Jairo Marques

Assim como você

 

Perebinhas e perebonas

“Zimininos”, quem é lascado pela guerra e fica “malacabado” das pernas ou mesmo quem contrai um “dodói” (tô mona hoje, né? Beijo) e precisa ficar acamado por muito tempo tá sujeito a uma perebinha danada comumente chamada de “escara”, mas cujo nome de “verdadchi” é úlcera de pressão.

 

O lance funciona assim: como o sujeito fica mais parado do que “zóio de santo” Tonto o bumbum (oia que chique), sobretudo, fica exposto, devido à ausência de movimento, a criar uma perebinha que, sem cuidados imediatos, pode se transformar numa perebona, num transtorno sem fim.

 

Quem vai explicar pra tudo mundo isso é Gisele Azevedo, que é mais conhecida neste blog do que nota de R$ 1... Muito triste. Para quem não sabe, ela é especialista justamente em terapias para sarar os problemas fisiológicos que os lesados normalmente adquirem. A Gi também é professora universitária, com doutorado, ou seja, num sabe de quase nada... Carente

 

Faço questão que todo mundo conheça mais sobre as tais “úlceras” porque o tema é muito desconhecido, apesar de ser bem comum. Com mais informações para todo mundo, acho que menos os cadeirantes vão sofrer com os machucados, porque poderão ser alertados dos riscos, e mais gente vai conseguir se livrar do problema, se cuidando direitinho!

  

Sorte

A coisa começa assim: quando a gente tem a sensibilidade normal, mudamos de posição constantemente, sem que nos demos conta. Fazemos isso no piloto automático, descruzando pernas, levantando uma banda da bunda da cadeira, chacoalhando as pernas, e por aí vai.

 

Com a sensibilidade tátil alterada, como acontece em várias deficiências, essa percepção para mudar de posição não acontece, e a pessoa fica horas/dias/meses do mesmo jeito, se alguém não auxiliar na mudança, para aqueles que também têm a mobilidade prejudicada. Se isso acontecer, os pequenos vasos (artérias e veias) ficam comprimidos entre as saliências ósseas e a cama, deixando de levar sangue aos tecidos. Isso ocasiona a morte das células.

 Tecido morto para o nosso corpo é coisa estranha, ele só reconhece coisas vivas e daí o negócio é botar para fora. Está iniciada a úlcera por pressão, que recebe esse nome justamente para que se lembre a sua origem. Antigamente chamava-se escara, hoje o nome mudou.

 

Começa sempre com uma vermelhidão que não desaparece quando se comprime levemente a pele, esse é o estágio 1. Pode botar fé que aí a pele já morreu, abrir tudo é só uma questão de tempo.

 

Estágio 2 é quando tem perda de tecido de pequena profundidade, atingindo somente as camadas superiores da pele. No estágio 3 há o comprometimento de toda a pele e, no 4 há perda de músculos e pode chegar aos ossos.

 

Ou seja, o cabra chega ao pronto socorro todo estropiado, a equipe vai cuidando de fazer diagnóstico, radiografias, tomografia, imobilização, cirurgia, curativos, medicamentos, estabilizar o caboclo e todo mundo deixa ele bem quietinho, sem mexer. Quando passa o furacão, se aparecer uma alma sensível e competente, vão começar a mudar de posição na cama e... surpresa!!! Tem uma baita feridona na bunda do cidadão. Simples assim.

 

Vamos tratar? Prá começar, mudar de posição a cada duas horas, religiosamente. Isso quer dizer virar para um lado e ficar duas horas. Depois, virar para o outro, mais duas. Depois, de bruços, outras duas horas. E de costas, mais duas horas.

 

 

Ou seja, somente a cada 8 horas vai haver pressão na mesma área novamente. Se estiver sentado na cadeira de rodas, tem que fazer a “descompressão isquiática”, ou push-up: a cada 30 minutos, levantar o corpo sustentando-o nos braços, pelo máximo tempo que conseguir.

 

Sem isso, pode baixar “gzuis” que a ferida num fecha, pois faltará o principal: estradas livres para chegar nutrientes nas células. Segunda coisa: alimentação rica em proteínas e vitaminas, com suporte profissional. Caso contrário, não haverá nutrientes suficientes para criar pele onde precisa ser cicatrizado. E pode comer de tudo, nenhum alimento é proibido por causar feridas, pelamordedeus!!!!!

