Jairo Marques

Assim como você

 

A sinfonia brasileira

“Zimininos”, sei que havia dito a vocês na segunda-feira que falaria mais sobre os direitos de andar de avião para quem é da Matrix, mas é que eu sou meio doido e mudo as coisas em cima da hora. Vou cumprir esse compromisso na próxima semana, fechô?

 

Antes, porém, eu retifico uma informação que dei ERRADA : a passagem aérea do acompanhante para quem tiver necessidade expressa de tê-lo não é de grátis, não. Mas, sim, um desconto de 80% na tarifa.

 

Hummm, que mais? Há sim, eu ia escrever hoje também sobre o filme “O Ensaio Sobre a Cegueira”, que está nos cinemas de todo o país. Vale muito, muito a pena ver! Mas também vou adiar...

 

Bem, porém, vou fechar a semana com uma idéia que alguém deu nos “comentis” sobre os para-atletas, não me “alembro” quem: fazer uma homenagem aos brasileiros que medalharam demais lá em Pequim!

 

Como as Paraolimpíadas acabaram, eu faço a última sinfonia bem brasileira, mas com o povo que lotou a praia de Copacabana, no último domingo, mesmo com chuva e frio no Rio, e protagonizou mais um espetáculo em nome da inclusão. A passeata Superação Rio 2008.

 

Bom final de semana e beijo nas crianças

 

 

Isso aqui ô ô

 

 

É um pouquinho de Brasil iá iá

 

Desse Brasil que canta e é feliz....

 

Feliz....

 

 

Feliz....

 

 

É... também um pouco de uma raça

 

 

Que não tem medo de fumaça ai ai...

 

Que não se entrega, não...

 

Olha o jeito nas cadeiras que ela sabe dá

 

Olha só o remelexo que ela sabe dá

 

 

Morena boa que me faz penar....

 

 

Bota a sandália de prata e vem pro samba, sambar

 

* Fotos de Rapha Bathe e Victor Klier

Escrito por Jairo Marques às 07h53

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Reabilitação

Pessoal, esse vídeo que coloco hoje, para mim, teve um impacto emocional muito grande. Ele me remete, de certa maneira, a minha própria história de vida.

 

Sempre digo aqui no nosso diário sobre a importância que a minha mãe teve na formação do meu caráter, na forma como que hoje eu levo a minha vida e, sobretudo, na minha reabilitação porque, afinal, foi ela quem me carregou daqui para acolá para que a medicina conseguisse dar um “tapa” na minha condição física.

 

Nunca escrevi isso para vocês, mas, acho que hoje é necessário. O meu pai, para dar aquela ajudada , morreu bem jovem, vítima de uma doença crônica, quando eu era ainda um bebê e havia recém contraído a pólio. 

 

A herança que ele deixou foi uma pensão do INSS de um salário mínimo e três bocas para encher de comida, entre elas, uma de um ser que não parava em pé . Então, a coisa num foi muito tranqüila, não.

 

Peço a vocês que tentem ver e refletir sobre a mensagem embutida na apresentação. Como eu escrevi na semana passada, o que importa para melhorar a vida de quem está na Matrix de quem tem alguma deficiência não são os milagres, mas a reabilitação, a forma de aprender a conviver com o mundo com suas limitações.

 

Coloco duas versões do vídeo, um presente da minha amiga Malu Filézio. A primeira, sem legendas, está em espanhol e com imagem melhor. A segunda está com legendas em português, a quem eu agradeço demais em ter me ajudado: Silvia Dutra, Carol Vila Nova e Vivian Retz.

 

Boa reflexão....

 

 

Versão sem legendas

 

 

Versão legendada

 

Em tempo: Fui carregado no colo até os 13 anos e sentia o meu próprio peso ir aumentando para o corpo da minha “véia” à medida que o tempo passava. Quando você vir uma situação semelhante à mostrada no vídeo, não relute nem tenha vergonha de oferecer ajuda. Ela será muito bem-vinda, podem ter certeza.

Escrito por Jairo Marques às 08h10

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Dez dicas conversar com quem não te escuta!

“Zente”, vocês já repararam que quando tentamos falar com alguém que não escuta direito ou é surdo por completo a gente vira tudo “ridiculoman”?

