Jairo Marques

Assim como você

 

A fazenda

Calma, povo, calma que esse post não é sobre aquela gente que fica andando de tanga na roça tirando leite das vacas e alisando os cavalos na televisão.....Beijo. Mas, não deixa de ser um texto sobre roça, campo, boi, mato.... Uuuuia

Como eu nasci numa cidade muito pequena, sei bem o que é a vida “rurar”. Certa vez um tio meu me levou numa fazenda e queria porque queria que eu me equilibrasse no lombo de um cavalo. 'Mai' que nada que eu parava em cima daquele trem... Rindo a toa

Sem dúvidas, o campo é um dos maiores desafios pra um ‘malacabado’. Se nem na cidade existe condição digna de acesso, imagem no meio dos matos tudo? Aí, como diz a minha tia Filinha, 'difinitivamente' é dureza. Até a semana passada, eu achava que “dificienti” seguir alguma carreira que envolvesse atividades rurais seria algo que beirava o impossível...

Aí, aí... mas ai, o poder desse diário, lido por três ou quatro pessoas ao redor do mundo, me prova que eu estava 'completamentchi' enganado. “Zimininos”, pensa, pensa numa dessas.... hoje, eu trago pra vocês conhecerem e dar aquele sorrisão gostoooso, um .... médico veterinário matrixiano!!! Muito triste

Não, povo, fala sério: conseguem imaginar um veterinário de campo (não vale aqueles que cuidam dos lulus e dos gatinhos apenas, né?! Abismado) encarando currais, bosta de vaca, matagal, cavalo bravo sendo mamulengão? Tetrão que usa ‘cadeira elétrica'?

 Pois, aqui está ele, apresento a vocês, Adriano Garcia, 39, que, por coincidência, “ingual que nem” o tio, nasceu em “Trelagoa”!!!! Aêêê

“Em agosto de 2003, aos 33 anos, no auge profissional, fui vítima de um acidente automobilístico, onde um sujeito embriagado, dirigindo um caminhão sem condições alguma de trafegar, atravessou a rodovia sem mais nem menos. Eu vinha no sentido contrário, retornando do trabalho, colidi com o caminhão.

No acidente, minha memória se apagou para o episódio, não me lembro de nada que envolva o momento do acidente. Lesionei as vértebras cervicais (C6 e C7), me deixando numa condição de tetraplegia.”

Na boa, né, gente, mas importante parcela dos abatidos da “Matrix” foram em conseqüência de acidentes que envolvendo caminhoneiros. Os cabras trabalham 20 horas seguidas, sem dormir, e quem paga essa conta, muitas vezes, não é o patrão, é um inocente.... aff..

Bem, o Adriano foi lá pra funilaria do Sarah, de Brasília, antes de voltar à realidade dos estercos...Muito triste 

“Desde o início, pós-acidente, minha grande e única preocupação, era a de descobrir como eu faria para voltar a trabalhar, pois, minha esposa estava com meu filho no colo, o Luis Eduardo, com apenas 56 dias de nascido. Isso me deu forças que jamais imaginei ter, minha família e a família da Angeliana (esposa) foram fundamentais. E graças a Deus, tive o carinho de muitos amigos. A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, empresa em que trabalho até hoje, acreditou em minha reabilitação e recuperação, ponto fundamental pra mim, principalmente, no aspecto psicológico.”

E muita gente carrega o estigma que esse pessoal que mexe com boi é tudo rústico, mais grosso do que o calcanhar do véio do saco... surpreso. Nesse caso, eu tiro o chapéu e até abro a porteira...

“Tenho uma esposa maravilhosa e, um filho “especial”, ele convive maravilhosamente bem com minha deficiência física, não tem vergonha em relação a outros pais dos coleguinhas de escola e tem o maior orgulho do mundo ao falar que eu sou seu pai. Ele vive pendurado ou escalando minha cadeira de rodas para conseguir um lugarzinho em meu colo.”

