Jairo Marques

Assim como você

 

A festa (parte final)

* Este post será mais bem compreendido após a leitura da primeira parte da saga, no texto anterior

 

Com um galo na cabeça e meio tonto (mais do que eu já sou Tonto), entrei na boate onde rolaria o rega bofe... juro, tava cheio, cheio de bombeiros paramentados dispostos a ajudar os ‘malacabados’.... me senti no meio de uma guerra. Um monte de abatidos e as equipes de resgate espalhadas por todo canto pra acudir...

  

O dono do bumba em que levei o capote, não sabia o que fazer para me agradar e pra tentar consertar a meleca. “Deixa que eu te empurro, deixa que eu te levo, deixa que eu te abano, deixa que eu respiro por você...” Muito triste

 

'Evidentementchi' que eu enchi o saco e falei pro cabra me deixar era em paz !!! Ai eu fiquei solto na balada, solto e desorientado, mais desorientado que bêbado atravessando avenida.... Rindo a toa. Não conhecia ninguém, não sabia onde ficar, não recebi nenhuma orientação do que ia rolar, de fato.

 

Como eu tenho uns dois ou três leitores espalhados pelo Brasil, foi a minha salvação! “Você num é o Jairo do blog? Ahhhh, mas eu te leio todo dia! Você num ta me reconhecendo? Te mandei um email...”

 

Aí eu achei legal, né?! Apesar de não conseguir reconhecer ninguém só pelas palavras de um email... Rindo a toa Resolvi, então, relaxar, tomar umas pingas e esperar a hora da janta, uma vez que eu não havia almoçado (o restaurante fechou e não teve acordo. Como Brasília é um deserto, não havia nada ao redor do hotel pra eu comprar e encher o bucho)...

 

O local tava bombando de cadeirante, de cegos, de muletantes, de políticos, de funcionários públicos e de aspones (gente que não faz nada, mas mama nas tetas do governo).

 

Enfim, ia começar a cerimônia! Aêêêê ... mas eu continuava perdido, mais perdido (me perdoe Juju, Marcelo, Thiagão e outros prejudicados dos ‘zóio’) que cego em tiroteio! Muito triste...

 

 

Formaram no palco a mesa de honra para o evento. Os bons da boca, os caras que mandam prender e mandam soltar... Muito feliz. Afora uma tiazinha torta, que era 'subalgumacoisa', o resto do povo era tudo andante, certinho, engomadinho, passadinho.

 

Foi naquele momento que eu conheci a presidente do Conade (Conselho Nacional da Pessoa com Deficiência), a ‘dotora’ Denise Granja...

 

Olha, “zimininos”, não conheço o trabalho da moça (essa de roupinha preta coladinha, à esquerda, na fota abaixo), mas, pelo discurso dela e tão somente pelo discurso, fiquei com a impressão que ela entende tanto da Matrix como eu entendo de críquete, de bordado, de física quântica: lhufas... Muito triste

 

 

E os discursos foram intermináveis: “Queria dizer que aqui em Brasília deficiente é gente... na minha gestão, a gente fez tudo por esse povo”... “Deficiente também quer ir pra balada, não é só hospital”... “Esse evento só foi possível graças a Luluzinha, ao Bolina, ao Zé Carioca, ao Tonho da Lua”... “Graças aos meus esforços, somados aos esforços do Incrível Hulk, nós conquistamos essa SUBsecretaria que abre espaço para mais trezentos barnabés no serviço público”.

 

Mas o grande momento, estava por vir. A dona Denise Granja me dá o tiro de misericórdia: “Como o ministro Paulo Vanuchi (Direitos Humanos) está com pressa porque tem outros eventos (só para lembrá-los, era DIA INTERNACIONAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA), todas as pessoas que vieram para assinar a adesão à Campanha Nacional pela Acessibilidade vão ser representadas aqui pelo diretor-executivo do Banco do Brasil”.

 

 

Juro, roguei à nossa senhora da bicicletinha para me dar asas pra eu sumir, 'avuar', daquele lugar e fugir daquela papagaiada. Eu havia viajado quilômetros, à custa do dinheiro público, passado por mil perrengues, pra naaaaaada!!! Pra um tiozinho do BB me representar? Pô, mas nem mancar ele mancava!!!! Nem uma babinha no canto da boca!!! Cansado

 

“Como vou contar isso pro povo do blog? Será que eu comi manga com febre e tô delirando? É pegadinha, é pegadinha do Silvio Santos!”

 

Depois de quase duas horas daquela ‘discurseira’ xarope, que não levava nada a lugar nenhum, o ministro saiu correndo e, em um momento de lucidez, chamaram as vítimas do circo (eu entre elas) para assinar o papelinho e receber meia dúzia de palmas dos heróicos que não haviam dormido.

