Jairo Marques

Assim como você

 

Quando o amor acontece

Por esse diário, já passaram algumas boas histórias de romance para provar que nós, “seres de outro planeta”, sabemos bem viver a paixão, podemos e queremos namorar, transar; podemos ter filhos, podemos ter gente toda “certinha” ao nosso lado como também podemos ter os atrapalhados, os tortinhos...

“Cresci em Marília, interior de SP, e  me formei em 2000 em Fisioterapia. Mudei para a capital e consegui emprego numa empresa que prestava atendimento domiciliar a pacientes necessitados, geralmente idosos e crianças. Logo, foi com uma certa surpresa que em 2003 recebi a tarefa de visitar um jovem que tinha ficado tetraplégico (lesão medular C4) após um acidente de carro

Carlos tinha acabado de sair de uma cirurgia e se recuperava, sendo cuidado 24 horas por dois enfermeiros. Como era compreensível ele estava muito deprimido com toda a situação e a dificuldade de seus familiares em aceitar sua nova condição. Várias vezes, comentou comigo, em momentos de dor e desesperança, que sua vida havia acabado.”

Grandes amores dependem de alma aberta para encontrá-los, entendê-los, decifrá-los, enxergá-los, senti-los. Para quem é ligeiramente “diferente”, uma gota de coragem, um empurrão de auto-estima, uma mãozinha de confiança, um sonzinho de sedução, ajuda bastante.

“No início, nosso relacionamento era puramente profissional, ele o paciente, eu a terapeuta. O tempo foi passando e nosso vínculo, além de profissional, passou a também  ser de amizade: durante a terapia, exercícios e massagens, batíamos longos papos, dávamos risadas, contávamos histórias de nossas vidas, famílias e passados.”

A gente encontra esse danado desse amor nas mais inusitadas situações. Um segredinho é você não dizer a si mesmo que aquilo é impossível, “onde já se viu?”. Seres humanos não possuem manual de instrução para controlar o desejo do coração, da mente, do corpo.

 “A cada dia aquele paciente se tornava mais e mais importante em minha vida e eu ansiava pelos momentos em que passaríamos juntos, conversando sobre coisas sérias e bobas, rindo enquanto trabalhávamos juntos para alcançar os objetivos da terapia. Aos poucos essa amizade, que até então era restrita aos 50 minutos da sessão, foi crescendo e se fortalecendo. E junto com ela uma cumplicidade gostosa. Não sei precisar o momento exato que a amizade virou amor. Essas coisas a gente nunca sabe mesmo como acontecem, mas de repente me descobri  apaixonada por aquele paciente. Tudo fluiu da maneira mais natural possível. O primeiro beijo, o primeiro toque, e as minhas mãos que apenas massageavam, agora também acariciavam. Ele estava se redescobrindo também como homem, aprendendo a viver de novo, e nossa alegria e amor cresciam conforme compartilhávamos essas novas e deliciosas descobertas.”

Ahhhh, “zente”, fala sério, essa parte num tá linda? BeijoVivo papagaiando isso: se redescubra, se reinvente. Permita que a vida te mostre novos caminhos... Bora seguir...

“À época, surgiu uma vaga no hospital Sarah Kubitschek,  em Brasília (um dos melhores do país). Ele queria muito ir pra lá, e eu, profissionalmente também queria muito conhecer. E fomos juntos! Passamos dois meses lá e na volta para São Paulo, achei que nossa história terminaria ali. Ele se mudou para Presidente Prudente, para ficar perto de seus familiares, e eu permaneci trabalhando em São Paulo.”

Bem, agora, eu revelo: essa história se passou e se passa com uma das minhas leitoras mais antigas, queridas e atuantes, a Maysa Mascarin, a Maysoka, e o Carlos, que é tretrão, ops, tetraplégico, daqueles que dão um trabaaaaalho danado!

“Naquele momento  descobrimos que nosso relacionamento tinha raízes profundas o bastante pra enfrentar muita coisa e que não seria a distância de quase 700 km e outras questões familiares que não iriam deixar brotar e crescer nossa semente de felicidade. Viajava a cada 15 dias para vê-lo e fiz isso durante longos nove meses. Um belo dia, em 2004, ele acabou decidindo voltar para São Paulo para que morássemos na mesma casa e juntos estamos desde então. Muitas pessoas me perguntavam (e ainda perguntam) como é namorar um deficiente.

