Jairo Marques

Assim como você

 

Ser cadeirantinho é...

 

 

Ana Laura Cotrin Rebouças, 6

ter um carrinho de bonecas e bichinhos beeem maior do que o de todo mundo. E melhor, ser a própria boneca!

 

João Lucas Dutra Takaqui, 5

 

fazer uma careta bem “loka” praqueles bobos que olham pra gente é pensam “ôh dó”. Que dó que nada, a gente é feliz “ingual” qualquer criança! Para de lamentar e me dá uma “hand” para subir essa calçada aqui, vai....

 

Nyckoli  Melo, 8

não sair correndo doida quando bate o sinal do recreio. Ser mais zen, mas ser a mais queridona da professora, da diretora, da.... merendeira  

 

 

José Felipe Silva, 5

 

ser tão queridão da mamãe que ela cria um blog pra contar todas as nossas aventuras, histórias e conquistas em cima do nosso pônei (é, porque os cavalos são só pros “malacabadões” mais véios) 

 

Amanda Macedo, 12

 

sorrir ao mundo para que ele se encante e nos carregue nos braços quando preciso for. Rir para a vida que é minha chance de mostrar que ser diferente não é ser menos que ninguém (“aveiz” a gente é mais... mais espaçoso, mais “inteligentchi”) 

 

 

Luquinha

 

ser de “boa” com as nossas limitações e aprender formas diferentes de fazer o que toooodo mundo faz com um pouquinho de jeitinho e boa vontade do outro!

 

 

Ingrid Marfil, 7

 

encantar o tio “véio”, que é dono do blog, deixar ele babando, e assim ter muuuitas fotos publicadas pra todo mundo ver

 

Lipe

não ter sossego nem na hora das nossas “própria” reflexão no banheiro . Porque a gente da Matrix baby tem mãe e pai que grudam... aff... se grudam... Mas a gente adoooora!

 

Aninha

e então?? O que é ser cadeirantinho??? Diz lá nos coments?

“Pessoais”, os ensaios da Aninha, Luquinha, Nickoli e Amanda foram feitos pela brilhante fotógrafa e parceria do blog, Kica de Castro kicadecastro@gmail.com , que, como já contei aqui, tem uma agência de modelos exclusiva para gente da Matrix.

 

As fotos de Felipinho, de Recife (PE) e da Ingrid, de Campinas (SP), são do arquivo pessoal dos dois.

 

Fica ai para você curtirem no findi do Dia da Criança esse monte de rostinhos “dilícios” e cheios de infância e amor pela vida. “Bora” fazer um mundo mais acessível para eles agora e no futuro?

Escrito por Jairo Marques às 06h05

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Quatro letras que mudam a vida

“Zente”, não posso deixar de lembrar na nossa Semana da Criança da Matrix sobre a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), que faz um trabalho realmente “maraviwonderful” com os “malacabadinhos”, com os cadeirantinhos.

 

Eu mesmo, quando criança, usei da estrutura da associação aqui de São Paulo, quando era molequinho. Eles dão aquele tapa na nossa funilaria, toda trumbicada.  

 

Felizmente, a rede tem crescido, graças ao incentivo financeiro de milhares de pessoas Brasil afora. Tenho muito carinho e muito respeito por essas quatro letras: AACD que mudam a vida de quem tem alguma deficiência.

 

A minha homenagem, então, é mostrar a vocês três filminhos, bem curtinhos, mas de fazer a gente vibrar e se emocionar, que conscientizam sobre a necessidade de dar aquele apoio ao trabalho! Dois deles são da AACD do Rio Grande do Sul.

 

Criança é tuuuudo “ingual”

 

 

Pequeno gesto, grande sorriso

 

 

Para dar adeus à carriola

 

Em tempo: Para quem quiser entrar em contato com a ACCD e saber como ajudar, como entrar em contato com as unidades espalhadas pelo país, clica no bozo 

Escrito por Jairo Marques às 08h00

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O segredo do "Alecrim Dourado"

Não sei ao certo qual foi o encanto que essa garotinha jogou sobre mim e sobre outras centenas de pessoas que a viram dançando balé, a viram cantando “Alecrim, Alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado.”

 

Talvez não haja apenas uma explicação, mas várias, para justificar porque quando bati os olhos naquele rostinho de princesa, sem saber absolutamente nada sobre ela, algo me dizia que ali morava um ser humano da mais alta “qualidadchi”.

 

Um dos meus maiores colegas de trabalho, logo cedinho, após a postagem do vídeo, deu a versão dele sobre o encanto, sem saber também nada da incrível “balalina”.

 

“Para quem tem filha pequena como eu, assistir ao vídeo desta bailarina no seu blog faz repensar a vida toda. Como somos felizes, como o mundo pode ser bom. Pode soar como frescura (a gente tem liberdade para estas brincadeiras um com o outro), mas é verdade. Filho é “soda”. No fundo, o que a gente mais quer (e nunca sabe se vai conseguir) é que ele sorria como esta linda menina. O resto é resto”

 

Pois bem, como esse diário tem sido presenteado com ventos de sorte, olha só quem apareceu para a nossa Semana da Criança na Matrix Baby: apresento a vocês, queridos leitores, Ingrid, a nossa "balalina"!

