Jairo Marques

Assim como você

 

Uma sereia

Fazia tempo que eu não publicava um post focando em algo que dá um baita ibope: mulher “matrixiana” bonita Língua de fora... Então, hoje eu caprichei e escolhi logo uma sereia para fechar a semana. Como todas da “espécie”, tenho certeza que ela irá encantar, hipnotizar e fazer vocês olharem bem fundo nos próprios mares.

 

A personagem de hoje é a carismática nutricionista e nadadora mineira de Três Marias Letícia Ferreira, 27, que acaba de se classificar para o campeonato mundial de natação em piscina curta, que será realizado em novembro e dezembro, no Rio. Agora que somos um país "Paraolímpico" (Aêêêê), nada mais justo do que eu abrir mais espaço para essa negada que garimpa o nosso ouro, que rala para defender o país e que também "se encontra" na prática desportiva!

 

Bem, mas “campeões” temos aos montes nesse mundo paralelo, não é mesmo? Contudo, a trajetória dessa moça de sorriso inebriante vai fisgá-los pela emoção, pelo bom humor e pela intensidade.  

 

 

Esta deusa das águas subverteu a lógica da realidade que foi imposta a ela após ficar paraplégica num acidente de carro, aos dez anos: abandono e perdas familiares, falta de acesso para tudo na vida, complicações diversas na saúde, dificuldade de aceitação de si mesma, vida louca, louca vida.

 

 

 

Em 2000, ela mudou-se do interior para Uberlândia, no Triângulo Mineiro, onde foi experimentar morar sozinha, foi experimentar grandes paixões. Em 2005, é provido o encontro de Letícia com as águas. A sereia ganhou o mundo e o mundo a ganhou. Não posso contar mais nada. Aconselho os mais sensíveis a pegar aquela guardanapo que sobrou do pão na chapa da manhã Muito triste e deixar bem próximo para conter o aguaceiro.

 

Respirem fundo, e naveguem comigo, junto com essa sereia, num mar de emoções, conquistas e marés rumo a realizações e vitórias.

Sorte

Escrito por Jairo Marques às 00h34

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Blog - Como é que você, de sereia das Minas Gerais, desembocou nos mares do mundo?!

Letícia - Primeiro acho interessante esclarecer que eu era uma pessoa totalmente avessa a regras. Nunca gostei de ter que cumprir horário e ter que me disciplinar para que pudesse obter resultados. Quando entrei para a natação, o intuito inicial era me cuidar, cuidar da minha saúde após um tratamento para me recuperar de uma trombose na perna esquerda, mas acabei descobrindo que ali estava uma grande oportunidade de me tornar uma pessoa melhor, conviver num ambiente e com pessoas muito distintas das quais eu convivia

  

 

 

Comecei nadando alguns dias na semana até o técnico achar que eu já tinha ritmo para treinar com o resto da turma. Eu ainda não tinha parado pra pensar se queria isso ou não, só deixei as coisas acontecerem. Treinei durante três meses até ser levada para a primeira competição, em São Caetano do Sul (SP), em maio de 2006. Lá conquistei uma medalha de bronze e uma de prata, o que me fez querer e acreditar que se eu treinasse mais, poderia conquistar muito mais.

E foi o que aconteceu!  Com um ano de treino, eu fui convocada para os jogos parapanamericanos, no Rio de Janeiro em 2007, em 2008 voltei à Seleção Brasileira para participar de competições na Europa e agora, em 2009, a convocação para o primeiro Mundial de natação em piscina curta, que será realizado também no Rio de Janeiro, no complexo aquático Maria Lenk. Ah...sou a única atleta de Minas Gerais na lista dos convocados!

  

 

 

 Blog - O Rio será a sede paraolímpica, em 2016. Para os atletas de ponta, qual o impacto disso? Avalia que haverá incentivo para que esse povo "malacabado" mexer mais as cadeiras, as bengalas, as próteses, as muletas...?