 

Me senti o verdadeiro ‘ridiculomen’ quando a dona Denise chamou meu nome e ficou procurando, no palco, alguém com cara de Jairo Marques. Ela não fazia a menor ideia de quem eu era...

 

Como o suporte onde estavam as folhas de assinatura era muito alto para eu conseguir dar a minha rabiscada, ela mesma tomou a atitude: “Ele assina de qualquer jeito, no colo dele mesmo!” Falaí se não é pra se sentir VIP???? E ali terminou a minha participação, sem o menor "gramur".

 

 

Como diz a tia Filinha, “difinitivamente” Muito triste, eu não sou daquele mundo e, me perdoem as pessoas que me convidaram, não me sinto representado por esse pessoal  que se locupleta em gentilezas e nos supostos feitos que garantiram aos ‘malacabados’ “mais qualidade de vida”.

 

Reconheço demais os esforços das pessoas que conquistaram direitos e ajudaram a formular leis que nos beneficiam, mas o descolamento daquele mundo para a realidade de um deficiente me pareceu abismal. E eu falei isso para o povo que me ligou pedindo desculpas pelos contratempos.

 

Sinceramente, apesar de toda a ‘pataguada’, acho que os órgãos representativos são legítimos e temos de atuar juntos, mas eles precisam urgentemente aumentar o diálogo com o seu público que tá na rua, nas internets, na lida dura do dia a dia convivendo com calçada esburacada, desrespeito, falta de oportunidade.

 

Fui embora da “balada” antes das 23h e nem escutei a galera da Portela tocar. Uma pena, porque levar aquele comboio de gente do Rio pra BSB não deve ter sido barato. Dizem que tudo acabou em samba.

 

Não sei se o pessoal da organização ficou chateado comigo, mas para coroar essa viagem “maraviwonderful”, na divulgação oficial de como rolou o evento, distribuída ontem (10/12) à imprensa, o meu nome nem apareceu. O duro é aguentar o meu chefe, que tá achando agora que eu dei o golpe pra matar trabalho, pode?! Beijo

 

Beijo nas crianças e bom final de semana!

Escrito por Jairo Marques às 00h33

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Quer um conselho?

Muita gente tá me perguntando como foi a tal viagem que fiz a Brasília na semana passada.  Como eu sou “minino bão” e viajado, vou contar o périplo. Parece que naquele dia, eu fui benzido com pena de urubu, porque vai ter azar assim lá longe... Carente

O lance que fui participar era a comemoração dos dez anos do Conselho Nacional da Pessoa com Deficiência, o Conade, e mais a criação da Subsecretaria (isso mesmo, sub) Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Dá pra acreditar nessa “honra”? Temos uma “subsecretária”? Rindo a toa Sub, como todo mundo sabe, não manda em nada, mas acha que manda quando o chefe tá de folga.  Também, vocês queriam o que, com esse monte de gente sem perna, sem braço, que manca, que não enxerga e que baba? Só uma sub, mesmo... Os negros já conquistaram um ministério, a gente, malacabado, temos uma sub...

Eu resolvi aceitar o convite porque não dá pra ficar que nem cachorro chato latindo sem parar atrás do entregador de leite, né?! Quis saber mais sobre como é o lance público e  político que trata dos interesses dos malacabados. Eu tinha de conhecer, pra poder falar mal... Muito triste

Na cerimônia, o tio assinaria o termo de adesão à campanha nacional de acessibilidade. É, porque eu acho, di certeza, que a gente precisa de umas rampinhas no mundo.... Beijo

Sai de casa bem cedo, na última quinta-feira, para pegar a marinete rumo ao centro do poder. Eis que chego no balcão e....

“Tem passagem pro senhor, não. Vai lá na outra cia pra ver se não te passaram a empresa errada.”

Toca eu, puxando a mala pelo rabo, ir atrás da passagem, que não existia. Depois de ligar pro povo de Brasília, eis que ajeitaram o meu voo pra uma hora depois.

Aproveitei e fui tomar um café preto com pão na chapa. Ai, algo bacana: uma lanchonete que tinha um monte de mesas altas, certamente porque os donos achavam que cadeirantes não comem aborrecido,  fez um espaço exclusivo para os matrixianos! Aêêê

Olha eu ai, todo formozurento, depois de ter gastado R$ 6 contos pra comer o que todo dia eu pago R$ 2, no pé sujo perto do jornal...

E a saga continua. Dessa vez, entrar no avião foi tranquilo. Até tenho achado que o espaço para acessar as poltronas está maior.... mas pode ser que a minha cadeira nova seja mais estreita, né?!

Cheguei a Brasília e fiquei que nem cachorro que caiu do caminhão de mudança: perdido. Num tinha ninguém me esperando.

“Vai ali em frente à floricultura, vai haver um ônibus te esperando”, me informou por telefone uma tia da organização do evento.

Eis que vejo... o bumba. Sacam aqueles pau ‘véio’ que leva criança das comunidades rurais pra escola? Então, era aquilo... Cansado. O problema nem era a condução ser toda lascada, o duro é que eu não tinha como entrar por causa dos degraus.

