fralda descartável, sacanagem no trabalho. Elementos comuns. Momentos comuns. Não precisa de piedade, não.

 Estatísticas indicam, sim, que muita gente da Matrix continua sem emprego, sem dinheiro, sem parceiro de sexo, sem votar pra presidente, sem escrever o nome. Mas são assim milhões de brasileiros que não têm qualquer tipo de deficiência física ou mental. São as mazelas da vida, seja qual for a parcela de população consultada.

O que falta no cardápio diário desses donos de olhares piedosos é respeito. Se eu não respeitasse o meu amigo cadeirante, não acreditaria na capacidade dele de se aventurar em casas cheias de escadas, banheiros inacessíveis, bares apertados, boates lotadas. Ele já quis me esmagar diante de uma escadaria, sim, mas confiou em mim quando eu disse, convicta, que íamos subir.

 E é assim.Todo mundo pode o que quiser. Tem gente que tem um pouquinho de preguiça em dia de chuva ou sol escaldante, mas está sempre disposto a um novo desafio. Respeito resolve a maioria dos problemas.

 A minha amiga Ana Paula, tetra desde fevereiro do ano passado, está linda e com uma agenda lotada de compromissos. Não precisa de piedade. Precisa da família, dos amigos, precisa de força, de determinação, de dinheiro pra pagar as contas no fim do mês, de uma reabilitação bem feita pra entender cada novo sinal do corpo. Pena é prêmio para quem não vê jeito na vida, não para quem se dispõe a redesenhar a forma de viver.

Em tempo: Quer ver uma fota da Ana? Ela é feia de dar dó, viu?! Muito triste Tem no Facebook!

* Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h13

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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