Letícia - Te digo que desde já, coisas boas visando 2016 estão acontecendo!  Menos de uma semana depois do anúncio da cidade sede dos jogos eu recebi a notícia do interesse da ORTOBRAS, empresa fabricante de cadeiras de rodas e equipamentos para acessibilidade, em me patrocinar já pensando nos resultados que posso obter até lá. Estou super feliz e confiante de que sendo a primeira atleta a ser patrocinada pela empresa, estou abrindo portas para outros atletas; além disso, poder contar com um patrocínio anual me deixa tranquila em saber que posso me dedicar com maior exclusividade aos treinos, sem a preocupação se vai ser possível ou não o custeio de viagens, suplementação alimentar, material para treinamento e competição, etc. Quando uma empresa deste porte e com a credibilidade que tem mostra que acredita no meu trabalho, a sensação é de que vale a pena todo o esforço dia após dia.

 

 

  

Além de nós, atletas em atividade, sermos beneficiados pela mídia, acredito que muitos “malacabados” que não sabem o que fazer da vida (como era o meu caso) vão se interessar pelo esporte adaptado e, também, os profissionais da área de educação física vão se atentar para o potencial enorme que têm as pessoas com algum tipo de deficiência. 

 

 Muitas vezes, até entrar em contato com o esporte de alto rendimento, uma pessoa não tem noção da força (física e psicológica) que guarda dentro de si. 

 

 Blog -  Se para um atleta "certinho" conseguir arrumar uns "reaus" para conseguir competir já é uma peleja, é de se esperar que para os meios tortinhos a labuta seja ainda maior. É assim mesmo? Esporte paraolímpico é bacana, mas falta grana? Como você sevira.com.br?

Letícia - É de se esperar sim. Isso se deve ao fato de que o espaço disponível em mídias para o esporte paraolímpico é muito restrito, algo compreensível quando se pensa no investimento feito por federações (como a de futebol, por exemplo) para que os jogos sejam transmitidos em horários nobres da TV. Mas como prefiro sempre ver o lado bom das coisas, percebo que, desde que entrei para este mundo 'paraolímpico' a divulgação das modalidades cresceu substancialmente principalmente após o Parapanamericano e ainda mais após as Paraolimpíadas de Pequim com nossos recordistas mundiais em várias modalidades. 

  

 

 

 

Mas acredito que muito disso tem que partir de nós mesmos, divulgando nossos resultados onde for possível (inclusive no blog do JAIRO), convidando amigos para assistirem as competições, incentivando a iniciação esportiva entre jovens e até mesmo entre adultos visto que no esporte paraolímpico não existe uma regra ou limite de idade para um atleta apresentar bons resultados; o ponto determinante é a dedicação aos treinos e saber avaliar, com a ajuda de um profissional, em que modalidade você poderá render mais

 

Blog - Sereia também se afoga de vez em quando?

Letícia - A sereia aqui já se afogou algumas vezes dentro e fora d' água, em lágrimas inclusive... Rindo a toa. O fato mais marcante na minha vida foi quando, aos dez anos de idade, após um acidente de carro eu me vi num hospital, rodeada por pessoas da família, recebendo a notícia de que minha mãe e minha irmã de 15 anos haviam morrido no acidente e que meu pai estava mal na UTI; além disso, que eu não conseguia me virar na cama pra dormir de barriga para baixo porque eu havia perdido o movimento das pernas, que por isso eu me sentia tão pesada.

 

Pra piorar um pouco mais, alguns dias depois, meu pai não conseguiu resistir aos ferimentos e também se foi. Eu só conseguia pensar que não havia nada de pior pra acontecer, que não dava pra piorar aquela situação. Mas eu estava enganada, pois pior que perder meus pais e entrar pra Matrix, foi perder a referência familiar, não ser aceita naquela condição pelo meu irmão mais velho que tinha vergonha de mim por eu estar na cadeira de rodas. Mas enfim, como diz Almir Sater: “ hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe/ só levo a certeza de que muito pouco eu sei/ eu nada sei”.

