Jairo Marques

Assim como você

 

Por que eu selecionei um trainee cadeirante?

Quem tem amigo num fica no mato sozinho nunca, né, não?  A Ana Estela, que falo um pouquinho mais abaixo, acaba de salvar o post do dia me enviando, sem combinar, juro, o texto que segue abaixo... Adorei!

 

 

Um dia, há dez anos, o Jairo me perguntou:

 

- Por que eu passei para o treinamento?

 

- Passou porque passou, foi a minha resposta mal-humorada.

 

Fui meio ríspida, acho. Mas queria deixar claro: não foi uma escolha “emocional”.

 

Não fiz um “favor” ao Jairo porque ele é cadeirante. Ele competiu em pé de igualdade com centenas de outros candidatos e mostrou ter qualidades para ser trainee. [Depois provou por conta própria que tinha tudo pra ser um bom jornalista _ainda bem que os meus meninos nunca me deixam em maus lençóis, hehehe.]

 

Mas não dá pra ignorar a pergunta dele _que, provavelmente, é também uma pergunta que o Leo, meu novo trainee cadeirante, deve ter se feito alguma vez nesse período.

 

E talvez seja a pergunta que muitos outros se fazem quando vêem o Leo na turma.

 

Por que eu selecionei um cadeirante? É política de cotas? Fiquei com pena e quis ajudar?

 

Não tenho nada contra incentivos. Acho que às vezes é preciso intervir até que uma cultura de preconceito e exclusão seja abalada.

 

Também não condeno quem tem pena dos deficientes (o Jairo vai ficar louco da vida comigo por isso, mas é o que eu penso. Não critico quem se condói dos outros. Só acho que esse sentimento tem que resultar em ação, ou é realmente inútil e humilhante).

 

Mas, tanto no caso do Jairo quanto no do Leo, não foram esses os motivos da escolha.

 

O Leo, por exemplo, fez a prova do treinamento três vezes antes de passar para a semana de treinamento. Ele chegou lá por méritos próprios, depois de insistir _e, vamos lembrar, persistência é uma qualidade importantíssima num jornalista.

 

 

Óia que barba linda a do Léozim 

 

Na semana, havia 37 pessoas maravilhosas, inteligentes, talentosas, interessadas, com vontade de fazer um bom trabalho. Qualquer um deles pode ser um excelente trainee e tenho certeza de que todos serão excelentes profissionais.

 

Como eu escolho só dez (ou 11, ou 12)? É uma espécie de "alquimia", que leva em conta as diferentes aptidões e interesses de cada um. Tive a impressão de que o Leo se encaixaria bem nesta turma. E essas duas semanas não me desmentiram.

 

Deixe que ele decida

 

Não vou dizer, porém, que tenha sido tudo tranqüilo. Depois da seleção, acordei para o mundo real:

 
* meu andar não tem banheiro adaptado,
* algumas atividades exigem uma agilidade que o Leo não terá,
* os prédios da Folha são antigos e, apesar de reformas que os tornaram acessível, é preciso dar uma boa volta para se movimentar de lá para cá

 

Tudo indicava que a vida dele não seria fácil. Será que eu tinha direito de metê-lo nessa enrascada, pensei?

 

Fui correndo consultar o meu oráculo, o Jairo.

 

- O que você acha? Vou criar toda uma expectativa... e se der tudo errado? Não corro o risco de ter piorado a situação?

 

Ouvi uma frase que nunca vou esquecer:

 

- Ana, explica tudo isso para ele e deixe que ele decida.

 

Liguei:

 

- Olha, Leo, a situação é assim, assada. Já pedi uma reforma nos banheiros do meu andar, mas vai demorar uns meses. Se você fizer o treinamento agora, vai enfrentar bastante complicação nos acessos e deslocamentos. Se preferir, pode se considerar selecionado, mas adiar sua participação para o semestre que vem, quando a infra estará melhor.

 

Ele pediu pra pensar (claro, né? Meu telefonema era mais ou menos como um convite para um passeio em Bagdá...). Ligou de volta poucas horas depois:

 

- Olha, prefiro fazer agora. Já estou motivado, não quero esperar mais tempo.

 

- Tem certeza??? [parênteses: juro que tento controlar minha grave tendência à superproteção]

 

- Tenho.

 

E foi assim que o Leo entrou nesta aventura que vai durar até dezembro.

