Jairo Marques

Assim como você

 

Carta para Luciana

Querida Luciana,

 

O seu grito de desespero, solto na última segunda-feira à noite, depois que o médico te disse que você pode ficar “tetrona”, ta ecoando no meu ouvindo até agora. Aquele gosto de desespero que você demonstrou, se alastrou pela noite de milhares de pessoas que te viram ali, diante da crua “realidade” de saber que poderá “nunca mais andar”.

 

Eu não te conheço pessoalmente, moça, mas resolvi te escrever porque, desse assunto de não poder caminhar, eu entendo um bocadinho. Assim como entendo de dramas, de revoltas temporárias, de reabilitação, de sentimentos controversos que envolvem ser visto como diferente no mundo.

 

O que tenho pra te dizer, neste momento de profunda angústia da busca dos “porquês”, é para você ter certeza, certeza mesmo, que “viver a vida” tem significados além dos clássicos que você está habituada e, sem dúvida, o seu primeiro grande desafio será aprender a “reviver a vida”.

 

Da minha cadeira de rodas, eu apanho das calçadas esburacadas, mas consigo sempre ficar à altura ideal para sentir o aroma das flores dos jardins. Por muitas vezes você terá de enfrentar olhares de piedade, de “ôh dó”, mas será uma delícia quando você perceber que, para as pessoas que te amam, que te querem bem, o seu “cavalo” será invisível.

 

Da cadeira de rodas, eu dou “colinho” para minha namorada que dança pra mim nas baladas e arranco suspiros dos outros que ficam pensando “o amor é tão lindo”. Eu faço das pequenas viagens grandes desafios, eu reinvento maneiras de fazer tudo o que os outros fazem e, com isso, roubo a cena com os perplexos e incrédulos que sempre dizem: “mas não é possível!”

 

As respostas que você procura, agora, eu lamento muito: elas não existem dentro de um contexto lógico da existência humana. Já escutei de tudo. “Você foi um instrumento para mostrar a força que temos”, “Você está pagando dívidas do passado”, “Você é uma lição para os preguiçosos”. Nada adianta, mas tudo, pode apostar, vai te fortalecer e fazer uma pessoa melhor, se você quiser, dia após dia.

 

Torço muito para que você se recupere da melhor forma possível (e tenho certeza que será assim!) e que você some esforços conosco, que somos milhares, para a construção de um mundo que seja melhor para todos, que entenda e permita as diferenças.

 

Claro que seus perrengues serão imensos, que suas dores poderão ser reativadas na menor fuga da concentração, mas, tenha fé, vai passar. Vai passar e você será uma nova pessoa, um pouquinho “estropiada”, com um “ligeiro” desequilíbrio, porém, com uma gana de aproveitar sua “nova existência” que será incrível, incontrolável, fascinante!

 

Do lado de cá, de um mundo paralelo onde nos enfiaram à medida que conceitos errados, discriminação e falta de estrutura básica para atuar na sociedade foram sendo criados, tem um monte de gente, gente mesmo, querendo te mostrar que sua vida não teve fim com um acidente que te levou o poder de controlar os movimentos. Sua vida teve apenas um solavanco para, quem sabe, te elevar e te ensinar ainda mais o que é ser humano!

 

 

Escrito por Jairo Marques às 16h20

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Calçadas sem fama

Estão fazendo uma obra aqui no centro de São Paulo (ou seja, obrando Rindo a toa) que vai ter o nome de “Calçada da Fama”, na boa, meu povo, mais uma breguice sem fim para essa cidade. 

 

O lance é que a dona de vários bares conseguiu autorização, inclusive com aprovação de lei, para reformar os passeios em frente aos botecos dela no estilo de “Róliude”, nos EUA. Vão homenagear artistas consagrados escrevendo o nome deles no chão.

 

Uma calçada novinha, lisa, padronizada, mais ampla, é sempre um tropicão a menos para um cego, um enrosco a menos para as rodinhas de um cadeirante, uma preocupação a menos para a mãe que conduz o carrinho do bebê, um salto a mais no armário das meninas... Carente

 

Tente andar "nisso" numa cadeira de rodas. Saca a inclinação

 

 

Resta saber se os mortais e os “matrixianos” poderão transitar pela calçada toda chique sem problemas... Eu, pelo menos, que apareci nas novela tudo, sou famoso, vou ser vip lá, né, não? Muito tristeMuito triste.... E também resta saber se, depois do local pronto, não vão encher de mesas para impedir a nossa passagem e faturam com o espaço público.

 

Contudo, o que me indigna mais nessa história da “Calçada da Fama” é saber que a prefeitura, os vereadores se empenharam ao ponto de se indispor com um monte de comerciantes locais que acham que a obra vai atrapalhar tudo na região.