 

 

Blog -  Além de ser uma nadadora reconhecida, você chama muito atenção pela sua beleza e sensualidade. Cada vez mais, me parece que a mulher cadeirante está rompendo aquele estigma de que a deficiencia leva, além dos movimentos, a feminilidade, não é?

Letícia - Concordo com você, estamos rompendo sim com aquela imagem da cadeirante que se escondia, jogava um lençol nas pernas e ficava na porta da casa vendo a vida passar sem se dar conta de que o mundo espera por nós.  

 

 

 

 

 

A geração de mulheres com algum tipo de deficiência que hoje ‘beira’ os 30 anos tem valorizado mais suas formas porque  aceitam melhor a mudança que a deficiência causa no seu corpo e, com isso, ousam no seu modo de vestir e abusam de seus predicados femininos (modéstia à parte, acho que faço isso muito bem!!! Convencido)...

 

 

Acredito que precisamos mesmo mostrar que mulher é mulher independente de como se locomove, se falta ou sobra um pedaço, se enxerga ou não, etc.  A vaidade é algo que me acompanha desde criança e isso para mim se tornou uma arma importante para, inclusive, obter espaço na mídia e conseguir assim divulgar o meu trabalho e resultados na natação. Temos que tirar proveito do que temos de bom, saber usar a beleza é algo importante e que pode nos render bons frutos.

 

 

 

Blog - A única coisa que tenho sido campeão ultimamente é de partidas do videogame Wii. O que é ser uma campeã? Ser a melhor? Vencer quando todas as águas te empurram de volta para a margem?

Letícia - Para mim, ‘ser a melhor’ está muito relacionado a minha evolução como ser humano. Eu tento sempre ser O MELHOR que posso, luto constantemente para aceitar que posso e devo ser melhor comigo, com meus amigos e com as pessoas com as quais me relaciono. Ser uma campeã é superar as limitações que impomos a nós mesmos, é deixar a preguiça de lado e ir trabalhar ou treinar (como é o meu caso) todos os dias enfrentando cada pensamento de que hoje não é um bom dia porque está frio, porque está chovendo ou porque o sol está muito forte, a água está muito fria...

 

Bom final de semana, beijo nas crianças e até amanhã para dois ou três de vocês, lá na baladinha!  

 

* Imagens de arquivo pessoal e de Kica de Castro

Escrito por Jairo Marques às 00h32

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Pezinho de anjo

Se tem uma piadinha sem graça e que me deixa “nelvoso” é uma assim: “Ah, o bom de estar nessa sua situação (de malacabado, oficorsi) é que seu sapato num gasta, né?”
 
Eu respondo o que pra um ‘serumano’ sem assunto desses? “É... se ocê quiser emprestado um dia pra não passar vergonha com esse mulambo que você usa, tamo ai”.
 
Mas tá certo, admito que nossos sapatinhos demoooram pra acabar. Mas eles se sujam, ficam encardidos porque esbarram nas rodas, porque a gente arrasta de vez em quando no chão, enfim...
 

O lance mais “complicoso”, contudo, nem é a pergunta infame, mas sim o fato de achar sapato pra esse povo dos cambitos finos. “Uai, tio, mais causo de quê? Vocês só usam sapatilhas de cristal?” Insatisfeito.
 
O problema, meu povo, é que cadeirantes em geral, sobretudo aqueles que se lascaram logo na infância, que nem eu Piscadela, tem o pezinho de anjo, mesmo sendo já marmanjo.. num é um luxo? Um guti guti? Inocente
 
O meu pé, “perexempi”, é do tamanho 33, 34. Quem pensou “pé de moça tá ferrado comigo na saída” Nervoso. A minha “tioria”  de botequim é que, como a gente não pressiona a sola no chão, o desenvolvimento fica prejudicado. O pé num atarraxa (eu não sei o que quis dizer com isso Carente).
 
