Jairo Marques

Assim como você

 

O folião

“No Carnaval, a chuuuuva não cai, não cai do céu... a gente joga confete e cai chuva de papel.” Esportista

 

Adoro essa marchinha. Num conhece? Quem entoa são os bonecos do Cocoricó.  É boa demais.

 

Eu já gastei muito a borracha do pneu do meu cavalo em bailes carnavalesco. Participei por muitos anos de um bloco, lá nas “Treslagoa”, que se chamava “Tamoatôa”.

 

Um amigo que atendia pelo nome de “Vicentão” ia me buscar em casa com uma pick up "véia" para ir pro salão.

 

O detalhe é que ele já vinha de um “esquenta” e, na época, não havia nada de lei seca e todo mundo era bem molhado nos dias de festa ou melhor, era “mangaçado". Muito triste

 

E o Vicentão jogava minha cadeira na caçamba do carro e saia pela rua fazendo zig ziga ao ritmo de:

 

 

“Ala laô ô ô ô ... mas que calô  ô ô ô. Atravessei o deserto do Saara, o sol estava quente que queimou a nossa cara”

 

 

 

 

 

Tudo muito divertido, não fosse o fato de a cadeira ir sambando também lá atrás da capota e a gente ter de parar vez ou outra para recolher os pedaços dela que ia se soltando pelo caminho. Rindo a toa

 

 Até hoje eu me pego pensando que coragem que me dava para me enroscar naquela muvuca de encarar um salão lotado com gente bêbada te cercando por todos os lados.

 

Uma das explicações que encontro é que o ritmo me fascinava. Gostava da vibração das marchinhas, gostava de jogar confete, gostava de me sentir folião.

 

E também porque fazer parte do bloco era me sentir incluindo como um jovenzinho. Sentia que aquilo dava gosto à vida.

 

O duro é que naquela época, nos tempos das cavernas Muito feliz, um cadeirante num baile de carnaval era algo exótico demais, ainda mais numa cidade pequena.

 

Parte da minha curtição sempre virava chateação porque os “infiltrados” adoram “agitar” com a gente.  Podem reparar.

 

Querem sair empurrando a cadeira desembestadamente, dar rodopios, nos “integrar” ao baile... na marra!!!. Isso quanto não te tratam como um imbecil completo, né?

 

“Toma uma cervejinha. É Carnaval, agora você pode, né!”

 

“Zente”, deixa o “malacabado” curtir à maneira dele a folia.

 

 

 

 

Podem apostar, a gente fica feliz ali do ladinho, vislumbrando a festa, vislumbrando as meninas com pouca roupa Convencido, curtindo a música, agitando os dedinhos!

 

Se o cadeirante tiver vontade de participar dos trenzinhos ou mesmo das rodas de agito, que seja algo que parta dele. Não forcem a amizade, fechô?

 

Claro que você pode convidar, pode pedir para dar uma “voltinha” pelo salão, mas num insista e nem faça algo forçado, nego!

 

Como Carnaval sempre tem muita gente, quando inventamos de circular a cadeira sai batendo em canela pra todo lado.

 

E ai cai de tudo por cima: é tiozão louco de pinga na cabeça, é mulher louca sem nada na cabeça, é menino alegre... Muito triste 

 

Em clubes, de forma geral, por terem estruturas antigas, a acessibilidade passa longe. Então não estranhe se ver um “mamulengo” dando aquela urinaaada pelos cantos. Carente

 

E tem doido pra tudo. Uma “conhecida” minha, digamos que um pouco mais que conhecida Com vergonha, já encarou a folia em Salvador montada na cadeirinha de rodas dela.

 

Se ela ficou no camarote? Se ela subiu no trio-elétrico? Que naaaaada, meu povo. Ele foi é no meio da multidão. E ela jura que não há tumulto.. ou quase.

 

Quem for encarar o desafio neste ano, manda foto pro blog que o tio publica. Na folia de rua, também não saia empurrando o cadeirante sem ele te pedir.