É que temos mania de gritar, porque achamos que vai facilitar o entendimento ou mesmo falamos bem “degavarzinho”, gesticulando com a boca, nos achando os “sabetuuudo” da inclusão.

Então, como eu sou um “minino bão”, pedi para a minha queridíssima e gatíssima leitora Lak Lobato, que tem o escutador de novela “mei” prejudicado , apontar dez dicas para que possamos nos comunicar melhor com os deficientes auditivos sem ficar com cara de pastel!

Leiam o que ela mandou.... Tá show (os gracejos, em itálico, são coisas do tio, que num guenta ficar com a boca fechada nem falado de mudo )

Antes de qualquer coisa, é importante saber que existe mais de um tipo de deficiente auditivo. Não somos todos iguais (in)felizmente.

Existem os que têm perda auditiva de leve a moderada, que geralmente se resolve com aparelhos auditivos. Com eles, basta você falar um pouco mais alto, mas pelamordosdeuses, não fale como se você estivesse falando num megafone, porque o aparelho já ajuda muito (uuuuia).

“Óia” o aparelho da Lak, em forma de coração (ahhhhh, que romantchico)

E, mais importante, espere ele dizer pra aumentar a voz, senão perigam os tímpanos do pobre estourarem junto com as suas cordas vocais!

Além deles, existem os surdos sinalizados, os surdos-mudos, muito embora a maioria tenha voz, apenas não costuma usá-la ou porque não aprendeu o necessário ou porque tem vergonha/não gosta (ai, ai, eu tenho a voz bonita, segundo as "minina") Uma boa parcela nasceu surda ou perdeu a audição antes da formação plena da fala.

Há também, um grupo grande, mas menos conhecido e facilmente confundido com deficiente auditivo. São os surdos oralizados, que se comunicam através da fala oral, lêem os lábios, mas o aparelho comum não costuma resolver o problema de audição deles.

Voilà as dicas (ai, ai, eu tumém falo alemão, viu?):

1 - Fale devagar, sempre. Mas com naturalidade. Não adianta falar separando as sílabas ou articulando demais. Além de você acabar fazendo careta o tempo todo – que certamente, o surdo terá que se segurar pra não rir - além de provocar dores no maxilar, periga você acabar se perdendo na linha de pensamento. 

Devagar, sim. Em 33 rotações, só se seu objetivo for matar o surdo de tédio (essa guria é boa nas própria palavras da Matrix).

Ai, “gzuis” fala baixinho que é mais gostoso!

2 - Fale de frente pra a pessoa. Se passar uma linda deusa na sua frente e você precisar virar o rosto, faça uma pausa. Cada virada de rosto é uma sílaba ou palavra perdida que poderiam alterar completamente o sentido da conversa. Jogos de adivinhação são supimpa (essa palavra é de vééééio, que neu eu!), mas podem causar um grande mal entendido desnecessário.

3 - O volume da voz deve ser de acordo com a perda de audição da pessoa. Claro que você não precisa ser adivinho. Comece falando com o tom de voz habitual. Se necessário, a pessoa te avisa que precisa que você fale um pouquinho mais alto, mais baixo ou mantenha do jeito que está. Além do mais, se a pessoa tem surdez quase total, não adianta gritar. Se você gritar ou falar sem voz dá na mesma. Ela apenas lê seus lábios.

4 - Surdos sinalizados, geralmente, lêem os lábios pelo menos um pouquinho. Se você perceber ou souber que o surdo é usuário exclusivo da Libras (aqueles trem que faz cás mãos) e realmente precisar falar com ele, fale de maneira simplificada. Ele provavelmente irá te entender e responder como puder (falando oralmente, por sinais ou até escrevendo). Ficar com medo de falar com ele, faz com que ele ache que você tem medo DELE. Surdos não mordem... (mentiiiira, deve ter umas surdinhas que mordem, sim )

Deuzulivre levar uma gata dessas no restaurante.

Imaginem a confusão dos homi pra falar com ela?

Aí é bom se fingir de surto, né, não

5 - Surdos oralizados falam oralmente. Achar que todo surdo fala libras também é uma gafe feia. Chegar achando que está abafando porque aprendeu alguns sinais pode ser indecoroso (inde o que, fia?!). Muitos não falam a língua de sinais. Com essas pessoas, fale normalmente. Se não entender, elas irão avisar. A voz pode soar estranha pra quem não está acostumado com ela, mas o surdo sabe disso, fique tranqüilo . Apenas tenha um pouquinho de boa vontade e fique a vontade pra pedir pra ele repetir, caso você não entenda alguma coisa...