Ahhh, “zimininos”, que amoooor, né?! Apaixonado

“Conquistei a chefia da Associação aqui em Mato Grosso do Sul. Hoje, além de conduzir o escritório, faço serviços de campo também. Isso mesmo, em minha “cadeirinha” vou em fazendas, trabalho nos currais, faço julgamento de animais em exposições, procuro da melhor maneira possível, realizar o meu trabalho como veterinário.

Duvidoooo, se não deu um “arrupio” agora. É muito sensacional saber que É POSSÍVEL! Sou fascinado, vocês sabem, por casos inéditos de malacabados em situações adversas, provando que a gente tem condições, sim, de estar em todos os setores sociais!

“É bem verdade que, já tomei trombadas de vacas e bois, tenho que me locomover em superfícies embarreadas, subo nas plataformas dos currais, às quais eu sempre sou ajudado pelos peões das fazendas ou improvisamos tábuas, para que eu faça uma “rampa” e tenha acesso às plataformas.

Tenho uma moça (Jackeline) que trabalha comigo, ela dirige, me ajuda em tudo e é minha companheira do dia a dia, no trabalho, e, é ela a pessoa que marca a fogo os animais nas fazendas, eu faço as avaliações e classificação, o restante é com ela, tenho muito respeito e gratidão pela Jack.”

Se lembram que eu já contei um pouco pra vocês sobre cuidadores? Não, então clica no bozo. Brincalhão Ter um bom parceiro ou boa parceira é fundamental para que um tetrão, sobretudo, consiga ter uma vida pessoal e profissional super “diboa”.

“Esta é minha vida: trabalho, sou independente financeiramente, tenho uma família maravilhosa, procuro ajudar outras pessoas e sou feliz, independentemente da forma e/ou limitações físicas. Nossa maior limitação é psicológica, nossa maior barreira, somos nós mesmos.”

Poxa, adorei conhecer o Adriano. As únicas terras que eu tenho são debaixo das unhas Sem jeito, mas, com certeza, a fazenda que esse caboclo atua, há de ter muito e muito progresso...

Beijos nas crianças e bom final de semana

* Fotos do arquivo pessoal de Adriano Garcia

Escrito por Jairo Marques às 00h01

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Visitantes na Matrix

 

Sempre quis colocar aqui no blog uma história de gente que ficou “malacabada” temporariamente ou seja, que tá dando uma visitadinha nesse mundo paralelo onde vive esse pessoal rascunhado... Rindo a toa. Vai lá, sem braço, sem perna, cadeirante, muletante, com escutador de novela queimado, que arrasta cachorro-guia...

 

E esse povo que ta experimentando o sabor delicioso de não passar por portas estreitas de banheiro, que não consegue vaga reservada para a charanga (ocupada por gente imprestável, muitas vezes Indeciso), que não consegue ir e vir livremente são milhares, afinal, todo dia tem gente que leva canelada no futebol, que cai no buraco da rua, que escorrega no quiabo...

 

Acessibilidade, então, não é algo que atende só aqueles baleados e ferrados permanentemente pela guerra. Qualquer um, uma hora, pode precisar de facilidades para conseguir tocar o dia a dia.

 

Pra ficar mais claro e divertido (afinal, tem que ter sempre alguém pra passar vexame pra gente dar risada Tonto), a minha conterrânea, parceira de profissão e boniiiita Aline Rocha, conta pra “nóis tudo” como foi a experiência dela de ficar prejudicadinha por alguns meses...

 


 

Tá bem “interresantchi”, divertido e “didatchico”. Bora ler “nóis tudo”? Legal

 

Sorte

 

Foi mais ou menos assim: de um dia pro outro tudo começou a ficar difícil. Não foi gradativo. Eu simplesmente fiquei limitada de meus movimentos da perna esquerda. Aquelas ações que nunca parei pra pensar sobre começaram a me fazer franzir a testa. Andar simplesmente, subir ou descer escadas, dirigir ou cruzar as pernas (coisa da impiedosa vaidade feminina Carente) eram tarefas incômodas.

