Jairo Marques

Assim como você

 

Boa sorte, Lak...

Uma das minhas leitoras mais cativas é surda. Até muito pouco tempo, segundo ela mesma admite, não se considerava membro deste mundo paralelo onde vivem os “matrixianos”, esse povo que não vê, que não anda, que é pequeno demais, enfim, aqueles que os mortais batizam deficientes.

 

Contudo, quando a Lak teve um estalo e percebeu que, sim, ela era ligeiramente diferente da “massa” e, sim, o universo ao seu redor era duro com sua peculiaridade sensorial, a moça de beleza ímpar e simpatia extrema, iniciou uma pequena revolução “silenciosa”, criando um dos mais importantes e modernos espaços de discussão sobre a surdez no Brasil, o “Desculpe, não ouvi”!.

 

Em poucos dias, porém, a Lak (Lakshmi), tem uma chance concreta e grande de.... deixar a “Matrix”... Uma cirurgia revolucionária que tem tido sucesso em várias partes do mundo pode devolver a quase plenitude do som à alma e ao coração dessa “coisa mais querida”.

 

 

 

É a própria Lak quem explica a vocês e conta mais sobre esse momento tão importante da vida dela e de todos que, como eu, aderiram à causa daqueles cujo som do violino ressoa apenas na imaginação....

 

Agora, é aquele momento em que eu peço para vocês “taparem o ouvido, o escutador de novela Rindo a toa”, pedirem silêncio aos meninos e se permitirem sentir a emoção, se deliciarem com esse incrível relato. Boa sorte, Lak. Torcemos por você!

 

Sorte 

 

Gostaria de escrever uma história bonita, tipo conto de fadas, mas soaria algo meio neocibernetico  e não sei se existe literatura desse tipo. Assim: perdi a audição, dormindo, aos dez anos. Parece romantização de drama, mas não é. Literalmente, fui dormir ouvindo e a minha audição permaneceu assim, adormecida feito a Bela, desde então.

 

No primeiro ano, meus pais queriam uma resposta. Fomos em dezoito especialistas e, na época, nenhum conseguia dar uma explicação satisfatória - e será que existe algo que satisfaça os pais, para explicar que cortaram as asas de um filho? - apenas um deles disse que havia visto um caso similar e em consequência da caxumba, que eu havia tido alguns dias antes. Ok, essa foi a resposta que eles precisavam, mas confesso que, para mim, não fazia a menor diferença, porque a vida continua e a minha tinha que continuar.

 

Os anos foram passando e a esperança de ouvir bem de novo um dia, ia diminuindo. Não porque eu não desejasse mais, mas porque, como diz um texto de Marina Colasanti, ‘A gente se acostuma! Mas não devia.’ Ainda que, durante muitos anos, sempre que eu fazia aniversário, quando assoprava as velas do bolo, pedia: ‘Quero a minha audição de volta.’

 

E tudo bem, a vida seguiu tranquila, porque a deficiência era uma limitação física, mas não pessoal. Estudei e terminei os estudos num colégio tradicional. Fiz faculdade de publicidade e me formei. Aprendi francês, inglês e espanhol. Namorei (muito), noivei, casei. Batalhei para conseguir um bom emprego e mantê-lo. 

 

 

 

Há cerca de uma década, começaram a falar de uma cirurgia que, mesmo que não reparasse totalmente a minha audição, poderia trazer de volta vários sons que a prótese tradicional não alcança. Procurei meu médico, hoje já falecido, que me disse com toda a candura do mundo:

 

“Lakshmi, espera mais um pouco, que essa tecnologia ainda vai evoluir. Você já vive tão bem, já é um exemplo de conquistas, esperar não vai te prejudicar em nada.”

 

O tempo passou, fui conhecendo pessoas que eram implantadas - sim, o termo é esse, porque a cirurgia se chama Implante Coclear - e via os ganhos que essas pessoas tinham. Muitas delas, nascidas surdas. Outras tantas, que perderam a audição cedo. E ainda aquelas que perderam a audição depois de crescidas. Cada uma com seus ganhos, suas conquistas e, certamente, nenhuma delas parecia decepcionada com o resultado obtido, fosse qual fosse.

 

Finalmente, criei coragem de procurar a Fundação de Otorrinolaringologia da USP e começar o processo para o meu retorno ao som. Demorou muito mais do que se imagina, mas não por culpa de dificuldade do maravilhoso trabalho deles, mas porque algo ainda me incomodava e eu quis esperar o momento  certo para poder fazer.

 

O maior dos meus empecilhos era justamente me enxergar como alguém com deficiência, porque veja bem, a minha vida é boa e completa. E sempre que eu considerava fazer a cirurgia, aparecia algo importante, que desviava minha atenção e eu acabava priorizando.