 

A gente “garra um ódio” que vocês não fazem idéia! Rindo a toa Mas é legal se você puder ajudar a ir abrindo caminho pra mode a gente desfilar, sambar!

 

 

 

 

A Prefeitura de Salvador garantiu que neste ano as condições de acessibilidade vão ser boas para os matrixianos. Tomara que sejam mesmo.

 

Sei também que haverá muita gente “malacaba” nos desfiles das grandes escolas do Rio e São Paulo.

 

Tive uma informação, que não consegui confirmar, infelizmente, que uma das maiores agremiações aqui de São Paulo deve trazer uma ultra surpresa, um “fatalit” para a nossa conquista do mundo.

 

É esperar e ver.. pra crer.

 

Por fim, digo que todo mundo, independentemente de sua condição física, tem vontade de curtir a vida, tem o direito de se divertir e de rasgar a fantasia! Bem humorado

 

Bom Carnaval pra todo mundo e beijo nas crianças!

Escrito por Jairo Marques às 12h15

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Vou me atrasar muito hoje! Mas eu venho... talvez bem tardão, tá bão?!  Riso

 

Escrito por Jairo Marques às 08h06

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O hotel da Glória

Falai, meu povo, esse título ficou bonito demais da conta, né, não? Muito feliz

 

A dica de hoje é para quem não vai rasgar a fantasia (êlaia Muito triste) nos salões, na avenida, ou pelas ruas, mesmo.

 

A Gloria Prado de Negreiros,, certamente uma leitora top ten (tô gastando o inglês) do blog, foi com o maridão “mamulengo” e a molecada deles passar uns dias em um hotel fazenda aqui no interior de São Paulo.

 

Povo, quando eu ouço “fazenda” me dá até “arrepi” porque já vejo as minhas rodas empacando na areia.

 

Porém, para a minha surpresa, Glorinha disse que o passeio deles foi... “maraviwonderful”! Aêêê

 

Pensem comigo, já dominamos parte da praia, já dominamos parte da cidade e agora já estamos nas “própria” “comunidadchi” rural! Ahhhhh, seguuuura essa gente!

 

O pico se chama “Campo dos Sonhos” (sugestivo, né?) e fica no município de Socorro, pertinho aqui da capital.

 

“Jairo, foi um sonho mesmo. Pois, afinal, estamos tão acostumados a pesadelos, Tonto...

 

Banheiros com portas estreitas, muitas escadas, lugares sem acesso, funcionários com má vontade...mas lá foi tudo diferente”, me contou a Glorinha.

 

Dá até vontade de tomar banho num banheirão desses...

 

Para os infiltrados na Matrix de quem tem alguma deficiência, eu explico de novo isso.

 

Toda viagem de lazer que esse povo “estropiado” faz é tensa. A gente nunca sabe ao certo o que nos aguarda. Por isso, a gente sempre se prepara para encarar a bucha! Insatisfeito

 

Bem, mas o caso do “hotel da Gloria” foi bem diferente e, por isso, ele tá aqui!

 

Quando ela me contou que ia, eu pensei comigo mesmo: “Deuzulivre... o coitado do Adjair (o “homi” dela emotion) vai passar mais aperto do que pé de pobre em sapato novo.” Muito triste

 

Contudo, o mundo está realmente mudando e o passeio deles foi inesquecível.

 

“A área do hotel é enorme, com muitas ladeiras, tudo espalhado. Mas eles pensaram em tudo.

 

Nos emprestaram uma cadeira de rodas elétrica e um triciclo, acredita? O banheiro do chalé era bem acessível, melhor que o daqui de casa. Rindo a toa ”

 

Olha o tiozinho dando uma mãozinha pro Adjair

 

E o mais legal, meu povo, o Adjair não deixou de fazer nada que qualquer hóspede do local tinha direito.