Mesmo os “pessoais” que entraram para a matrix mais tarde, noto que os pés têm uma leve retração de tamanho (isso pode ser bobagem, mas é uma impressão que tenho).
 

Bem, ai  vai a gente nas lojas tudo tentar comprar um coturno para usar com as calças pula-brejo, comprar um tênis pra ir no baile ou mesmo uma sandália pra ir à missa:
 
“Moça, eu queria aquele tênis ali, que tem os próprio leopardo bordado em vermelho (marca chique porque se eu foi pobre algum dia eu não lembro Convencido)”
 
Depois de me olhar com aquela má vontaaaade danada, a vendedora, que fica escorada na vitrine para não cair de preguiça, dispara: “O senhor usa que número, no caso?” “Ah, mas aqui a numeração desse tênis começa no 38..... num serve um chinelo?”
 
Pô, chinelo, “zente”? Imaginem eu nas reuniões aqui do jornal com aqueles chinelinhos de vô, cor de burro quando foge?!  É de chorar pelado. Sapato social, então, pode esquecer. Homens com compromissos executivos, necessariamente, são tudo pezudos, tudo usuário de sapatão! Muito triste

Quando eu era mais jovem (na década de 60, por ai, Embaraçado) nem ligava e entrava menos nas lojas de sapatos pra criança mas, depois de véio, é de lascar a goiabeira fazer isso. Contudo, não tem muita solução não, e tenho de optar pelas “tico tico”, “lambe lambe” “pezinho de açúcar” da vida.

As fábricas de sapato do Brasil, que tão tudo em crise porque a China manda bala na sapatada Bobo, alegam que a demanda é muito pequena para números menores e, por isso, the life is hard (para quem não é manja, o vulgo “a vida é dura”).
 
Para as meninas, a situação é tão ou mais complicada do que a dos meninos. Sabem aquelas sandálias que a mulherada usa pra dizer: “Te piso e te faço meu tapete” Tonto, então, dificilmente existem números pequenos. As anãs e as mulheres cadeirantes, então, tem de usar o quê? Saco plástico de supermercado?

 


Eu gosto do meu pezinho de anjo Apaixonado e queria poder comprar os sapatos que mais acho bonito para ornamentá-lo. Será que tô errado? Tá certo que vira e mexe, quando a gente se transfere da cadeira para o carro, para a cama (ui) ou seja lá pra onde for, é quase regra o calçado se enganchar e ficar pelo caminho... mas tá valendo! Rindo a toa
 
Ah, sim, só pra fechar essa história de sapato, lembro a vocês que, nos casos de pessoas que não possuem sensibilidade sensorial nas pernas, é muito comum os pés ficarem inchaaaaados porque o “esgualepado” esquece dele ali pendurado. Quando você, infiltrado, vir essa situação, pode dar um aviso, de boa!

* Imagens retiradas do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 00h00

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Pra quem vem lá de longe

Meu povo, as própria organização do nosso sarandeio de sábado... Para tudo, vão me dizer que não sabem o que é “sarandiar”? Saca rela-bucho? Furdúncio? Quizumba? Dançar um vanerão? Nadinha disso?... aff... povo antigo, credo ... Muito triste... A balada, "zente", a balada do blog que vai rolar no sábado!!!! (Mais detalhes, clica no bozo Brincalhão ) Então, me informaram que já tem gente confirmada suficiente para lotar uma van e ainda vamos precisar de um ‘fuca’ bege pra rebocar o resto dos cachorros, das bengalas, das muletas, dos cavalos... 

 

Pra mim, isso é motivo de muita alegria, de muita satisfação por saber que meu humilde e fácil projeto de dominar o mundo Carente tem conquistado lá seus dois ou três adeptos. E o mais “doido” pra mim, é saber que vem um pessoal lááááá de longe, que já tá preparando as “malmita” tudo pra aguentar tantas léguas de viagem dentro de uma marinete, um jegue ou mesmo de um desses ônibus que “avuam”. Rindo a toa Penso demais nas razões de tanta demonstração de carinho, de aceitação de uma ideia, de abraçar um espírito tão inusitado como o que eu imponho aqui no blog (de porco Muito triste).