 

Há cerca de um ano, a vida resolveu me pregar uma peça. Eu tinha acabado de entrar na agência que trabalho agora (sou arte finalista) e ainda não tinham me passado grandes trabalhos, portanto eu tinha tempo de sobra pra navegar na internet. Um dia, abri o portal da Folha de S. Paulo e vi um link pro blog “Assim Como Você”.

 

Comecei a ler e fui me tornando cada vez mais íntima do universo da Matrix. E, sem perceber, isso foi me colocando cada vez mais em contato com a minha deficiência, que eu habitualmente deixava meio de lado.

 

Um dia, o Jairo me pediu umas dicas de como falar com um deficiente auditivo. E, por causa disso, tempos depois, criei meu blog "Desculpe, não ouvi!" para falar um pouco mais do meu universo. Compartilhar as dores, as conquistas, dar e receber conselhos cada vez mais me aproximava daquilo que eu queria, mas não me dava conta.

 

No meio disso tudo, encontrei uma amiga, surda desde os 18 meses, implantada há cerca de 5 anos e vi-a falando ao celular. E, naquele instante, meu coração deu um pulo e eu pensei: Nossa, eu quero!

 

Mas como é importante manter os pés no chão, é importante lembrar que o IC não é a cura, ele apenas corrige parte do problema. Trata-se de uma cirurgia, de um aparelho formado por duas partes. Uma interna, há um receptor de referência, de onde sai um feixe de eletrodos que é colocado no interior da coclea (que estimulará eletricamente o nervo auditivo, que  envia os sinais para o encéfalo, onde decodifica e interpreta os sons)  e a parte externa, chamada processador da fala, que possui um microfone, um microprocessador e um transmissor.

 

 

Eu jamais deixarei de ser uma matrixiana, porque quem depende de uma prótese para ouvir jamais seria um ouvinte comum... Os prognósticos são bom, mas os próprios médicos avisam: cada caso é um caso e nenhum resultado é garantido.

 

Quanto a mim, ainda na expectativa da cirurgia, vivo a melhor fase: Aquela de acreditar que todos os sonhos são possíveis. Listo mentalmente todos os sons que gostaria de ouvir. A maioria, são coisas que conheci um dia, nos tempos da inocência da infância, a voz da minha mãe, do meu pai, da minha irmã, as músicas que enchiam os ambientes, naquela época, o barulho da chuva, do mar. Outros, são totais desconhecidos que entrarão na minha vida só agora: a voz do meu marido, do meu irmão, de vários amigos...

 

 

E, como não poderia deixar de ser, cito uma frase que conheço graças ao Rogério - leitor aqui do blog e companheiro de jornada virtual: “E quando tudo mais faltasse, um segredo:  o de buscar no interior si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída.” (Mahatma Gandhi)

 

* Imagens de arquivo pessoal de Lak Lobato

Escrito por Jairo Marques às 08h12

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Menino vaidoso

“Zente”, eu tô com uma pança de Genival Lacerda que só Nossa Senhora da Bicicletinha para dar jeito. Carente

 

Sabe quando você veste uma camisa e ela fica coladinha no corpo, igual aquelas de modelos que querem valorizar o silicone? Abismado Então, mas em mim num valoriza nada, não, muito pelo contrário, cria um déficit na minha belezura... Beijo

 

Mas, agora me diz, já repararam nos “muquifos” que são algumas academias? Geralmente, ficam na sobreloja de algum prédio caindo aos pedaços (ai eles botam os alunos pra reformar fingindo que é malhação Rindo a toa), cheio de escada.

 

 

Aqui em Sampa há uma rede de academia “granfina” que “disque” tudo é acessível. Já fui lá me matricular, mas ai eu fiz as contas e vi que teria de vender o meu almoço pra comprar a janta caso todo mês tivesse de pagar aquela mensalidade... Muito triste

 

Geralmente, um lugar bem acessível é bem caro também. É de chorar pelado, né, não?! Pô, a gente num quer só fazer fisioterapia, não (com todo o respeito e relevância da atividade, “oficorsi”). A gente quer poder malhar. Queimar as calorias, eliminar a pança!

 

E cadeirante eu vou te contar, viu, meu povo, atrai gordura pro bucho... A gente tende a ter um bração sarado (ui, delícia Convencido), mas o tronco, se a gente não cuida, vira um tronco de jatobá. Já viram pé de jatobá? É o ó do borogodó de grande...

 

É muito interessante como, algumas vezes, ninguém nem tá ai pra pelota da vaidade dos “malacabados”.

 

“Ah, ele num anda, mesmo, pra que cuidar dos dentes, dos ‘shape’, das cabeleiras do Zezé? O que importa é que ele tá com saúde... ”. Ai, me leva, gzuis...