Para ser sincera, nunca coloquei a deficiência dele em primeiro plano. Da mesma maneira que há pessoas altas, magras, gordinhas, ele é cadeirante, mas continua sendo o meu Carlos,  o meu amor, o homem de minha vida, o que pra mim faz com que ele seja mais do que especial. Nossa decisão de viver juntos foi ditada primeiro pelo amor que nos une, mas também pela nossa determinação de lutar contra o preconceito, contra o descaso, que infelizmente não está somente no mundo lá fora. Às vezes, está bem próximo da gente.”

 

Confessem, confessem se agora num deu aquela amarrada na guela, aquela respirada funda, num veio um pensamento antigo de atitudes meio tortas na vida, num veio uma esperança, num veio uma coragem, num veio algo do tipo: “ahhhh, que liiindo Maysa.

“Somos uma pessoa em duas. Ele pensa, eu faço. Ele projeta, eu executo. E além do meu coração ele também tem as minhas mãos e os meus pés que o levam por caminhos inacessíveis. E mais importante, tem todo o meu amor, que é o responsável por essa história. Quando o amor acontece,  nos tornamos capazes de ver muito mais além do que uma cadeira de rodas, do que uma mão que tem pouca  função, ou de um corpo meio ‘estropiado’. A gente se torna capaz de superar todas as barreiras impostas pela sociedade, pela ignorância, pelo ódio, pelos preconceitos. O amor torna tudo possível e acessível.”

Tão gostando? Cabe ‘nóis tudo’ numa kombi para ir lá abraçar esse casal? Rindo a toa Calma, calma que tem mais... o clímax tá chegando!

“Hoje vivemos perto de meus parentes numa cidade mais calma e sem a correria e solidão que sentíamos em São Paulo. E no penúltimo dia de 2009, depois de seis anos juntos, decidimos oficializar nossa união. Nos casamos, numa cerimônia simples, presenciada por nossos amigos e familiares. Olhando para o passado, jamais eu iria imaginar que em 2003, ao visitar aquele paciente, a vida me reservava uma grande surpresa. Sou grata à vida, sou grata ao Carlos e tenho a certeza inabalável de que as diferenças entre as pessoas são incapazes de impedir uma história de ser reescrita quando o verdadeiro amor acontece.”

Quando eu soube do casamento da Maysa, fiquei radiante e louco pra mostrar a todos essa história, que eu já conhecia um bocadinho e que, agora, sobe neste palco para que todos possam também admirar esse espetáculo de viver...

Beijo nas crianças e bom final de semana!

* Fotos do arquivo pessoal de Maysa Mascarin

Escrito por Jairo Marques às 00h10

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Do alto, coração...

Eu vivo contando dinheiro na frente dos pobres dizendo, todo “me achando”, que saltei de uma “tiloreza” de mil metros... ai, ai... esse minino é bão, mas de voar, sabe tão pouco... Carente

 

Não sei se vocês já notaram, mas a maioria dos leitores aqui do blog tem, cada um a sua maneira, uma imensa vontade de exaltar um certo espírito aventureiro.

 

Sempre há, nos comentários, relatos de pequenas ou grandes aventuras que um “malacabado” ou um “infiltrado” fez tentando transpor a suposta barreira do impossível. Gente saindo de casa, gente querendo trabalhar, gente enfrentando seus medos, gente tentando ser melhor, gente desafiando a lógica perversa da exclusão do “deficientchi”...

 

No finalzinho do ano passado (nem faz tanto tempo Alegre), o meu leitor/amigo/parceiro/brother Augusto Toledo, o Gugu, se impôs um desses desafios. E ele foi bem alto.

 

O Augusto fez aquilo que diz a música: “O que sai de mim vem do prazer, de querer sentir o que eu não posso ter. O que faz de mim ser o que sou, é gostar de ir por onde ninguém for. Do alto, coração, mais alto, coração”.

 

Bem, mas deixa eu explicar para todo mundo viajar comigo Rindo a toa. Há quase sete anos, o Gugu se lascou todo em um voo de parapente. Ele era bem experiente, mas, cometeu um erro de procedimento e entrou pra Matrix, após uma queda que o deixou paraplégico, no município de São Pedro (SP)

 

“Nunca desisti de retornar a voar como nunca desisti de nenhum de meus sonhos e olha que são muitos... Porém durante esses cinco anos após o acidente estudamos ( eu e meu brother Sérgio, instrutor de voo de Itu) como poderia voar novamente respeitando as normas de segurança e ao mesmo tempo pudesse ter novamente prazer ao voar.”

 

“Zente”, e não é que o doido decolou novamente rumo ao céu? surpreso Após muito treino, criação de adaptações, ele voltou a saltar de parapente. E mais, em dezembro, o Augusto rompeu os limites do medo, de supostos traumas e voou partindo do mesmo local onde sofreu o acidente, em São Pedro... Caraca... “cêis guenta”?