 

Já houve percalços _carregar o laptop pesadão, por exemplo_ e haverá muitos outros. Ninguém disse que seria fácil. Mas eu, o Leo, o Fábio, a Sandra, a Vivi e todos os trainees vamos tentar contornar o que aparecer, com tranquilidade, jogo de cintura e bom-humor.

 

O que der para fazer deu. O que não der não deu. E bola para frente que, como diz o Simão, quem fica parado é poste.

 

Escrito por Jairo Marques às 10h58

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"Zente", hoje rolou uma pregui.... Talvez eu volte só na terça, "tá bão"? Vou tirar uma folguinha na segunda! 

Mas tem uma ótima história "Assim como você" no blog da Ana Estela, o "Novo Em Folha". Ela é editora de Treinamento do jornal e faz um trabalho de formação de futuros profissionais que é incrível. Vale muito a pena ler... Cliquem aqui para saber do que se trata!

Beijos nas crianças e bom findi

* Imagem do site www.lilivicc.com.br

Escrito por Jairo Marques às 10h21

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O que sei e o que não sei...

Não sei o nome dela...

 

Não sei porque ela está na Matrix...

 

Não sei se ela será “balalina”....

 

Mas sei que ela é linda....

 

Sei que ela baila...

 

Sei que ela me fez os “zóios” ficarem cheios de água...

 

Sei que muita gente vai passar o dia cantando assim: “Alecrim, alecrim dourado que nasceu no campo e não foi semeado....”

 

Em tempo: Gente, se alguém conhecer essa florzinha, mande o meu muito obrigado pelo show

Escrito por Jairo Marques às 07h46

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Domingo do Rio

“Zente”, eu adoro o Rio, a verdadeira cidade “maraviwonderful” do mundo . E vai ser lá que, no domingo, um grande ato pretende reunir o povo da Matrix de quem tem alguma deficiência e seus respectivos amigos, simpatizantes, agregados e tudo mais para uma “caminhada” (ou uma “cadeirada”, como preferirem), na orla da praia de Copacabana.

 

Os “malacabados”, organizados pelo Movimento Superação, vão começar a se reunir por volta das 8h30, no “postcho” 5, perto do metro Cantagalo, de onde sairão todos de biquíni, sungão,  “maquilagem” e chapéu de boiadeiro.

 

 

Acho que fui ao Rio umas cinco vezes, em todas elas, como não podia deixar de ser, vivi boas histórias. É que o carioca tem aquele jeito, digamos assim, sério, né? Que nem eu e esse diário  . Então, quando vou lá me sinto em casa e me divirto muito.

 

E tem também o fato de no Rio o povo ficar fazendo a “exibição da figura”, com aqueles bronzeados e corpos sarados, “ingual” que nem o do tio.

 

Vocês podem até não acreditar, mas aquele cadeirante fortão que eu coloquei o vídeo aqui, “alembram”? “Nóis” é primo! (é que eu fui acometido por uma gripe forte )

 

Bem, mas voltando à viagem ao Rio, da última vez foi muito bom. Fiquei num hotel em Copacabana, da rede Sesc, baratinho e bem localizado (fica a dica para quem for participar do ato no domingo).

 

 Mas a minha alegria malemolente acabou assim que entrei na “goma” acessível que eles oferecem. Beleza, quarto amplo, tudo ajeitado, mas, no banheiro, povo, tinha uma cadeira de banho que só por Gzuis, mesmo.

 

 

Aquilo ia acabar com a dignidade da minha bunda, pô . Era super alta e o buraco era muito largo. A cadeira de banho pode ser muito útil para algumas pessoas porque facilitada a transferência da “casinha” para o chuveiro, mas, para outras, pode ser inconveniente. E toca eu reclamar.

 

“Oi, a cadeira de banho não rola pra mim. Machuca  meu popô. Podem me dar uma outra cadeirinha ‘simprinha’, de ‘prástico’, mesmo?!”

 

Eis que diz o atendente, daqueles estilo franguinho clássico: “Senhor o ambiente do quarto foi totalmente adaptado para as suas necessidades pela nossa equipe. A regra é que o senhor use aquele cadeira mesmo por medida de segurança.

 

Ainda bem que no Brasil existe lei que proibi a gente de usar estilingue. Porque senão eu teria dado uma estilingada nele.  

 

Eu mesmo comprei um banquinho de plástico e botei lá. Pô, gente, com bunda num se brinca, né, não?