 

Isso inclui andar de charrete, andar de trator, fazer tirolesa (isso eu não encaro, não, porque minha idade não permite Carente)

 

Há também por lá placas com informações em Braille e pisto com revelo para orientação dos matrixianos cegos!

 

Só por "gzuis" que eu "dipindurava" nisso ai

 

 

Êh, mundão "véi" sem porteira!

 

Igual à pousada que fui lá no litoral, a Glorinha destacou, acima de qualquer condições estrutural do local, que as pessoas tem prazer em atender, que são prestativas, que estão dispostas a incluir.

 

Sim, “zimininos”, não é baratinho, não. Também não é uma fortuna. Sacam meia margaritha, meia calabresa? Então.. Convencido

 

Eu nesse balanço ia me acabar. Até virar o "zóio"

 

A piscina tem degrauzinho "procê" relaxar, nego!

 

Fica a opção para quem quiser amarrar o burro na sombra durante o Carna. Gostei demais. Tô querendo ir.... será que os cavalos num vão estranhar meu pangaré? Tonto 

 

Quem quiser saber mais sobre o hotel fazenda, é só clicar no bozo! Brincalhão

 

* Fotos do arquivo pessoal de Gloria Ferrari

Escrito por Jairo Marques às 08h04

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Essa minha vida de “rico”

 - Essa ai tá de sete. O modelo básico, né?!...

 - Sete cruzeiro?

 

- Não, não, sete mil dinheiros.

 

Meu povo, esse é o preço que uma vendedora me informou quando fui ver uma cadeira de rodas nova numa loja famosa aqui de São Paulo.

 

É isso mesmo, sete mil contos. Abismado

 

Acho que poucos “infiltrados” (bora popularizar o termo) na Matrix de quem tem alguma deficiência física sabem, mas ser malacabado, além de dar um trabaaaaalho danado, é caro, caro pra chuchu.

 

Uma cadeira de rodas nacional mediana custa no mínimo R$ 2.000. Parece piada, mas num é, não.

 

E os cavalos, gente, não são todos iguais.

 

Uma cadeira boa, “diferençada”, tem de ser feita sob medida para evitar dores nas costas, para promover boa postura, para que o esforço de impulsão para tocá-la seja pequeno.

 

Vender produto pra esse povo sem perna, sem braço, cadeirante, muletante é o caminho mais fácil pra ficar rico, mais fácil do que o show do milhão do Sílvio Santos. Rindo a toa

 

 

Digo isso porque uma loja daqui de São Paulo, que até pouquíssimo tempo funcionava numa casinha “véia”, agora tem uma sede nova que parece shopping.

 

Se ela dá muito emprego pra malacado? Bem, sempre que vou lá, só vejo uma .... invariavelmente mal-humorada (alguém tem soro antiofídico ai? Muito triste).

 

O dono de uma das poucas fábricas brasileiras de cadeira também tá muito rico, assim, que nem eu... Com vergonha

 

Claro, mérito deles, não é? Ofereceram serviços de forma razoável e se deram bem... e azaro... azaro... meu, que fico mais pobre a cada vez que tenho de dar um tapa no meu veículo...

 

E por que é tão caro? Primeiro porque a concorrência no Brasil é muito pequena.

 

Se não tem disputa, ganha mesmo aqueles empresários mais pimpões, né, não?

 

E, com conhecimento de causa, digo que é tudo “marromenos” e o tratamento que nos dão é quase abaixo da crítica (gzuis, será que dormi com a cueca apertada? Convencido)

 

Segundo, porque tudo que a gente precisa comprar incide imposto normalmente. Aqui se livram as pessoas de pagar parte do imposto pro governo pra comprar carro, mas lascam a  facada em quem precisa de algo básico para ir e vir, como uma cadeira de roda.

 

 

Ahhhh, sim, “deficientchi” tem isenção de IPI e ICMS (nomes de impostos) pra comprar carro. Beleza, é verdade, mas eu ainda conto a peleja que é pra conseguir isso e quanto que custa para, depois, adaptar os veículos.