 

“Fui tomado de uma calma providencial, e curti tanto cada momento que é muito difícil descrever aqui em palavras o que senti podendo realizar a coisa que amo fazer, voar junto com os urubus, sentindo o poder e a beleza da natureza (que traduzo na sensação de Deus bem perto da gente).”

 

Para realizar o voo, o Gugu precisou da ajuda de dois amigos para decolar. Para pousar, simplesmente ele fez de bunda (ui), aprimorando uma técnica de frear e fechar a vela no momento certo, pousando sobre um air bag existente na selete (cadeirinha que é conectada ao parapente).

 

Fiquei com adrenalina só de pensar! Muito triste “Voar pra mim é muito especial e ainda mais agora, pois como cadeirante tenho uma sensação de peso, imobilidade nas pernas, uma limitação de movimentos e quando estou voando esqueço que não ando e sinto uma leveza que, como diz o Jairo, é maraviwanderful ou algo assim”.

 

Agora, curtam o vídeo desse voo histórico do Gugu. Voem com ele, pensem sobre a importância de quebrar os nossos limites.....

 

Em  tempo: Para ver os outros videos de voo do Augusto, acesse www.gaadin.org.br

Escrito por Jairo Marques às 00h01

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O sultão

“Zente”, e esse ano que não termina, heim? Muito triste Mas bora blogar pra ver se o Carnaval chega logo e a gente rasga a fantasia “engastaiando” tudo nas rodas das cadeiras, nas muletas, nos andadores... Convencido

 

Tenho recebido muitos emails por esses dias de “malacabados” que estão curtindo o verão na praia e também levando uns capotes na areia. Eu mesmo já dei a minha passeatinha/atoladinha pelo litoral para ver se melhora o tom da minha cútis (ui!).

 

E quando você vai à praia, parafraseando um tiozinho doido que vi lá em Maresias: “O que qui cêis qué?! É quezo? Oia o queeeezo!!”. Não, não.. eu pelo menos não quero aqueles queijos sebosos, não Rindo a toa, eu quero é poder curtir a areia, ficar perto do mar, sentir a brisa, encher o bucho de cerveja.

 

Acontece que para ter esse prazer, os cadeirantes se lascam um bocado. Em São Paulo, pelo menos, as faixas de areia são muito grandes (o que é bom, é claro) e não há nenhuma estrutura pra mode o “estropiado” conseguir acessar o paraíso do verão.

 

 

Em alguns locais (em Ipanema, no Rio, já rolou e em uma praia do litoral sul de SP também), boas almas implantam “projetos sociais” que colocam à disposição uma espécie de esteira que possibilita que o cadeirante consiga andar pela areia até pertinho do mar, de boa, sem ficar preso. Alguns bares e restaurante adotam a estrutura dentro de seus pé-sujos para facilitar a vida dos banhistas.

 

Bate o olho nesta imagem da estrutura montada em uma praia da Espanha. Percebam como fica bem mais fácil tocar os cavalos e em nada prejudica o "visu"!

 

 

Pô, meu povo, mas pra tudo nessa vida eu vou precisar de projeto social para poder fazer? Claro que eu reconheço e sou grato a esse pessoal que faz de tudo pela inclusão, mas as iniciativas precisam sair do “isolado” e virar regra, né, não?!

 

Onde está o meu direito de ir e vir a qualquer lugar público? “A praia é pública, tio?” Éééééé!!!! E qual é a solução? O começo, pelo menos, é exatamente esse que muita gente tem me escrito para contar: não deixar de ir, dar as caras pra bater, mostrar que é preciso acesso, é preciso que façam o caminhozinho de madeira para facilitar a vida da gente....

 

E não se intimidem, “zimininos” se necessário for, façam como o tio, virem “sultão”! Convencido

 

 

 

 

Não é a melhor opção, mas, na praia tá cheio de gente bacana, sarada (ui)! Peça ajuda, de boa, para chegar até a areia. Dá um pouquinho de trabalho nos casos de “malacabados” que são pesados em arrobas, como eu, surpreso, mas o prazer vale a pena!

 

 

Também, deixem o recado nos hotéis, nas pousadas ou nas quebradas que vocês ficarem: é preciso ter uma opção de acessibilidade na praia. Aqui em São Paulo, preciso admitir que aumentou consideravelmente o número de opções de quartos especiais para os “matrixianos”, mas, ainda não basta. Quero poder colocar minhas rodas é na areia!

Escrito por Jairo Marques às 00h01

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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