 

O Rio ainda tem muito a evoluir, assim como outras centenas de cidades do país, para se tornar mais universal. Ainda mais se pretende mesmo ser vitrine para o mundo sediando uma Olimpíada.

 

Mas, povo, o Rio é a segunda fonte mais "ledeira" e mais "acessadeira" desse blog. Tá certo que muitos visitantes não deixam “coments”, mas eu acho que é porque eles são tímidos. Carioca é tudo tímido.

 

Então, peço para que espalhem a notícia dessa passeata em prol de um mundo mais pleno para o convívio de todos. A “causa” dos “matrixianos” está nas ruas, está nas mídias, está nas “internets” e com a repercussão de vocês a gente vai conseguir cada vez mais conquistar um direito básico, que é poder sair à rua.

 

Eles tão esperando juntar uns 3000 brasileiros. Ah, fala sério... Eu acho que dá pra juntar muito mais. Basta vocês ajudarem a divulgar. Vai lá, negada.... copiem esse chamado em seus blogs, liguem pra um amigo carioca, manda um “i ½” praquela sua tia que mora no “Méieirrrrr”, nos Vigário Geral, nas Rocinhas, na Barra...  Boraí?

 

 

 

Hum? Passeata Superação Rio 2008

 

Mai... qui hora que é? A concentração começa às 8h30 e o ato deve durar toda a manhã, com trios elétricos, gente bonita, gente doida, gente sobre quatro rodas...

 

Cumé? Vai rolar na orla de Copacabana. O povo vai ser começar a concentração no Posto 5

 

Ai Gzuis e agora?  Informações no (21) 3904-2614

Escrito por Jairo Marques às 23h38

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O espetáculo Paraolímpico

 

PRIMEIRA SINFONIA

Rompi tratados, traí os ritos

 

Quebrei a lança, lancei no espaço

 

 

Um grito, um desabafo

 

 

E o que me importa é não estar vencido

 

 

Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos

 

 

 

Meu sangue latino

 

 

Minha alma cativa

 


SEGUNDA SINFONIA 

 

 

Sonhar mais um sonho impossível

 

 

Lutar, quando é fácil ceder

Vencer o inimigo invencível

 

Negar quando a regra é vender

 

Romper a incabível prisão

 

 

 

Voar no limite improvável

 

 

Tocar o inacessível chão

 

 

É minha lei, é minha questão, virar esse mundo, cravar esse chão

 

 

Não me importa saber se é terrível demais

 

 

Quantas guerras terei de vencer por um pouco de paz?

 

 

E amanhã, se esse chão que eu beijei for meu leito e perdão

Vou saber que valeu delirar e morrer de paixão

 

 

E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição

 

 

E o mundo vai ver uma flor

 

 

Brotar do impossível chão

 

Em tempo: Obrigado ao meu colega Ayrton Vignola, chefe de reportagem da editoria de Fotografia da Folha, quem me deu a luz para este post e deu ajuda fundamental para a edição das imagens

 

* Todas as fotos registradas aqui são das agências internacionais: France Presse, Reuters, Efe e AP

 

 

Escrito por Jairo Marques às 23h34

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Na busca de um milagre

Até os meus treze anos, a busca da minha família para uma “cura” para mim foi incessante. Bastava ouvir um buxixo de algum novo tratamento, novo curandeiro, novo pai de santo que supostamente fazia “voltar a caminhar” e lá estava a minha mãe promovendo rifa de frango assado para levantar uma grana pra gente viajar fosse para Santo Antonio do Passo Dentro como para São Pedro do Passo Fora.

 

Para quem é vítima da pólio, a tal paralisia infantil, essa busca é muito frenética uma vez que na cabeça dos pais vai sempre pairar uma “culpa”. O que é uma bobagem. Como já escrevi aqui, em 1974 / 1975, lá nos cafundós onde o tio nasceu, campanha de vacinação era “ingual que nem” pizza na casa de pobre: lááá de vez em quando.

 

E era um tal de ir ao doutor japonês Tomaro Mia Kombi, no chinês Kixaco Kosano quase todos os meses. E a gente era bem pobre, mesmo. Levantar “ricurso” era sempre um capítulo à parte.

 

Nessa busca de um milagre, minha mãe chegou ao cúmulo (sei que vão me azucrinar pelo resto dos dias desse blog por essa revelação) de me colocar... pensa, gente, pensa... no “bucho” da vaca.  