 

 

 

Mas ai vocês podem estar pensando: “Ela é uma criança como outra qualquer”. Não, meu povo, não é não. A Ingrid é daquelas pessoinhas que gritam para o mundo, que gritam para todos aqueles que desanimam ao ver uma estria na bunda, umas entradas aparecendo na testa: “Eeeei, eu sou feliz e dá pra todo mundo ser feliz quando cada um faz sua parte para que todos vivam de uma forma melhor”.

 

Essa princesa de sete aninhos, do signo de virgem, “cadeirantinha”, campineira (Óia Campinas ai!) precisa conviver com uma válvula na cabecinha. Foi vitimada pela mielomeningocele, ainda no útero da mãe, Paula, e teve também hidrocefalia.

 

 

“Sonhar, brincar, imaginar. Tudo isso eu posso fazer. Acima de tudo, sou uma criança como qualquer outra. Tenho minhas limitações e sei conviver com isso. Mas não me peça pra ficar quieta ou esquecida em um canto... Ahhhh não!!! Isso eu não faço!!!”

 

Há pouco, Ingrid começou a freqüentar a escola, o Objetivo lá de Barão Geraldo (ela quer ficar logo perto da Unicamp, né, não? ). A escola, que realmente se mostrou como uma escola digna de qualquer brasileiro, se preparou totalmente para receber a sua princesa: eliminou degraus, facilitou acessos, ampliou os banheiros e mais do que isso: abriu os braços e os corações de todos para recebê-la.

 

 

"Estou por toda parte. Na minha escola, sou conhecida como princesinha. Faço teatro com a tia Amanda, jogo capoeira com o tio Cris, mas o que eu mais gosto são minhas aulas de balett com a tia Luana.  Adoro dançar. Sem contar meus amigos de dia a dia. Amigos de sala, amigos professores..”

“Na família sou carinhosamente chamada de Bigo. Culpa do meu irmãozão que não conseguia falar Ingrid. A cabeça-de-pudim me chama de cabeça-dura...eu adoro minha avó. Adoro passar a semana na casa dela"

 

A briga de Ingrid para estar viva e hoje dançar para todos nós, envolveu nove cirurgias, meses de internação e a recuperação também de uma meningite.

 “As vitórias são todas dela mesma. Foi ela quem lutou pra passar por tudo e sempre com um sorriso. "Ela nunca desistiu, portanto quem sou eu pra desistir ou ter dó da minha filha?", me contou a Paula.

 

"Minha mãe e eu passamos horas no shopping, andamos muito e gastamos o dinheiro que o papai trabalha pra ganhar. Estamos sempre juntas. Apesar de eu não precisar muito dela. Eu sei me virar sozinha e quando preciso de ajuda, eu grito"

"Meu pai é bravo. Ele sempre briga quando eu faço coisa errada. Mas toda noite é ele que me da os meus remédios. Ele briga com o Gi, também. Porque o Gi faz mais coisa errada do que eu. Ele fala que o Gi tem que tirar nota boa. Mas o Gi é bonzinho. Ele cuida de mim"

 

Ingrid não só faz aulas de Balé, não. Como “ela mesma” contou lá em cima, nas fotos. Ela também está fazendo teatro e anda jogando capoeira. Deve mudar de estágio em breve...

 

“Às vezes, a gente briga mas eu adoro ele. Ele sempre me espera pra gente ir dormir. Ele faz coisas pra eu comer, me ajuda com os brinquedos... Dou muita risada com ele. Dou muita risada com tudo"

 

Obrigado, princesa, por doar o seu charme, a sua garra, o seu jeitinho de jogar os ombros, o seu olhar de doçura, o seu sorriso de encantamento para o tio e para esse povo “malacabado” ou não que visitam esse diário. Obrigado por ter aparecido por aqui e desvendado com tanto carisma o segredo do “Alecrim Dourado”. Não tenho mais muito o que falar, você tem?

 

"Mas o que eu mais faço, é falar. Eu falo o tempo todo e com todo mundo. A tia vive dizendo pra eu parar de falar e fazer minha lição, mas eu não me aguento. Se você me ver na rua e quiser conversar comigo, eu vou adorar  É só falar "oi" pra mim. O resto, deixa comigo. Tenho um monte de coisas pra dizer e histórias pra contar. Assim sou eu. Assim é minha vida. Assim como você"

 

* Textos que acompanham as fotos são de Marcelo Martinelli Marfil, o pai da princesa, que tem como irmão o Djiovane Rocha Marfil. A mãe de Ingrid é a Paula Cristine Rocha e a avó materna, mais conhecida como cabeça de pudim EMOTION, Suely Pedrozo Rocha
** Fotos do Arquivo pessoal da família de Ingrid

Escrito por Jairo Marques às 07h54

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O dia que roubei a bandeirinha

Foi a graças a uma infância completa, em todos os sentidos, que hoje eu sou um “minino bão” e cheio de histórias para contar, não tenho dúvidas disso.