 

Prá finalizar, sugiro a contribuição de um profissional enfermeiro com conhecimento especializado em feridas, o estomaterapeuta (uma lesada que nem eu, craro surpreso), para avaliar o cidadão e a lesão e indicar a melhor cobertura a ser colocada ali, além da limpeza adequada.

 

Não dá prá chutar nem botar qualquer coisa, pois isso pode atrapalhar tudo. E jamais deixar aberto, botar prá tomar sol, utilizar produtos caseiros, ervas e “quetais”. Ah, e o sujeito tem que estar sempre sequinho, limpo, sem “totô” ou “xixi”, senão vira um caos.

 

 

Esse é o grande nó da coisa, pois sempre que começamos um tratamento, temos que tirar fraldas sujas de caca, tudo colado na ferida.... retrocesso geral. Bem, é tudo isso. Espero, de verdade, ter esclarecido um tico. E fico a disposição prá quem quiser saber mais, caso eu possa ajudar. Um super beijo pro tantão de amigos que tenho aqui, nesse cantinho querido.

 

Em tempo: "Zente", no domingo, no caderno Veículos, da Folha, vai ter uma reportagem minha sobre uma "ximbica" que fiz os próprio test drive. Falai, tô abalaaaaando!!! Rindo a toa 

Em tempo, de novo: Na segunda-feira, o caderno Folhateen, da Folha, vai trazer um material especial sobre adolescentes "matrixianos". Tá bem interessantchi e, claro, vai ter uma pitada minha!

 

Bom final de semana e beijos nas crianças!

Escrito por Jairo Marques às 06h32

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De pernas pro ar

A menina parada num cruzamento, perto de casa, voltando da faculdade com uma amiga, à noite, é abordada por um bandido.  Ela acelera o carro, com medo, muito medo. O bandido atira... páfh...  “Senti que meu corpo, do peito pra baixo amorteceu na hora”.

O veículo ficou desgovernado, a amiga conseguiu pisar no freio, o bandido fugiu, e Aline Medeiros, 29, que sonhava voar bem alto, ficou paraplégica. “Tive parada cardíaca, respiratória. Foi um ‘furduncio’. Fiquei três meses no hospital, dois de UTI, tive perfuração nos pulmões, quebrei a clavícula, costela, tive lesão na minha vértebra na altura T1. A bala ficou alojada em mim.”

Acho que qualquer pessoal “normal” poderia pensar: “tadinha, acabaram-se os sonhos”. Mas a nossa essência, de “matrixiano”, nos empurra para a frente. Aline se formou em Administração de empresas, trabalha numa companhia de saneamento, e faz sua vida girar, a bola rolar, se dá novas oportunidades, reiventou a vida...

E se lembram daquele sonho de voar bem alto (que aliás é frequente entre cadeirantes, né, não?) que ela TINHA?  Realizou faz um bocadinho, saiu de Sumaré (SP), onde mora, e foir saltar de parapente, na pedra da gávea, no Rio...

“Nossa, na hora, minha vontade de saltar era tão grande que misturou várias sensações e sentimentos: medo ansiedade tudo o que se pode imaginar, mas meu desejo de provar que eu conseguiria era maior que tudo”.

Já mostrei algumas pessoas se ‘encontrando com os céus’ aqui no blog, mas adoro postar mais e mais exemplos. Para quem nos vê como símbolo maior de imobilidade, de limitação, talvez, nos ver “voando” faça com que as ideias mudem, os conceitos se reformem, o mundo mude (e a gentte domine tudo, oficorsi! Rindo a toa)

 

 

“Me colocaram sentada na cadeirinha própria do parapente, me amarraram e o instrutor na sua cadeirinha atrás, e dois caras um em cada lado meu segurando minha perna pra poder dar a corridinha para o equipamento abrir.”

 

E nessa aventura da Aline estavam primos, sobrinhos, irmãos, amigos e um pessoal bem ‘de boa’ quando os filhos se metem a fazer pequenas loucuras: o pai e a mãe. surpreso

 

“Nem sei te explicar o que eu senti na hora que o parapente abriu. Só ouvi uma gritaria e aplausos, foi super emocionante, pois as pessoas que estavam lá, não esperavam uma ‘malacabada’ saltar da pedra, né... Foi maravilhoso o voo durou uns 15 minutos de pura emoção

 

Um dia, quem sabe, eu tomo uns três litros de maracujina, fico zen e salto de um trem desses! Muito tristeMas, ôh, tio, o quem que tem a ver o título, pernas pro alto, heim?” Ah, tá, a Aline explica  ‘procês’...