 

O mais inquietante eram os olhares. Tanto dos que me conheciam, quanto daqueles que me observavam pela primeira vez. Eles eram mais perfurantes na fase aguda de meu problema. E o mais conflitante em mim era que me incomodava com as inúmeras vezes em que ouvi “precisava de ajuda para subir a escada”? Mas o que perturbava mais ainda era quando simplesmente desprezavam que eu precisava de um pequeno apoio. Isso foi confuso pra mim. Mas acho que a confusão era dos outros também.

 

Os “x” no meu calendário iam aumentando. Significava que, aos poucos, minha recuperação me traria ao “normal”. Foi quando passei a me questionar a respeito do que era ser “normal”. Opa! Eu era a mesma. Mesmas piadas, mesmas vontades, mesmas necessidades e mesma carência também. Afinal, quem tinha mudado? Durante vários dias fiquei com raiva, especialmente das pessoas que não estavam mais por perto. Em outros, quando a serenidade divina e santíssima baixava em mim, achava que todos estavam certos.

 

Ei, não é o mundo que tem que mudar pra mim, eu que tenho que acompanhar o mundo. A regra é: se vira! Se vira porque ninguém vai se compadecer, se vira porque as coisas não param para te esperar e se vira porque ninguém precisa ter paciência porque você reduziu sua velocidade. Pois bem, minha velocidade estava menor, minha energia também, mas minha vontade das coisas não. Os registros mentais deste período já estão guardados em minha pasta pessoal, aquela que fica bem escondida das mãos, olhares e análises dos outros.

 


 

A idéia de que as coisas não estavam 100% e de que um degrau de dez centímetros já era quase uma muralha pra minha caminhada começaram a crescer. Opa! A luz acendeu, percebi que poderia observar então, por todos os lugares onde passava, o que as pessoas com reais dificuldades de locomoção precisariam. Foi quando vi que, no meu trabalho, por exemplo, isso era um problema. Mudar alguns pontos, talvez, fosse um estorvo. Pra quê? Se ninguém aqui está precisando, se isso vai dar trabalho. É. Todos têm outras coisas a pensar.

 

Aliás, pensar é algo que mais fiz desde novembro. Já que, neste período, fiquei sem poder dirigir e o jeito foi a boa e velha carona. Pai, marido, colega de trabalho. A carona é legal. Você conversa, o ruim é quando você se sente atrapalhando alguém. Quando, sem querer, demonstram que você ta mudando a rotina deles. Dias chatos. 

 

No dia seguinte a minha operação foi mais chato ainda, longo e pesado. Sentia meu joelho muito inchado e dolorido, não podia colocar a perna no chão. Não dava pra andar, aliás, mal conseguia ficar com o tronco erguido. Tive então minha primeira experiência com a cadeira de rodas. Natural, ela que me ajudaria a ir ao banheiro e a tomar banho. Tirando a dor, não cheguei a ficar constrangida com a ajuda da enfermeira e de minha mãe no banho. A anestesia ainda tinha seus efeitos e não dava para erguer os braços.

 


 

Minha mãe penteou meus cabelos também, essa é uma das boas recordações. O dia em que me dei conta de como eu precisava olhar pra mim foi quando queria pegar um livro e um copo de água que estavam a três passos da cama. Naquele momento não havia ninguém no quarto. Afff! Respirava fundo. Não tinha estratégia que me ajudasse a pegá-los. A tal força do pensamento que move objetos também não. aborrecido Ok. A paciência tinha que estar mais presente. Foi nela que me segurei e me seguro por todos esses dias. Os livros que li, as músicas que ouvi também me ajudaram, mas se não tivesse a “interatividade” da Internet, a boa e velha tristeza teria se instalado com vigor. 