 

Nunca chego a nenhuma conclusão... Pra me ajudar, então, hoje eu publico a carta da Adriana Moraes, uma das leitoras que travo longos debates intelectuais por trás de alguns posts... Ela, “zimininos”, vai vir lá do Goiás (sim, o Rogério também!!!!) pra prestigiar a festa programada pelo povo das “comunidadchi” dos Orkut. Confesso que meu “zóio de véio” sensível (ui) num aguentaram a pressão das palavras da Dri... Emoção demais, pensamentos demais.  Ainda dá tempo de avisar a Bibi, pelo email arquiteta_bia@yahoo.com.br , que você também quer ir na “Fuzarca” Rindo a toa ... Boa leitura!  

Sorte

 

Há mais de um ano frequento o Assim como Você. Não por acaso, desde então minha vida muda um pouquinho a cada dia. Cheguei aqui  fisgada por uma chamada inocente do UOL. Nunca mais fui embora. Mil vezes me perguntei sobre o porquê desse vínculo.  A mesma pergunta eu ouvi dos filhos, do meu marido e dos amigos com os quais divido minhas alegrias e descobertas. Dificuldade nunca tive para responder. Motivos nunca me faltaram, mas vejo que eles se multiplicam, conforme o tempo passa e a vida acontece.

Sim! Tenho uma relação direta com o tema central do blog! Casada há 20 anos com o pai da Isadora, que tem paralisia cerebral, a questão da deficiência nunca me foi indiferente.  Pelo contrário. Mas os motivos do meu apego não se resumem a isso:

1º Aqui eu aprendo: Aprendo não só sobre o universo da Matrix. Aprendo a beleza e o mistério da diversidade humana. Observo a sabedoria dos que sabem ouvir, me maravilho com o exercício diário e cotidiano daqueles que não se permitem a acomodação, descubro a força dos afetos, o poder da superação, os enigmas e os encantos do mundo virtual.

2º Aqui eu me divirto: Quem é que nunca rolou de rir, logo de manhã, ainda na madrugada ou bem cedinho, com as travessuras, as molecagens, o jeito manso e debochado do Jairo? Quem é que numa segunda-feira cinzenta, num dia de azedume não desanuviou o espírito com o humor, com a irreverência e com a crítica aguçada do nosso malacabado mais ilustre? 

 

3º Aqui eu desabafo: Inúmeras vezes me angustio quando vejo a malacaba daqui de casa sendo ignorada ou ameaçada em seus direitos. Nessas ocasiões, aqui busco e encontro abrigo. Aqui declaro minha indignação e sinto que meu desabafo, diferentemente de outros ambientes, ecoa. Um eco muitas vezes silencioso, mas reconfortante. Aqui vejo que minha família não está só.

4º Aqui eu partilho experiências: No blog nunca senti que estivesse falando sozinha, como já senti tantas outras vezes ao tratar do tema da deficiência. Não por falta de interesse dos meus interlocutores, mas o fato é que alguns diálogos, para acontecerem de verdade, exigem vivência mútua. Nunca me esqueço do dia em que, quase numa brincadeira, sugeri que a exemplo de outros posts, o Jairo fizesse um dedicado para quem não quisesse “pagar mico com um PC”. Qual não foi minha surpresa ao ver que ele topou. A Denise Crispim abraçou a idéia, e sem nunca termos nos visto, dividimos nossas angústias, partilhamos experiências e numa parceria inusitada, ainda que de lugares diferentes e distantes, soubemos falar a mesma língua.