 

Quando eu estava no hospital Sarah, dando aquele tapa na minha funilaria que ficou toda torta após a pólio me dar uma destruidinha básica, minha mãe ousou pedir um retoque a mais pro médico.

 

“Oh seu doutor. Já que o senhor tá endireitando tudo ele, poderia, por favor, corrigir esse pé torto desse menino?” (tenho o pé direito mais torto que placa de estrada Rindo a toa)

 

O médico respondeu na lapa da minha santa. “Pra que a senhora quer mexer com estética? Pra que essas vaidades? O que importa é corrigir a postura dele, arrumar a lataria mais prejudicada!”

 

Graças àquele doutor (que reconheço a excelência do trabalho, sem dúvida), hoje eu tenho a maior dificuldade pra comprar sapato... mas isso é outra história....

 

 

Fato é que a gente tem o direito de ser vaidoso, sim. E quer entrar nas academia pra ver as meninas levantando peso (uuuuia!).

 

Sem falar que o espaço de uma academia não serve apenas para paquerar as saradas Inocente,  serve para ampliar as relações sociais, para manter a saúde, para ter condicionamento físico.

 

Vamos lançar a campanha: “Abaixo as panças dos matrixianos. Malhação para todos!!!” Muito triste 

 

 

* Imagens retiradas do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 08h11

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Mais um encontro!

Acho que foi numa coluna do colega Clóvis Rossi, aqui da Folha, que li uma opinião dizendo que blogs, em geral, costumam ter “poder limitado” uma vez que agregam públicos que tendem a pensar de forma semelhante ao autor dos textos, logo chegariam a um limite de novos “aliados”.

 

Mais do que isso, o artigo falava que a mobilização desses diários tendia a ser pequena, pois ficaria todo mundo falando, falando, falando e agindo pouco.

 

Não sei se discordo disso totalmente, contudo, aqui neste cafofo bagunçado surpreso, sinto que há uma intensa movimentação em torno da causa da “dominação do mundo” por parte desse povo que não anda, que não vê, que não ouve...

 

Digo isso porque por trás de cada post, percebo que há sempre uma boa discussão, uma ampliação do debate por meio dos orkut, de outros blogs. Percebo que se formou uma rede paralela de amigos, de gente doida, de gente que quer se mobilizar para agir!

 

E mais: tem um povo que adooora uma balada e já está programou o segundo encontro do “Assim Como Você”!!! Aêêêêê

 

Fico impressionado que, mesmo eu não fazendo parte dos Orkut, porque sou muito tímido pra essas coisas de rede de relacionamento Rindo a toa, tem comunidades lá que falam sobre mim e sobre o trabalho do blog e, “disque” bombam!!! Convencido

  

A mais famosa delas, pelo que sei, é a da Talitinha Godoy. Quem quiser visitar, clica no bozo!!! E lá o pessoal já programou tudo pra a segunda festa do blog. A primeira teve mais sucesso do que vendedor de guarda-chuva em dia de tempestade... Brincalhão

 

O rala bucho Muito triste vai ser no dia 24 de outubro, e quem quiser ir, please, confirme mandando um email para a queridíssima Bianca, a Bibi: arquiteta_bia@yahoo.com.br .  É que os “pessoais” precisam saber quantos doidos vamos juntar lá no boteco!

 

 

Os detalhes seguem abaixo! Até crachá, desta vez (bate o "zóio" ai em cima), deve ter! Ficando velho E ai? Bora se juntar, “zimininos”?

 

Onde que é, tio? No Best Burger, que fica dentro do Shopping Paulista, pertinho da estação Brigadeiro do Metrô

 

E quando que é? No dia 24 de outubro, sabadão!  

 

E que horas que é? A partir das 17h (eu durmo cedo Rindo a toa)

 

E que mais? Ai é com o Bibi e com o pessoal da “comunidadchi”!

 

Escrito por Jairo Marques às 08h30

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Um DJ "malacabado"?

"Zimininos", começo a semana com uma história lá dos "estrangeiros", mas que ecoa em todo o mundo. A dica veio do meu leitor super atento no que rola na Matrix, o João Paulo Aço!

O cabra em questão é o francês radicado na Espanha chamado Pascal Kleiman. Ele é atualmente um dos DJs mais famosos da Europa, tocando para milhares de pessoas que sacodem os esqueletos ao som que o nosso personagem faz com.... os pés!surpreso

O vídeo é um pouquinho longo, mas, acho que já tenho créditos com vocês e, mais uma vez, podem apostar, vale a pena ver e conhecer a história do caboclo... Convencido

As legendas foram feitas pela tradutora oficial e "carregadeira" de piano deste blog, a Silvia Dutra! Espero que gostem.

 

 

Escrito por Jairo Marques às 23h00

Comentários () | Enviar por e-mail | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
Twitter Twitter RSS

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha.com. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha.com.