Mas nada que quase uma hora de espera não resolva...  E me mandaram uma van, toda chique, da Presidência da República. Algo do meu naipe, né, não? Rindo a toa

O tiozinho motorista, seu Manoel, me tranquiliza logo de cara: “Tem muito pouco uso isso aqui, mas com paciência eu consigo fazer esse elevador funcionar”. Poxa, com tanta dificuldade de transporte para quem é esgualepado em qualquer cidade do país e o presidente tem um carro todo acessível lá, sem uso... das duas uma, ou chama mais matrixiano para ficar perto do poder ou doa aquele museu, né, não?

Depois de uns vinte minutos, eu tava dentro da van, mas sem cinto de segurança, porque ai já era complexo demais pro seu Manoel. Naquele momento, eu tinha convicção que havia entrado numa roubada e que ninguém ali entendia nada sobre necessidades de uma pessoa com deficiência.

“Seu Jairo, quando o senhor chegar no hotel vai logo pro restaurante almoçar porque eles tão fechando”, disse a moça da organização, na trigésima ligação pra mim...

“Olha, eu não vou direto pra nenhum lugar que não seja pro banheiro. Tô precisando urinar, sabe como é? Sai de casa cedo e no avião é impossível”, respondi...

O hotel era bacana, bem do ladinho do Palácio do Alvorada onde mora o tio Lula... Seria perfeito se tivessem me dado um quarto acessível... Carente. Mas, o problema foi resolvido rapidinho...

Eu achava que o pior já havia passado, que dali para a frente, seria só alegria, glórias, confetes. Óh, céus...

Coloquei meu traje e fiquei esperando virem me buscar para o local do evento, uma boate que, dizem, é totalmente acessível. Particularmente, num achei, não...achei half mouth, meia boca, para quem não entende inglês... Convencido 

Fiquei no saguão do hotel, com os outros convidados esperando por uma hora quando uma mulher de voz estridente solta: “Os cadeirantes, por favor, se reúnam lá fora. Vai haver um ônibus acessível pra levar vocês”.

Cadeirante praquela tia era um grupo, que anda em bandos, é claro... Insatisfeito. Enquanto a gente saia, estavam chegando outros convidados no hotel, uma ala inclusiva da escola de samba Portela.  Ou seja, eles ainda iam se arrumar, a cerimônia, iria atrasar.

No ônibus, que também estava o nadador Clodoaldo e dois caras que não faziam ideia de quem eram, não havia aquele dispositivo de segurança que prende a cadeira e eu fiquei livre, leve e solto.  Será que preciso continuar? Carente

O buzão foi subir uma rampa, e, é claaaaro, que a minha cadeira virou para trás e eu me estatelei no chão. Os outros malacabados, conseguiram se seguram.... e rir de mim, oficourse.

Veio o motora me recolher do chão e perguntar se eu tava vivo. Naquele momento, se eu tinha alguma dúvida, ela havia ido embora: entrei numa fria total...

Gente, a história é cumprida e eu já to com sono... dessa vez, vou escrever à prestação. Amanhã termino essa saga! Tem muita, muita coisa pra contar. Quer um conselho? Num perca...

Escrito por Jairo Marques às 23h52

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Tem mais

A passeata deste ano teve recorde de presença de mídia. A Folha Online tava lá! Achei bacanuda a matéria que fizeram.

 

Escrito por Jairo Marques às 08h21

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O bloco na rua

O resultado da Passeata do Superação no sábado, não poderia ser outro: emoção, conquista, sorrisos, um momento pra ficar pra sempre na cabeça da gente e, é claro, música!

 

E que “maraviwonderful” foi ver meus leitores todos lá, de “brusinha” branca, empunhando o humilde projeto de dominação do mundo pelo centro de São Paulo. Para todos, muuuito obrigado!

 

Sorte

 

 

 

Aminha alegria atravessou o mar

 

 

E ancorou na passarela


Fez um desembarque fascinante

No maior show da terra


Será que eu serei o dono dessa festa

 

Um rei no meio de uma gente tão modesta


Eu vim descendo a serra


Cheio de euforia para desfilar


O mundo inteiro espera


Hoje é dia do riso chorar


Levei o meu samba pra mãe de santo rezar

 

 

Contra o mau-olhado eu carrego meu patuá

 

Eu levei ! Acredito


Acredito ser o mais valente, nessa luta do rochedo com o mar


E com o ar! É hoje o dia da alegria

E a tristeza, nem pode pensar em chegar

Diga espelho meu! Se há na avenida alguém mais feliz que eu

Diga espelho meu! Se há na avenida alguém mais feliz que eu

* Música "É Hoje", de Didi e Maestrinho. Fotos de Lak Lobato

Escrito por Jairo Marques às 08h42

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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