5º Aqui eu perdi parte dos meus medos: Estou aprendendo a enfrentar meus medos.  O de me mostrar e de me aproximar das pessoas. Ensaiei muito para deixar o primeiro comentário. Com a receptividade do Jairo - que sempre reserva pelo menos uma piscadinha matreira para cada um de seus leitores – isso se transformou num hábito diário. Depois, fui me permitindo visitar outras “casas”, cujos endereços encontrei aqui.  Vou assiduamente à varanda da Sinhá e ao cafofo do Negão, visito a Lak, já estive em São José dos Campos com a Marly e o Fábio Cassiano, ando lendo a Thais Naldoni no Portal da Imprensa, passeando no blog da Gisele e me deliciando com seus comentários que, invariavelmente, envolvem uma bunda seca ou a frieira de um pé. Tem coisa mais gostosa?

Já pensei em visitar a Denise e a Sofia em São Paulo e, apesar disso não ter acontecido, ainda não perdi a esperança.  Com o Rogério, o encontro das famílias já está agendado e em breve vai rolar. Estou até pensando em contratá-lo como empresário do meu filho. Afinal, o “Assim...” também é um portal de negócios. Muito triste  O talento da Tabata, a beleza do Leandro Kdeira, as camisetas do Evandro, a delicadeza da Glória, os projetos de acessibilidade da Bia, o trio Dulce e suas princesas, a gentileza da Naty,  o trabalho inovador da Kica de Castro e do Leonardo Feder, enfim, esse povo todo já faz parte da minha história.

Infelizmente, o tempo é curto e alguma timidez ainda persiste. Do contrário, já teria ido atrás da Maysa, da Elisabete, da Su, do Amaury, do Thiago, da minha xará que é mãe do João Lucas, da Paulinha Pavan e de tantos outros que, silente, acompanho quase todos os dias.  Mas dia 24 de outubro está chegando. Tem encontro marcado e a galera está se organizando lá no orkut (até nessa maluquice estou me aventurando, só pra ficar mais perto dessa turma!). Seguindo o exemplo de outra leitora do blog, pedi meu alvará de soltura e ele já foi concedido.  Vou me aventurar na cidade grande. Dessa vez eu estarei lá! 

Enfim, eu poderia passar horas listando os motivos da minha paixão pelo “Assim como você”. Se um dia essa paixão foi pelo Jairo – Não! Não me entendam mal, nem fiquem com ciúmes, afinal até o meu “diretor já assimilou esse fato - hoje declaro o meu “amor” por todos os leitores do blog.  Não que eu seja santa ou leviana que ama a todos indistintamente. É que mesmo os “nádios” da vida têm algo a me dizer: eles reforçam minha certeza de que há muito por fazer, dentro e fora de mim. É aqui que eu encontro o caminho.

Escrito por Jairo Marques às 22h16

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Devotees

“Zente”, talvez o post de hoje seja o mais polêmico já divulgado neste blog. Ele tem potencial de provocar e também causar uma “reivinha” em certas pessoas, ligeiramente mais conservadoras. Acontece que o tema faz parte dos assuntos desse universo paralelo em que vivem os “matrixianos”, então, tem de aparecer!

 

Há tempos tenho tentado fazer um texto sobre os devotees, os “pessoais” que sentem atração (uiiia) pelo povo “malacabado”. Eles, em geral, são muito, muito hostilizados socialmente. Particularmente, repito, particularmente, sou contra isso. A grande crítica que já li sobre os devotees é que eles fazem os “malacabos” se apaixonarem por eles, mas, só querem mesmo sexo e sentem os “tezão tudo” apenas pelo lance físico (gostam de cambitos finos, a falta de uma perna, de um braço surpreso).

 

Também já vi manifestações de um certo “horror” pelo fato de haver pessoas que se atraem por alguém numa cadeira de rodas, como se fosse um pecado, algo feio. Penso, com tranqüilidade, que o ser humano pode ter seus fetiches numa boa, desde que não prejudique ninguém. Não estamos falando de um pedófilo que, ai sim, tem um distúrbio, fomenta uma anomalia. Estamos falando de alguém que sente atração por um determinado aspecto físico.

