Jairo Marques

Assim como você

 

O que você faria?

Oi, povo! Já bateu aquela “xodadis” do tio, né? Eu devo ter engordado umas 15 arrobas apenas nesses primeiros dias de férias.   A partir de agora, como tô mais velho, vou escrever textos mais maduros (ui que mentira ).

 

Bem, ainda não vou voltar a postar todos os dias, conforme a gente já deixou claro no contrato ali mais para baixo, né, não?  Mas o caso de hoje é tão absurdo e eu divido com vocês, porque eu continuo sendo aquele “minino bão”.

 

Recebi uma mensagem, faz dez dias, da leitora Raquel Sanchez Navarro, de Campinas, cidade onde o “Assim como Você” já dominou tuuuudo.  

 

Fui lendo a mensagem dela e fui sentido aquele “sangue no zóio”, aquela angústia de quando a injustiça e o desrespeito batem na nossa porta ou melhor: na nossa cadeira de rodas, na nossa muleta, na nossa prótese.

 

Apesar desse meu tom bozo , o email é super sério e coloca uma questão que eu gostaria de debater e saber a opinião de vocês nos coments.

 

Leiam, entendam, e mais embaixo eu converso mais.

 

 

Jairo,

 

Na última sexta-feira (24/10),  fui levar  minhas filhas e sobrinhas ao cinema, assistir ao lançamento do “High School Musical 3”..Tenho a Thais, de 18 anos (que tem paralisia cerebral), a Isabela, de 9 anos, e a Giovana, de 7 anos.

Cheguei no cinema com duas horas de antecedência para garantir tranqüilidade, para acomodar a Thais, mas como a sala só é liberada 10 minutos antes da sessão, ficamos esperando...eu,minhas duas irmãs, minhas filhas e mais duas sobrinhas...

 

O rapaz do cinema conversou comigo e disse que antes de abrir para a galera, iríamos entrar com a Thais, acomodá-la e só ai ele liberaria para os demais.

 

Para a minha total surpresa e indignação, quando ele nos avisou que poderíamos entrar, parecia que tinham aberto as porteiras para um bando de animais....as pessoas saíram correndo, atropelando a Thais....uma loucura!

 

Mas nessas horas eu encontro uma força que não sei de onde tiro, e adicionalmente, esqueço a todas as regras de etiqueta e educação que meus pais ensinaram...joguei a cadeira da Thais em cima de uma turma (devem ter se lembrado da Thais por alguns dias, porque tenho certeza que algumas canelas saíram roxas de lá...a cadeira dela tem os pés de ferro!!!), e minhas irmãs seguram com os braços as pessoas...

 

Falei tudo o que veio na minha mente naquele momento...e as pessoas, ficaram ali paradas, assustadas com aquele comportamento...acho que ninguém espera este tipo de reação! Bom, assistimos ao filme e na saída, já cansada e morrendo de vontade de chegar em casa, advinha??

Meu carro, que estava estacionado na vaga para deficientes físicos, estava com um outro carro "colado" ao meu, impossibilitando que eu colocasse a Thais! (sabe aquelas faixas amarelas que os mais desavisados pensam que somos espaçosos e gostamos de ocupar duas vagas? pois é...bem la estava o carro do infeliz!!)

 

Chamei a segurança que disse que iriam travar as rodas, mas quando viram que eu estava esperando (para garantir que este infeliz iria aprender a respeitar as vagas), desistiram...era só uma tentativa de livrarem-se de mim...coitados!!!

Liguei para a policia, que recomendou que ligasse para um órgão da prefeitura, que recomendou que ligasse para a policia que finalmente disse que não poderia fazer nada porque é um lugar privado!! Essa pra mim é  nova!! Em lugares privados a legislação não se aplica e não um infrator não pode ser punido?

Depois de muita discussão, eu e minha irmã resolvemos agir por nos mesmas....comecei a esvaziar o pneu do meu “amigo”.

 

 

 

Naquele momento, a segurança enfurecida veio falar comigo que não poderia admitir que eu fizesse aquilo...ah..nao deixei barato!! Pedi que chamassem a policia!!...e minha irmã disse que eles não  estavam vendo nada, pois não vêem o que não querem ver...

 

Não viram o infeliz estacionar e também não estariam vendo aquilo...bom, conclusão: esvaziamos os dois pneus do infeliz (um só ele poderia usar o step...), e ainda deixei um recadinho para o meu amigo:

Senhor Cidadão,
O senhor impossibilitou o transporte da minha filha, uma vez que, ao estacionar o seu carro na área reservada para deficientes, fui impossibilitada de colocá-la no meu carro...por isso, me senti no direito de impossibilitar o seu transporte também.
Ps: seus pneus estão vazios...boa sorte!!

 

 Neste momento, gostaria de ter muito dinheiro para poder publicar estas fotos nos outdoors da cidade...acredito que este cidadão, no mínimo, iria se envergonhar de sua atitude!! Mas acho que ele não vai mais arriscar acabar com seu passeio parando novamente nas vagas reservadas para deficientes, não é?

Em alguns momentos, ser da Matrix implica ter de recorrer à polícia, ao bom senso, ao respeito à diversidade, ao amor ao próximo, à lógica do convívio social para que a gente consiga nosso espaço.

 

Agora, me respondam, quando tudo falha, quando nada funciona (a “puliça” não faz nada, o responsável se isenta de tomar uma atitude diante um flagrante de desrespeito), o que é que a gente faz? Temos mesmo de agir com as próprias mãos?

 

Por diversas vezes, eu já tive de dar de ombros e pensar “ah, tudo bem, né? A vida é assim”. Mas isso não gera mudança de atitude, isso não ajuda no nosso processo de dominar o mundo.

 

Acho que a Raquel teve ótimas e corretas iniciativas. Eu acrescentaria apenas: fazer uma queixa formal na administração do shopping Iguatemi, onde acontece o barraco, procurar o Ministério Público para relatar o ocorrido e saber se há formas jurídicas de responsabilizar alguém por esse imenso constrangimento.

 

Cada dia mais, por meio do apoio firme de todos vocês, eu tenho mais e mais consciência de que ganhar adeptos é a melhor maneira de garantirmos a inclusão e de mostrar ao outro que os matrixianos podem viver de forma mais plena se houver um pouquinho mais de consciência e respeito aos limites alheios. Enfim, o que vocês fariam?

Escrito por Jairo Marques às 18h02

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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