 

A gente até pode declarar os gastos com material ortopédico ou clínico no Imposto de Renda, mas boa parte dos brasileiros nem renda tem, quanto mais faz declaração.

 

Esse cavalo de sete mil contos que falo no início do texto é importado. Importou, nego? Então manda bala em pagar mais e mais impostos.

 

A mesma cadeira, comprada nos “Estadusunidos” custaria menos da metade do preço. É isso mesmo, menos da metade.

 

Sabem quando pode custar uma almofada pra aliviar um pouco a bunda do risco de contrair um pereba ?

 

Algo em torno de mil e quinhentos “renais”. Falai, meu povo, pra ter uma bunda básica, nem é a bunda da mulher “malancia”, Carente a gente tem de pagar e pagar caro.

 

 

Nessa mesma loja, onde o meu blog ninguém lê  Nervoso (tô mona raivosa hoje, eu sei), fui fazer um troca de pneus. Manutenção básica.

 

- Olha, o par tá saindo por R$ 268.

 

“Zimininos”, num tô brincando, não. É isso mesmo. Arrancam o nosso couro na cara dura. Eu vou fazer o quê? Tenho de comprar, ué.

 

E muitos dos matrixianos tem gastos com sonda, com material de esterilização das “partes”, com enfermeiros “pra mode” ajudar a mandar o rango pro bucho. Muito triste

 

A gente gasta mais com transporte porque nem sempre (ou seria quase nunca?) tem ônibus acessível para as rotas que precisamos ir e, assim, temos de pagar táxi, que podem dar aquela exploradinha básica, como já contei.

 

Certa vez aqui na Folha fizeram algo que me surpreendeu muito.

 

Descobriram que eu ia trocar de cadeira (isso a gente tem de fazer de uns três em três anos, porque a bicha se acaba toda) e, na “miúda”, passaram uma lista e arrecadaram grana que deu pra pagar boa parte do meu novo veículo...

 

Aquilo me emocionou demais não pelo dinheiro, mas pelo espírito que fizeram a ação: justiça. Se eu preciso de algo a mais para ser igual a todo mundo, é legítimo que eu seja ajudado para isso.

 

Eu até ganho um salário mínimo Convencido e sou um “minino rico”, né? Mas, e quem não ganha? Faz o que, gente? Chora? Chama a polícia? Espera ganhar na megassena?

 

Talvez alguém se lembre daquelas cadeiras que os políticos costumam distribuir em bairros pobres durantes as eleições.

 

“Aquelas são baratinhas, tio”.

 

São, mas não valem nada. São cadeiras para transporte imediato, para uso restrito, não para uso contínuo.

 

E o que a gente pode fazer para tentar mudar isso?

 

Pode cobrar dos nossos dirigentes que concedam liberação de impostos já na origem da compra e isentar a importação de produtos ortopédicos ou afins.

 

Pode estimular a concorrência procurando diversificar os lugares de compra (essa é difícil, eu sei).

 

Pode tentar sensibilizar os colegas de trabalho, de escola, de faculdade a dar aquele help para gente poder ter um cavalo decente e ter condições iguais de estudar, de concorrer, de ser cidadão.

 

Por que não? Parece algo meio humilhante? Parece. Mas vocês já conhecem o meu modo de ver a vida.

 

Ser da matrix necessariamente envolve ter de usar óleo de peroba na cara. É isso ou aceitar viver isolado num mundo paralelo...

 

* Imagens do Google Imagens

Escrito por Jairo Marques às 08h32

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Sugestões

"Zente", meu final de semana foi meio nervoso Rindo a toa. Tô só o pó da goiabeira e não consegui blogar.

Queria, então, que esse post ficasse como espaço para vocês darem sugestões de idéias de abordagens, críticas, pagamento de promessas. Muito triste

Nada de ficar escrevendo que o tio é preguiçoso, que tão até com dor de cabeça porque não hoje tem história, que isso, que aquilo. Carente

 

Escrito por Jairo Marques às 08h04

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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