 

Pois bem, é a interatividade que buscamos, não é? No trabalho, em casa, com amigos. Então, nem sempre temos e para isso é melhor respirar fundo e exercitar a paciência. Acho que olhar para outros lados, para outros passos em outras direções. Um passo de cada vez, quando já for possível dar. Hoje faz 75 dias que rompi ligamentos do meu joelho esquerdo. Estava em meu treino de vôo livre. Sou piloto iniciante de parapente, quase um paraquedas que voa como asa delta.

 

Meus movimentos estão muito limitados da perna esquerda, já ando sem as muletas, mas manco muito. Não ando como antes. Sou jornalista, tenho 27 anos, sou vaidosa e neste período de limitação provisória, me vi como nunca tinha visto antes. A mim e ao entorno.

 

Sou realmente uma aprendiz a vida. As ruidosas certezas e verdades estão aqui comigo agora, vamos dialogar. Ficarei seis meses sem voar, mais um mês, no mínimo, sem dirigir e volto a trabalhar, em breve.

 

Ainda não sei quando volto a andar como antes. Os degraus da escada? É terei que encará-los de novo.

 

Escrito por Jairo Marques às 07h12

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um gosto de injustiça

Pessoal, hoje, seguramente, escrevo um dos textos mais difíceis dessa minha curta jornada de blogueiro.

 

 

Difícil porque sinto como se um ácido tivesse descendo pela minha “guela” enquanto penso em como dividir com vocês mais esse capítulo da saga de quem vive num mundo paralelo, empurrado para ele pela indiferença, pela falta de condições de acessibilidade, por uma visão ainda existente de que quem é deficiente é menos do que os outros seres humanos comuns.  

 

Há cinco meses, contei aqui a história da Ana Carolina, advogada de Poços de Caldas (MG) que foi impedida de entrar em uma loja para comprar cadeiras. Para quem não leu ou não se lembra dos detalhes, clique no bozo que eu conto tudo... Talvez, seja fundamental bater o olho no post antigo para entender mais certo a minha angústia... Brincalhão

 

Enfim, a Aninha (que é uma florzinha miudinha, mesmo Indeciso) não foi apenas impedida de entrar na espelunca, ela foi humilhada, ela foi tratada como um ser humano menor de uma forma flagrante e desavergonhada. Ela sofreu preconceito direto e claro.

 

A moça não titubeou e entrou na Justiça com um pedido de ressarcimento por danos morais. E não era a grana que ela estava atrás. Ela queria, sim, era um instrumento legal para empunhar ao mundo que temos direito à dignidade, ao acesso amplo à interação com o local que bem desejarmos, ao respeito...

 

Não conseguir entrar em um local acontece com todo os deficientes montados ou que puxam cachorro guia a todo momento. Mas, sentir na pele que não querem que você entre num recinto por causa da sua condição física, é outro departamento...

 

Na audiência de reconciliação, o dono da loja, reconhecendo a meleca que fez e propôs um acordo. A Ana, que tomou uma atitude coletiva e não individual, negou receber lá umas migalhas. Queria saber o que, de fato, a Justiça achava daquela situação. Eu dou os meus aplausos por essa atitude.

 

Pois bem, em sua sentença, que não serve para ser discutida e sim para ser cumprida, o juiz Maurício Ferreira Cunha deu uma rasteira que só não derrubou a Aninha porque a cadeira de rodas tava lá pra ampará-la. Agora, degustem um pouco do sabor amargo da "interpretação" feita da situação

 

“O ônus da prova é a conduta que se esperava da parte para que a verdade dos fatos alegados seja admitida (...) não se viu satisfatoriamente desincumbido pela requerente (...) este juízo julga improcedente o pedido.”

 

Como jornalista, como cidadão tenho de engolir a seco e baixar a cabeça pra autoridade, mas, como deficiente, igualzinho a Ana (um pouco menos tortinho que ela Muito feliz), digo que fiquei numa vontade de chorar sem tamanho lendo isso e de achar que não houve nada de justiça, de amparo, de conserto da ordem social.