 

 

Ora é pedra portuguesa, ora é lajota, ora é pedra solta mesmo

 

 

 

E eu me pergunto: E as outras calçadas dessa cidade, num tem lei, num tem fama, só tem drama? Por que fazer um lance absolutamente promocional no centro se o que a gente precisa são passarelas dignas em toda a cidade? É ou não é de colocar a tanga do Tarsan e ficar gritando “cadê a Chiiiita!!!!! surpreso

 

Já não bastasse esse “calundum”, fiquei sabendo há alguns dias que o secretário Marcos Belizário, da secretaria da Pessoa com Deficiência e da Mobilidade Reduzida aqui da city, quer criar a “tacha dos malacabados” para endireitar as calçadas podres que somos obrigados a “andar” aqui. Eu já meti a boca nessa ideia de jerico em uma entrevista que dei na Folha Online. Quem quiser me ver todo com o cabelo “desbagunçado”, basta clicar no bozo.. Brincalhão

 

O secretário nega que seja uma taxa, mas, sim, um valor cobrado para que a prefeitura faça algo que ninguém faz: cuidar das calçadas. Cada contribuinte da cidade receberia, junto da cobrança do IPTU (Imposto Predial Territorial e Urbano), um acrescimozinho para que a calçada porca da casa dele fosse reformada... A medida está em estudo porque “multar não tem adiantado” e faltam fiscais para mandar brasa no bolso dos infratores... Sei... Beijo....

 

 

É uma calçada que tem um buraco ou é um buraco que tem um calçada?

 

 

 

Quando eu tava lá nos Miami (EUA), vivi uma situação super engraçada e de guardar como exemplo. Eu me preparava, junto com a minha amiga “Silvetz” Dutra, para ir gastar os dólar tudo nos “xopim”, quando ela se lembrou que precisava passar na casa dela com “urgência”. Sabem pra quê? Pra retirar o carrinho do lixo da calçada (e nem era essas latas velhas que a gente usa aqui, era um carrinho bacanudo) antes das 18h. Caso ela não fizesse aquilo em tempo, vinha a “puliça” e mandava tinta na multa....

 

Aqui no Brasil, não só pode deixar o lixo eternamente na calçada como fazer da própria calçada um lixo.  (Noooosssa, tô mais nelvoso que cachorro de japonês, né? Inocente)

 

“Zente”, para quem é “deficientchi”, uma calçada mal feita, esburacada, sem padrão, determina de forma cabal se vamos ou não sair de casa e enfrentar o “mundo lá fora”. Transitar em terreno acidentado montado numa cadeira de rodas, não é fácil, não é agradável e é ultrajante. Não sou contra que a prefeitura faça as obras necessárias e, DEPOIS, mande a conta, mas criar uma cobrança sobre a justificativa (entre outras), que os cadeirantes não param de “encher o saco” (as aspas são minhas, mesmo Carente) para consertar os passeios, eu acho over.

 

Olha que luxo esse "rasgo" de fora a fora no passeio...

 

 

Imaginem vocês o exército de insatisfeitos que se virariam contra nós... “Lá vai um malacabado infeliz que fez a gente pagar mais imposto”. Avalio que não dá pra criar uma taxa que irá fazer caixa para o poder público e sabe-se lá qual a garantia que o cidadão terá que, realmente, as obras nos passeios serão feitas.

 

Claro que do jeito que tá aqui (e no Brasil todo, “di certeza”) não dá pra ficar. Mas tenho certeza que existem saídas mais inteligentes para isso. Será que tô sendo muito radical? O que vocês acham, heim?

 

* Fotos de Thaís Naldoni, tiradas na região central de São Paulo, bem próximo de onde acontecerá a passeata do Superação, no dia 5 de dezembro. Ou seja, vamos todos pela rua, mesmo!  

Escrito por Jairo Marques às 22h21

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Geringonça da alegria

Não dá pra negar que boa parte do povo da Matrix tem algumas limitações para conseguir fazer tudo o que tá naquele livrinho famoooso que ensina os pessoais a se divertir com seus parceiros ou parceiras sexuais, né, não?

 

Tem cadeirante que consegue fazer mais movimentos, inclusive nos quadris (ui) e tem alguns que são mais parados do que “zóio” de santo. Muito triste Claro que, como eu já escrevi diversas vezes aqui, se vai e vem fosse tão importante na vida gangorra num era de graça nos parquinhos.... Rindo a toa

 

Dá pra ter uma vida sexual muito bacanuda e prazerosa independentemente do tipo de ginga que você tenha nos “quartos”. Isso eu tenho certeza (tô me achando... Legal)

 

Contudo, a tecnologia tem trabalhado para dar aquela “hand” e todo mundo poder ficar no desfrute também com mais agilidade física, digamos assim!

 

Inventores lá dos “Estadusunidos” criaram um equipamento que permite a um tetrão, por exemplo, conseguir bagunçar com sua parceira de formas inéditas! Aêêêê ... Para mim, que sou paraplégico, o trem também permite umas diversões sem "deformar e sem soltar as tiras". Beijo

 

Mais do que para o próprio deficiente, esse equipamento pode levar um prazer diferente para a parceira. Repito: se posição ganhasse jogo, time de futebol só jogava com centroavante... Carente, mas um movimento novo, pode ser interessantchi numa relação!

 

Bem, mas o vídeo abaixo explica direitinho o que faz e como faz a geringonça da alegria que, pelo que sei, ainda não tem representante de vendas no Brasil. O negócio é encomendar com os colegas que vão viajar pros exterior!

 

Recomendo que pessoas mais sensíveis, mais conservadores, mais pudicas (ui) não vejam a apresentação que segue abaixo, mais uma contribuição excelente da minha querida amiga Silvetz Dutra.   

Escrito por Jairo Marques às 23h04

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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