6 - Não tenha medo de cometer gafes com figuras de linguagem. "Você está me ouvindo" "Nossa, você já tinha ouvido falar nisso?" "Ei, ouve essa.." não fazem um surdo te odiar. Se ele for bem humorado, vai tirar sarro disso. Se ele for mal humorado... Humm, você pode dar um chocolate pra ele. Dizem que produz endorfina, né?

7 - Às vezes, as pessoas acham que deficientes auditivos são, na verdade, pessoas antipáticas. Porque falam com elas e elas não respondem, já que a deficiência não é visível. Se, por ventura, você se deparar com uma pessoa que não responde quando você fala com ela estando virado, existe alguma chance dela não ter boa audição (ou é alguém que é meio árvore, fica paradão). 

Na dúvida, pergunte. 

A Lak é arte finalista numa agência de “publicidchi” e fotógrafa freelancer

Existem deficientes auditivos que sentem vergonha de expor essa condição e serem mal recebidos. Quando a pergunta parte, de forma educada, do interlocutor, o surdo auditivo, fica mais à vontade para falar disso (nada de: abre esses “zuvidos” e me “escuita”, pô). É claro que, pela lógica, é obrigação dele te informar, mas nem sempre acontece.

8 - Para chamar um surdo, você precisa de algum sinal visual ou tátil (aêêê, agora ficou gostoso). Você pode abanar as mãos, acender e apagar uma luz ou até tocar o ombro dele de leve. Mas, jamais dê um cutucão com força ou um tapa agressivo. Você quer conversar ou começar uma luta romana? (nem um chameguinho? )

9 - Surdos não casam apenas entre si. Se você tem curiosidade de saber se o(a) namorado, parceiro é surdo também, pergunte. Chegar falando com a outra pessoa como se ela também fosse surda é uma gafe (é broca, mesmo). O casal pode passar horas tirando sarro de você pelas costas. Não corra esse risco!

Com uma "muié" dessas o que eu menos queria fazer era conversar  

10 - Um dos piores furos que os ouvintes infelizmente cometem, é achar que a deficiência auditiva afeta o intelecto, qualquer deficiência, por sinal (eu sou “inteligentchi”!). O surdo tem a inteligência de uma pessoa como outra qualquer. Não se preocupe em achar que ele não é bem informado ou que não vai entender alguma coisa. Como qualquer pessoa, ele pode ou não estar informado sobre determinado assunto (como música, por exemplo), pode ou não entender determinada coisa, mas isso, ele te fala, não tente adivinhar.

* Imagens do arquivo pessoal de Lak Lobato

Escrito por Jairo Marques às 07h57

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Aqui do céu da pra ver tudo

Oi, povo! “Tavon” com “xodadis”? Já contei um pouco aqui para vocês sobre as delícias que passei andando de bumba pelo país afora, né, não?  Falei um pouco também sobre os apertos de viajar de avião. Hoje, vou contar um bocadinho mais sobre “avuar” e o sufoco que isso dá para quem tá montado numa cadeira de rodas.

 

O mais doido de viajar de avião é que todo mundo que freqüenta o aeroporto se acha, né?  Ali tem gente que pensa que é o rei ou a rainha da Inglaterra, só porque “tá pagaaaando”! E podem escrever ai, onde há gente arrogante e metida, os problemas pra o povo da Matrix de quem tem alguma deficiência se multiplicam devido à falta de educação.

 

 

 

Viajei bastante de avião porque fui repórter durante muitos anos aqui na Folha e tinha de ir daqui para acolá várias vezes. Era gostoso, afinal, quem não curte conhecer lugares novos? Mas, nessas andanças todas, sempre uma parte minha ou do meu cavalo voltava avariada.

 

O embarque mais crazy que já fiz num avião foi uma vez indo para as Espanha (sou chique, povo, mais chique do que arroz com carne moída e ovo da gema mole). Eu lá, todo bonitão para passear em Madri, cheio de malas quando recebo a notícia de que o vôo havia sido remarcado para seis horas à frente.