 

 

 

“Todo mundo dizia que se eu colocasse você dentro do bucho da vaca, mas tinha que ser logo que abatessem a vaca, com o bucho quente, você iria sarar. E é claro que eu coloquei. E depois você ainda teve de ficar de repouso por vários dias”, disse minha mama, que hoje ri daquilo tudo.

 

Acho que vocês devem estar se perguntando onde quero chegar com isso , né, não? É que nos últimos dias me chamaram atenção duas notícias que rolaram na imprensa: a de uma estudante de medicina inconformada com sua tetraplegia e que foi para a China atrás de um tratamento alternativo com células tronco (assinante Uol e Folha pode ler a reportagem aqui) e outra sobre um revolucionário aparelho ortopédico israelense eletrônico que faz paraplégicos andarem com uma “bela” desenvoltura.

 

Fico imaginando o impacto emocional que essas duas notícias causaram em muita gente. Quantas mães, quantos pais e quantos irmãos não pensaram: “Agora vai!”, “agora o Juninho volta a andar. ‘Vamu pá’ China. ‘Vamu pá’ Israel”.

 

Não, povo, não sou um cético e acredito muito no poder da ciência, no avanço da medicina de REABILITAÇÃO. Mas olho com muita desconfiança “milagres” oferecidos por alguém que come “arroz com feijão”.

 

Penso que a cura milagrosa não existe. O que existe é uma forma de fazer a vida de quem tem deficiência física melhor. Acredito que possa vir avanços por meio das células tronco, penso que é possível aumentar a capacidade de movimentos de um braço meio “mamulengo”, de uma mão meio boba.

 

Como me diz a minha médica particular , “há sempre algo que dá para melhorar na vida de um deficiente”, mesmo que seja conseguir esticar o dedo médio e apontar para esse blogueiro.

 

Por outro lado, me angustia quem vende a idéia de que um corpo e um organismo que já se moldaram a uma nova realidade irão, da noite para o dia, conquistar de volta sua desenvoltura perdida.

 

A divulgação do tal aparelho ortopédico israelense me deixou muito espantado. Recebi há meses o texto que “vendia” para a imprensa o tal ReWalk que, para mim, é assustador. Até o Uol botou o exotismo no ar.

 

 

 

O texto do treco tem um trecho assim: “Mais do que melhorar a capacidade de locomoção do paraplégico, o ReWalk permite a ele voltar a ter a mesma estatura de seus interlocutores e conversar com eles olhos-nos-olhos. Parece pouco para as pessoas comuns, mas para quem está preso a uma cadeira de rodas é um enorme ganho de dignidade”.

 

Gente, a cadeira de rodas nunca me prendeu, não. Ao contrário: ela me liberta à medida que me leva para o trabalho, para o jazz, para o balé . Olhar olho no olho de alguém em pé, na boa, eu prefiro mesmo olhar deitado.

 

O tal aparelho revolucionário, que transforma a pessoa no verdadeiro Robocop, deve custar no Brasil a fábula de R$ 20 mil e atualmente só funciona “bem” em uma pessoa... vou repetir: UMA pessoa. Ah, sim, foi criado por um médico tetraplégico que não pode usar o treco.

 

O hospital Sarah, que tanto falo aqui, faz aparelhos ortopédicos para paraplégicos de graça. Eles também possibilitam subir escada, ficar em pé, entrar no carro. Ah, sim, exigem mais esforço físico que esse automático, mas, não acabam a bateria.

 

Bem, aceito que me taquem ovo por esse post.  Não sou contra as pessoas procurarem seus “buchos de vacas” na esperança de voltarem a andar. Só o que insisto é que precisamos apoiar iniciativas da ciência. Iniciativas que reabilitem com seriedade e que atinjam um público plural. Ou alguém é favorável que volte a andar somente quem tenha grana, muita grana?

 

 

Para mim e para muita gente séria, voltar a andar, voltar a enxergar, voltar a falar não é como fazer salsicha em que você bota o cavalo de um lado e sai a “sarsicha” do outro.

 

Fico contente de hoje minha mãe não querer fazer rifa para me levar para a China. Vivo com muita dignidade, assim como muitos paraplégicos, tetraplégicos, amputados. E isso não tem nada a ver com conformismo. Tem a ver com gostar de si mesmo seja como for e apostar no bom senso, nas pessoas de boa fé, e na ciência.

 

* Imagens de divulgação e do google image

Escrito por Jairo Marques às 08h11

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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