 

Eu era bem atentado . Daqueles que brincavam na terra, pegava piolho, tinha estilingue, soltava pipa ao relento até os beiços ficarem rachados.

 

Chegava da escola, almoçava correndo como que se tivesse um compromisso “urgente”. E claro que era urgente: Ir para a casa de “Crô”, meu melhor amigo da época, disputar as “finais” do campeonato de futebol de botão.

 

 

 

Povo, vou contar para vocês, mas não tirem sarro, vai . Eu me esquecia de voltar pra casa perdido nas imaginações da infância, dos gols do meu time!

 

Assim, às 15h em ponto, estivesse eu onde estivesse a minha mãe chegava com um copão cheio de leite com toddy . “Minino como você não vai pra casa, pelo menos come alguma coisa.”

 

Até hoje ela me chama de “guaxo” (um bezerro sem pai nem pai) e meus amigos me atormentam por causa da mania que ela tinha de querer que.... eu me alimentasse! Ahhhh, sim, sigo tomando muito leite com toddy.

 

Quando moleque, me lembro que todas as brincadeiras tinham suas regras naturalmente modificadas para que pudesse também participar, para que eu pudesse ser criança como todo mundo da minha rua.

 

Dessa forma, o pique-esconde, para mim, tinha tempo maior para eu “sumir”, no pula cordas, eu era sempre o que girava, no futebol eu era o técnico (conto isso no futuro), nos bailinhos eu era o DJ, no andar em cima dos muros eu distraia os cachorros . Mas uma das brincadeiras adaptadas jamais sairá da minha memória: a disputa pelas bandeirinhas.

 

Bandeirinha era um jogo em que se formavam dois times, cada um de um lado, separados por uma risca e com a missão de defender seus respectivos símbolos, fosse um pedaço de pau “véio”, fosse uma lata de óleo enferrujada, fosse mesmo uma bandeira.

 

 

 

Por mais incrível que possa parecer, eu não era o último a ser escolhido, mesmo não tendo como correr. Isso porque eu era bom estrategista e gritava pra burro para incentivar os corredores de “elite” a resgatar a bandeira do adversário.

 

Me lembro que certa vez,  em uma disputa muito acirrada, ficou eu de um lado e apenas um garoto de outro e se formou um impasse. Como resolver?

 

Eu estava próximo à bandeira e dali num saia nem por decreto, porém eu também não conseguiria resgatar a bandeira do meu adversário!

 

Eis que então, em comum acordo com os rivais, ficou acertado que um amigo do meu time iria me carregar no colo para tentar roubar a bandeirinha do outro lado da risca.

 

E assim foi aceito. Meu amigo, que era magrinho, franzino, mas esperto, me ajeitou nos braços e só disse: “Segura firme que nós vamos correr”.

 

E corremos... e ríamos... e disparamos naquele chão batido de areia vermelha. O sabor da minha infância nos braços do meu amigo.

E, ao mesmo tempo em que invadíamos o território inimigo, o rival também entrava em nosso campo de batalha atrás, com ansiedade, de apanhar o nosso símbolo e voltar o seu território com a vitória.

 

E “usando” o corpo do meu amigo, minhas pernas sacolejavam e o meu coração disparava. Ele vôo rumo à bandeirinha e, num reflexo, apanhei o motivo da nossa cobiça!

 

E como nas belas histórias de vida, nós ganhamos o jogo ao cruzar a linha antes do rival, o que foi motivo para muitas e muitas gargalhadas, de ambos os times e por semanas e semanas o assunto só era: “O Jairo roubou a bandeirinha”.

 

Não sei dizer se criança tem senso de justiça e de igualdade, mas jamais eu fui rejeitado pelos moleques da minha rua, da minha escola. Muito pelo contrário, eu sempre fui o amigo “disputado”.

 

 

 

Acho que se toda criança deficiente tiver a sorte de ter como amigos pessoas parecidas com as que habitaram a minha infância, teremos mais e mais bom humor, otimismo, garra e vontade de fazer e ser melhor a cada dia.

 

Bem, esse texto abre a Semana da Criança da nossa Matrix. A Matrix Baby, como batizou uma colega, a Matrix dos cadeirantinhos, a Matrix de crianças que são como outras quaisquer, mas que só precisam de condições um pouco especiais, um pouco diferentes para serem felizes.

 

Amanhã, parafraseando o nosso querido “Gavião Bueno”, “PREPAREM OS SEUS CORAÇÕES”, tenho certeza que esse blog vai novamente balançar as “idéias” de muita gente e mostrar que, sim, somos exatamente “Assim como você”. Vai valer a pena visitar de novo!

 

Em tempo: Alguém se recorda do professor Nuna, que me ensinou a nadar? "Poi zé", foi eleito vereador de Três Lagoas.

 

* Imagens do google imagens

Escrito por Jairo Marques às 08h02

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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