 

“O nosso único medo era na hora do pouso, o que nós faríamos com minhas pernas, sem movimentos, mas nas alturas treinamos um pouco.  Como o instrutor estava atrás de mim, com as suas pernas ele empurrou as minhas pra frente, para o alto e eu dei uma ajudinha com as mãos levantando, e o pouso foi um espetáculo. Foi uma aventura maravilhosa, inesquecível.”

 

 

Meu povo, estou um pouco relapso nesta semana com o blog. Mas garanto a vocês que estou trabalhando forte nos próprio bastidores para trazer informações e histórias bem inéditas e 'maraviwonderfulls plus' pra 'nóis tudo'! Convencido

 

* Fotos do arquivo pessoal de Aline Medeiros

Escrito por Jairo Marques às 22h09

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O sonhador...

Meu povo, foi um sucesso o espaço que abri aqui, na semana passada, de “achados e perdidos”, ops... de “reclames e pedidos”... Rindo a toa Até ontem, foram quase 70 sugestões. Tô na roça pra atender tudo... surpreso

 

Dentro os diversos comentários “maraviwonderfulls” e “inteligentchis”, um me chamou muito a atenção, o da minha parceira argentina Pilar Nieva, que coordena o Movimento Superação na Argentina e é linda que chega faltar o “foigo”... fôlego, para os menos esclarecidos no caipirês... Beijo

 

A Pilar me pediu para contar se sonho como andante ou como ‘malacabado’. Interessante demais da conta, né, não? Desde então, eu tenho botado mais reparo no meu soninho... Inocente

 

 

Uma vez li numa revista de cultura inútil, acho que daquele mestre do zodíaco, o João Bidu, sem lembram? Muito triste Então, li que é muito raro ver a nós mesmos em sonhos, nos dar conta da própria imagem durante o desenrolar das tramas noturnas. Não sei se funciona com todo mundo, mas comigo é fato: não me vejo, não.

 

De qualquer forma, os meus momentos oníricos mesclam o andar e o não andar. Noite passada, por exemplo, eu sonhei que o falecido Tim Maia foi até a minha casa pra gente ter um dedo de prosa. Apaga a "luiz gzuis", sonhar com o Tim Maia é o ó do borogodó... Muito feliz 

 

Me lembro claramente que eu dizia pra ele que, na hora dos shows, ele falasse pro público que era preciso promover a acessibilidade para todos e que era pra todo mundo respeitar os direitos dos “matrixianos”...

 

Por outro lado, eu já sonhei que estava dependurado em árvores chupando manga, já sonhei que estava jogando futebol e marcando gol, já sonhei que estava correndo no mato (ai que delícia... Embaraçado).

 

Nessas noites, acho que eu não usava cadeira de rodas, não. Pelo menos imagino que seria muito surreal trepar numa árvore montado... Contudo, eu jamais acordei feliz da vida pensando: puxa, andei no sonhos! E nem nunca pirei com essa ideia.

 

 Mas percebam que coisa ‘interessantchi’: quando eu tô nas necessidades de dar aquela urinaaaaaada, de aliviar a pressão nas bexiga, eu rotineiramente sonho que não estou encontrando um banheiro acessível e tenho de segurar o aguaceiro. Ou seja, nem no sonho eu consigo consertar o mundo... Triste

 

Como vocês sabem, eu nunca andei, nunca tive o gostinho de pegar bicho de pé pisando onde não deveria, talvez isso justifique o fato de eu misturar tudo.

 

Já ouvi relatos de ex-andantes, que se estropiaram ao longo da vida, dando conta de que sempre têm sonhos como pessoas “normais”, fazendo as coisas que rotineiramente faziam andando.

 

Como um ‘rapaizim bão demais da conta’ chamado Freud defendia, os sonhos podem ser a representação das vontades do inconsciente. Logo, é bom tomar cuidado com aquilo que tão sonhando, heim? Rindo a toa  Apesar que querer andar, querer ver, querer ouvir, para quem não pode, é um desejo beeeem consciente, acredito eu!

 

 

Essa história toda de sonhos me deu um sooono... Mas, contem ai, como são seus sonhos, heim? Alguém já sonhou que ficou malacabado? Qual a sensação? E os matrixianos? Como são seus sonhos?

Escrito por Jairo Marques às 00h15

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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