 

 

O deficiente, claro, pode ser mais fragilizado emocionalmente (conseqüência da exclusão social) e pode se entregar a alguém com intenções apenas sexuais, tudo bem, isso é fato. Mas daí a achar que o devotee é um mostro, eu não concordo, não. Como diz minha mãe, quando um não quer, dois não brigam... Rindo a toa Qualquer pessoa pode ser seduzida por um bonitão, uma bonitona, com objetivo apenas de “fazer coisinha”, independentemente da condição física, então, porque com os mamulengos tem de ser diferente? 

 

Não me lembro ou nunca percebi que alguma devotee jogou seu charme sobre mim, que sou um “minino bão e inocente” Inocente, mas, desde que não faça algo que me agrida, que respeite se eu não tiver afim, ta valendo. Bem, o Leonardo Feder fez um trabalho jornalístico brilhante para o “Assim como Você” revelando muita coisa sensacional sobre os devotees. Vale a pena a leitura e, lá em baixo, o coments com sua opinião sobre o assunto!!! 

 

Sorte

 

Kronos, 50, lembra que, desde os seis anos, interessava-se, sem conotação sexual, por pessoas com deficiência. “Eu as incorporava em minhas brincadeiras. Sempre havia uma princesa cadeirante para salvar...” Aos dez anos, ao se apaixonar por uma “defi”, apanhou dos pais. “Diziam: ‘O que você quer com essa moça?, ela não pode casar!’”. Depois, teve sua primeira experiência sexual com uma professora com deficiência.

 

Fernanda Visintin, 25, acha que tinha preconceito quando via um homem com deficiência. “Talvez por medo de não ser um homem que pudesse me satisfazer. Dizia: ‘Que rapaz lindo... pena que é deficiente’”. Mas, aos 22 anos, mudou-se para Vitória (ES), passou a trabalhar em uma instituição filantrópica e ter contato com as dificuldades e discriminação que as pessoas “especiais” enfrentam. Mudou sua visão. Até que... “Através da Internet, conheci um rapaz paraplégico por quem me apaixonei perdidamente, e, através dele, conheci o termo ‘devotee’. Então me descobri uma... Ele não aceitou, tampouco entendeu esse meu sentimento, e terminou o namoro comigo” Carente.

 

Fernanda diz que sua atração por homens com deficiência é tanto sexual quanto espiritual: “Pois são pessoas de uma força tremenda, que, mesmo entre tantas dificuldades, não se deixam abalar, e estão sempre em busca da superação”. Por um rapaz tetraplégico que conheceu em Americana (SP), fez, segundo ela, sua maior loucura de amor: saiu de Vitória e mudou-se para a cidade paulista. Mas o caso não foi para frente.

 

Kronos conta que, uma vez, ficou admirando uma mulher, que percebeu e comentou à amiga, mas esta não acreditou: “Imagine! Você, na cadeira de rodas, ele nem vê”. A mulher aproximou-se e pediu um cigarro; ele, que nunca fumara, ofereceu um drops . Saíram por um tempo, mas perderam o contato, e ele se casou com uma mulher sem deficiência. Anos depois, separado, reencontrou a antiga paixão e passaram a sair toda semana.

 

"Recebi muita agressão e hostilidade, afinal, deixara uma andante para me unir a uma cadeirante”. Tiveram três filhos e ficaram juntos por dezoito anos, mas se separaram. “Meus familiares até brincam com o fato de eu ser devoto [termo em português para devotee], apostam se estarei com uma cadeirante. Os amigos de meus filhos também sabem; no inicio, ficam perturbados. Ele afirma ser o primeiro brasileiro a se assumir publicamente devotee na Internet, onde publicou um manifesto em 1997. Era chamado por algumas pessoas com deficiência de “doente, pervertido, anormal”.