 

Todo o fato foi acompanhado pela mãe da Aninha. E me digam uma coisa, queridos leitores: que preconceito, que humilhação deixa testemunhas? Sinceramente, senhor juiz, não deixa não, só deixa uma mácula na nossa trajetória “malacabada”, isso deixa sim. Em todas as situações em que me senti o cocô do cavalo do bandido por ser paraplégico só estavam eu e o meu algoz e, em vários momentos, lá estava também a minha mãe.

 

A decisão judicial, tem outros pontos de arrepiar os cabelos de quem tem (não é meu caso, infelizmente Carente).

 

“Há de ponderar, assim, que ainda que tenha havido um certo desconforto do contato da requerente com funcionários da empresa requerida (ressalvando que a requerente e sua genitora lá já haviam estado anteriormente (...) fato é que não se vislumbrou nos autos qualquer mácula ou constrangimento à pessoa (...).”

 

Como assim, “um certo desconforto”? Sempre cito o caso dos negros. Quem é negro não sente um “desconforto” quando o humilham por sua cor, tanto é que, agora, ele pode acionar a policia e firmar um ato de preconceito, mas, com deficiente que é impedido de entrar em um lugar, é um “certo desconforto”? Eu te digo, senhor, juiz, não é desconforto, é se sentir rebaixado, é se sentir excluído, desamparado. É se sentir aflito diante de um flagrante de crime contra a raça humana.

 

Claro que ela havia estado na loja! A porta de acesso, que estava aberta das outras vezes, estava trancada na última e os donos SE NEGARAM a abrir!!!! Se negaram a facilitar o acesso. Não queriam uma cadeirante no local, naquele momento.

 

Vai lá... despejem a ira no vazo do banheiro que tem mais:

 

“Não se trata de um serviço mantido pelo Poder Público. Trata-se, sim, de uma empresa voltada ao comércio varejista de móveis que como tantos outros (milhares) não tem sua estrutura totalmente adaptada seja pela dificuldade financeira, econômica ou qualquer outro pressuposto.”

 

Esse dizer do magistrado, coloca por terra tudo o que eu entendo por igualdade de oportunidades, de direito pleno de ir e vir, rasga a convenção da ONU pelos direitos da pessoa com deficiência. Não pode entrar no restaurante? A vida é dura. O bar não tem banheiro pra você, cadeirante? Lamento. O shopping tem escadas? Sorry, fio, fique em casa, desista, se enterre na Matrix.

 

Essa sentença, seu juiz, com todo respeito que lhe devo, é uma paulada certeira na fuça de milhares de pessoas com deficiência que se mobilizam, pressionam e se atrevem a conviver nesse mundo que o senhor, certamente, pode caminhar livremente. Tenho por certo que o Poder Judiciário trabalha com fatos, com os mandamentos da lei, mas também tenho ciência de que quando se batem nas palavras, quando se espancam as interpretações, elas hão de promover aquilo que bem entendemos...

 

A Aninha ainda não decidiu se irá recorrer da decisão. Caso ela perca em outra instância, terá de arcar com as custas do processo e com os honorários do advogado da outra parte...

Escrito por Jairo Marques às 00h01

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Me dá um dinheiro aí!

Já recebi dezenas de mensagens pedindo “apoio” para divulgar causas de “malacabados” que pretendem viajar a outros países para buscar melhorias ou mesmo curas milagrosas para seus “estropiamentos”... Tonto

O lugar onde o povo mais sonha em ir é pra China, injetar uma celulazinha tronco na veia em qualquer biboca e de quebra comer uma carninha de cachorro, uns escorpiões, umas cobras.. (ui).  Bem, sei que vou desagradar muita gente, mas não vou deixar de botar meu ponto de vista: é pura bobagem, pura ilusão, puro efeito placebo.

Gente, afora aquelas picaretagens de pastores em programa de televisão, alguém já viu um tetrão, um PCzão Rindo a toa ou um paraplégico voltar a andar de uma forma autônoma e perfeita após um tratamento alternativo? Tenho 35 anos e nunca, nunca vi, nem comi e mal ouço falar Muito triste. Nem nunca li nada sério que me fizesse acreditar em tratamentos a la olhos rasgados.