 

Como quem tá perdido não escolhe caminho, fiquei ali no aeroporto esperando porque voltar pra casa com aquela mudança toda ia ser broca. Mas, eis que vem um atendente solícito da cia aérea.

 

“Senhor, vamos dar uma ‘prioridadchi’ para você e o realocaremos num vôo de outra companhia, mais cedo. Fique esperto que vamos chamá-los a qualquer momento para o embarque.”

 

Nisso o “homi” leva minhas malas, coloca a etiqueta na minha cadeira e some. O tempo passou e nada do funcionário voltar. Fui para frente do balcão da empresa aérea e fiz cara de cachorro molhado pra ver se alguém se tocava...

 

“Mooooço, eu me esqueci de você! Vamos correr que o embarque já começou.”

 

“Zente”, e o ‘homi’ falava naqueles “uolkitolk” coisas que num davam pra entrender: “Tks positivo aqui como o ckb. Em segundos vamos entrar na xlz”... e ele corria comigo pelo saguão. Eu num sabia se rezava, se grudava na cadeira pra não cair, se fechava os olhos e prendia os pensamentos pra não sujar a cueca nova.

 

O avião era imenso. Nem sei qualéra a “marca” dele, mas era bem grande. Bem maior que um fusca, digamos assim . Todas as pessoas já haviam embarcado e, como se tratava de uma gentileza de uma cia aérea para outra, meu lugar não estava demarcado: era o que sobrasse.

 

 

 

E o lugar que havia sobrado era no meio do avião. Bem no meio, mesmo. E, nessa hora, vocês acham que algum brasileiro se oferece pra trocar? Neeeem, todo mundo só quer saber de ir logo...

 

 Como já tava tudo atrasado o despachante que me acompanhava nem quis muita conversa pra ver se rolava um clima entre a gente .  Ele nem me perguntou nada e já me jogou nas costas que nem “ingual” você carrega um saco de feijão de 15 quilos.

 

E o meu vôo já começou ali... O “homi” saiu em disparada comigo, mais uma vez, pelo meio daquele corredor estreitinho do avião. As minhas pernas iam batendo na cabeça dos outros passageiros que, delicadamente, diziam palavras de incentivo e chiavam sem parar pelo atraso. O meu pensamento único era desembarcar logo na poltrona que nunca chegava...

 

O despachante fungava e suava porque apesar de eu ter um corpo de miss  num é fácil fazer algo tão, digamos, delicado. Quando a poltrona chegou, ele me repousou no acento qual uma caçamba derramando entulho. Um luxo, um luxo.

 

Depois dessa emoção, o resto foi fichinha. O espaço do acento era minúsculo e, apesar de um vôo de quase nove horas, pensar em ir ao banheiro (ainda mais um cadeirante), era um sonho muito remoto, realmente impossível. E ninguém perguntou se eu precisava dar uma urinadinha básica também.

 

Mas deu tudo certo, apesar das emoções. Assim, deu certo até eu descobrir que haviam extraviado a minha bagagem e a minha cadeira . Ai, ai, como a gente sofre... Os meus badulaques chegaram apenas cinco horas depois...

 

Vou contando aos poucos as minhas histórias de aeroporto. Ainda tem muita coisa pra dividir com todo mundo. Nesta semana, ainda vou falar um pouco sobre os diretos dos deficientes de levarem um acompanhantes de graça para auxiliá-lo em uma viagem de avião, o que, como quase tudo aqui neste país, é bem complicado de fazer valer.

 

Em tempo: O embarque de um deficiente físico num avião é realmente um pouco mais trabalhoso e pode demorar. Mas, boa parte dessa demora não é provocada pelo deficiente, mas pela falta de infra-estrutura nos aeroportos. Porém, esses pequenos atrasos são naturais e não vão mudar os rumos da humanidade. Quando você estiver nas poltronas da frente da aeronave e puder ficar em outro local, se oferece para trocar com alguém que tem mobilidade reduzida ou mesmo que seja cadeirante. Ser deslocado ao longo do corredor do avião é de lascar.... e, se todo mundo colaborar, fica bemmm mais fácil! 

 

Imagens: Google imagens e blog do Betir   

Escrito por Jairo Marques às 00h03

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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