 

“Muitas ‘defis’ não aceitam a idéia de que possamos ter atração por ela toda, inclusive com as sequelas da deficiência. Outras adoram os jogos e brincadeiras, mas até a relação acabar, aí voltamos a ser psicopatas.” “Às vezes nos comparam a aproveitadores, mas é fruto de preconceito, pois os ‘defis’ têm discernimento para optar por fazer sexo”. Segundo ele, foi demitido do trabalho quando uma mulher com deficiência de um antigo caso seu, “que dizia odiar devotos”, ligou para seu chefe e disse que ele a perseguia. Desde então, adota o apelido Kronos.

 

Fernanda diz que também foi discriminada por homens com deficiência que “não se conformam que alguém se atraia por eles”, caso de seu primeiro namorado, que terminou com ela. “Ele disse: ‘não quero que gostem de mim por minha deficiência, mas pela pessoa que sou’”. Ao contar à mãe que namorava um homem cadeirante, ouviu: “Filha, pelo amor de Deus, não mexe com isso, não, você vai carregar uma cruz pelo resto da vida!”. Ela, então, contou das superações dele, das atividades que exercia, como se portava diante da vida, e a mãe virou fã doo rapaz.

 

Jacqueline Huber, 28, tricampeã brasileira de natação, descobriu o devoteísmo aos 20 anos em sala de bate-papo em que iam pessoas com deficiência. Tem o membro inferior esquerdo amputado, após um acidente de moto aos 16, e parou de nadar devido a uma lesão no joelho. “Conversei com um homem que confessou ser devotee. Minha primeira reação foi dar muita risada e pensar: meu Deus!!! Que mundo louco! Mas resolvi conhecer melhor o assunto”.  Ela decidiu encontrá-lo. “Ele é muito bonito, inteligente, simpático, e me senti atraída por ele”. Começaram a namorar, mas não deu certo. Acha indiferente que o homem que esteja conhecendo diga de antemão que é devotee. “O que importa é o que sinto por ele”.

 

 

 

A SBRASH (Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana) classifica o devoteísmo como um fetiche não-patológico. O devotee é chamado de pretender, quando finge ser deficiente e utiliza equipamentos como cadeira de rodas, muletas, bengalas ou órteses. Ou de wannabe, quando deseja tornar-se deficiente e chega a se mutilar. A antropóloga Alison Kafer (2000) reitera: “Se classificamos os devotees como ‘doentes’, o que estamos dizendo a respeito da ‘desejabilidade’ de mulheres deficientes?  É patológico achar atraente uma?” Assim, constata que há uma construção cultural das mulheres com deficiência como assexuadas e sem atrativos – o que as impele a disfarçar e a se envergonhar de sua condição -, mas os devotees, parecendo ignorar os ideais dominantes de beleza, valoriza-as e aumenta-lhes a auto-estima.

 

A jornalista Lia Crespo (2000) explica que o devoteísmo ficou mais visível quando veio a internet, mas, segundo artigo de Richard L. Bruno, doutor do Instituto de Pós-pólio do hospital de Englewood, de Nova Jersey (EUA), está documentado na literatura médica desde 1800. Ela percebeu que, geralmente, a descoberta do devoteísmo pelas pessoas com deficiência é seguida por cinco fases:

 

“Primeiro, a incredulidade: ‘Não é possível. Isto não existe’. Depois, vem o medo do desconhecido: ‘O que é isso? O que significa? Deve ser perigoso’. Em seguida, a perplexidade: ‘Então é isto o que me resta? Todas as pessoas que já se interessaram ou vão se interessar por mim foram ou são devotees?’ Posteriormente, é a vez da raiva: ‘Como eles se atrevem a sentir tesão por uma condição que, em algum momento da vida das pessoas deficientes, representou, representa ou representará perda, dano, dor, sofrimento, discriminação, exclusão?’ Por fim, advém a fase da aceitação/ fascinação: ‘Isto existe. É inusitado e muito interessante! Preciso saber mais’”.

Escrito por Jairo Marques às 00h00

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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