O que conheço são as extraordinárias reformas que os grandes hospitais de reabilitação promovem. Esses são gratuitos, são de excelente qualidade e até ajudo a fazer a rifa para comprar a passagem de marinete para quem mora longa desses centros....

Uma vez eu levei um pito de uma amiga que me disse: “Jairo, a gente tem que respeitar a vontade e o sonho dos outros. Se a pessoa acha que ficar dentro do bucho da vaca pode fazê-la andar, então...Cada um tem seu direito de buscar o que acha ser o melhor pra si.”

Sim, concordo que eu tenha de respeitar, mas, como comunicador, como blogueiro lido por duas ou três pessoas com vários parafusos a menos Rindo a toa, não posso dar apoio a iniciativas individuais em busca de algo que a ciência diz que não há nenhuma comprovação.

Meu povo, vivemos em um país que, infelizmente, os números de acidentes de trânsito são recorde e, consequentemente, o número de pessoas que ficam “mamulengas” também é alto. Por isso, estão no Brasil alguns dos melhores ortopedistas, neurologistas e fisiologistas do mundo para tentar melhorar a funilaria desse pessoal.

“Ahhh, tio, mas eu conheço um ziminino que foi pra China e não mexia nadinha e, quando voltou, tava mexendo um pouquinho do braço!!”

É bem capaz de isso acontecer, mesmo. Mas... é preciso um pouco de racionalidade, gente. Com fisioterapia intensiva, com tratamentos existentes aqui mesmo no Brasil, com a evolução natural da recuperação das pessoas, é possível que os mesmos movimentos tivessem se recuperado...

Outro aspecto importante a ser avaliado, a meu ver é o seguinte: imagem vocês que um japa doido consegue uma maneira revolucionária de recuperar movimentos de um lesadinho medular. Bem, porque raios esse tratamento, tão importante, ficaria isolado em uma parte do mundo apenas?

A história mostra que tudo o que muda a qualidade de vida de milhares de pessoas se espalha pelo universo muito rapidamente. Não dá pra imaginar que uma clínica, um centro de reabilitação específico deteria uma técnica exclusiva que fosse capaz de salvar milhares de pessoas.

Campanhas que visam o bem coletivo, que vão trazer benefícios para várias pessoas, eu tô dentro, mas não me solidarizo (sorry Carente) com campanhas individuais atrás de milagres.

Por que a gente faria uma corrente para levantar grana pra loirinha linda que quer ir pra Europa atrás de um tratamento que vai engrossar seus cambitos e deixariamos um negão sem assistência básica de reabilitação num dessas favelas da vida? (Tô brabo, né? aborrecido)

“Creeeedo, tio, a gente tem que ter esperanças!” É claro que sim, mas por mais difícil que seja, é preciso botar à frente da nossa ansiedade de querer voltar a ter uma vida mais normal possível,  um pouco de razão, um pouco de conhecimento, um pouco de racionalidade para não ter, além de uma frustração, um prejuízo financeiro.

Ir pra China fazer supostos tratamentos com células tronco custa caro financeiramente e emocionalmente.  Há alguns meses, o Fantástico, da Grobo, “disque” ia acompanhar par e passo a evolução de uma garota que ficou tetrona e ia se tratar lá no oriente.... A série só teve um capítulo, não sei a razão..  Também divulgaram um aparelho robocope que faria um malacabado andar "de boa" usando uma geringonça metálica. Sumiu, evaporou, não rolou.

Podem estar certo, no momento em que alguém recuperar de fato um novo movimento inédito e inesperado, tiver uma evolução profunda e verdadeira em seu quadro físico ou sensorial, a notícia irá se espalhar aos quatro ventos! Legal

* Imagens retiradas do Google Imagens 

Escrito por Jairo Marques às 00h06

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
Twitter Twitter RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.