Jairo Marques

Assim como você

 

Para sorrir

Desde o primeiro comentário que colocou em um post do “Assim como você”, e lá se vão vários dias, o Henrique Fragoso me chamou muito a atenção.

 

Ele é, certamente, um dos meus leitores mais assíduos e mais espirituosos (e são muitos como ele, ainda bem!). Tem um humor intelectualizado e agrega sempre uma opinião ou uma piada de primeira linha.

 

O presente de hoje e para o final de semana, então, é um texto inteligente, saboroso e divertido deste cara que nunca vi, mas que, como ele mesmo escreve, parece meu “brother” há séculos! Ele não tem deficiência nenhuma, mas aderiu à causa explícita neste blog de forma verdadeira e contundente.

 

Então, se deliciem com o Henrique:

 

 

 

Jairão, seja em São Paulo ou em qualquer outra fábrica de doidos, lidar com o sorriso alheio é um negócio um tanto quanto complicado. Convenhamos, quem é que não desconfia de um estranho que chega do nada, assim, abrindo a boca, mostrando o piano de graça?

 

Não é novidade para ninguém que a cordialidade não faz parte do script, foge à normalidade de uma cidade na qual não existem “outros”, e sim “terceiros” e “estranhos”, e destes como já avisa o caixa eletrônico, convém não aceitar ajuda.

 

Esse é princípio básico do manual de sobrevivência de qualquer urbanóide que se preze: tenha receio de tudo e de todos até prova em contrário.

 

 

A exceção que confirma a regra normalmente se dá quando alguma felicidade nos toma de assalto. Aí a gente sai dando bom dia a torto e a direito, sorri pra todo mundo, gosta de conversa em elevador, não surta quando o computador encrenca, não vira bicho no trânsito e chega a se sentir tão bacana, tão civilizado, que se o poder de melhorar o mundo inteiro por decreto existisse, certamente seria o cara que carimba o “cumpra-se”.

 

Sim, eu sei que as coisas não são “preto ou branco”, “isso ou aquilo”, mas como negar que ninguém é perfeito e que a vida não é justa?

 

Não dá mesmo pra ficar sorrindo o dia inteiro. A não ser que o sujeito já esteja dando tchau pra cocô. É fato.

 

O negócio é tocar o barco, procurando se aproximar de coisas positivas, antídotos para sobreviver ao primeiro jornal. E foi numa dessas procuras que vim parar no “Assim como você”.

 

O efeito positivo causado pelas histórias de vida inspiradoras de um monte de gente que, não bastasse superar obstáculos impressionantes, não abre mão de ser vista como realmente é, ou seja, pessoas com bagagem, com virtudes e defeitos iguais a quaisquer outras. Apesar do desrespeito diário que é a falta “da tal” acessibilidade, não se fazem de vítimas e tão pouco esperam favores.

 

 

 

Eu admiro e quero aprender com essa postura. Como é que pode alguém que tem sua cidadania sistematicamente desrespeitada, ou seja, é discriminado a partir do momento em que “sai às ruas”, ter tanta vitalidade? Lutar sem perder o... sorriso?

 

Pois é, será que o sorriso do desconhecido no final das contas é justamente o que mais vale a pena, seja aqui ou em qualquer outro lugar? Vale a aposta de deixar o espírito desarmado?

 

Cara, tenho sentido (e não achado) que sim. Afinal, eu não lhe conheço, mas me sinto seu brother todo dia em que seu estilo ímpar de escrever, seu exemplo e de todos por você retratados me faz pensar e sorrir.

 

A maioria das pancadas do “primeiro jornal” continua lá para todos nós porque deficientes são todos os setores da nossa sociedade. Mas como diz “o povo do Superação”: “Estamos na rua. Na calçada é impossível”.

Malandro, isso quer dizer muita coisa. Obrigado a todos

Escrito por Jairo Marques às 10h59

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Casa da Justiça ou da mãe Joana?

“Pípous” (temos muitos leitores nos exterior, então, tenho que falar em inglês também ), dêem uma olhada nas cenas abaixo. Elas foram registradas no Fórum Criminal de São Paulo pelo leitor Kiyomori Mori, que é advogado e virou um fiscal assíduo para este blog e para o respeito aos deficientes físicos.

 

 

 

 

Num entenderam? Eu explico, afinal, sou um “minino bão”. Na primeira foto, é revelado que as vagas exclusivas para deficientes estão todas lotadas. Ok, pode até ser, né, não? A gente dá trabalho, mesmo, e vai tudo parar na Justiça .

 

Na segunda imagem, porém, o Kiyomori flagra uma advogada que acabara de deixar o carro na vaga reservada. Tão vendo ela caminhando, de boa, com uma "brusinha" vermelha? Não vejo cadeira de rodas, muletas, bengala, cão-guia, nada. Beleza, né?

 

Me espanta o fato de não haver respeito ao nosso direito às vagas reservadas num lugar onde se aplica a lei. Ali circulam promotores, juízes, procuradores, rábulas. Ou seja: se eles não mandam “prender”, não mandam rebocar, não mandam autuar quem está desrespeitando o direito do outro, quem vai fazer? Não posso acreditar que na casa da Justiça quem manda é a mãe Joana.

 

 

 

Nestas outras duas fotas, se vê claramente a marcação da vaga e o carro. Pode até ser que a pessoa que tenha estacionado esteja com uma limitação de movimento temporária, uma perna quebrada, por exemplo, né? Bem, neste caso, coloque escrito em um papel esta situação e cole no pára-brisa.

 

Cadeirante, tenho certeza que não é. A gente nunca compra este tipo de carro porque, me digam, como vamos tirar a cadeira da caçamba? . Se fosse deficiente, tinha obrigação de colocar o selo indicativo, como este que colo abaixo!

 

 Vocês reclamaram, e o posto resolveu!

 

Se lembram da história que contei sobre a viagem que fiz de carro voltando das terras que a minha família tem embaixo das unhas, lá no interior ? Não? Leia aqui, então.

 

Na última sexta-feira, o gerente geral do posto Graal de Bauru, o José Carlos, me ligou e pediu formalmente desculpas pelo ocorrido no banheiro, que tava cheio de tralhas. E mais: ele disse que vai fazer uma ampla reforma no local para que TUDO fique bem adaptado para qualquer deficiente físico.

 

Ele me convidou para ir até lá e passar dicas para as obras. Como não tenho planos de ir por aquelas bandas tão breve, sugiro que algum cadeirante ou deficiente da cidade vá até o posto e se disponha a apontar o que precisamos.

 

Pedi para ele documentar o que me disse por email, o que ele fez prontamente. Povo, a grita de vocês faz efeito!!! Quem quiser mandar as dicas de acessibilidade pra ele por email, segue aqui o contato:  postosemlimites@uol.com.br

Escrito por Jairo Marques às 11h09

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As criaturas da noite

Meu povo, vou novamente (como é bom ter um blog pra chamar de seu) divulgar aqui o espetáculo “Noturno Cadeirantes”, que terá as últimas apresentações desta temporada no próximo final de semana, dias 02 e 03.

 

 

 

O tio foi no último sábado assistir e levou com ele uma médica, afinal, como eu sabia que era super emocionante, eu poderia passar mal, né, não? (quem acompanha o blog desde o começo, que tire suas conclusões )

 

Graças ao meus contatos imediatos de terceiro grau, fiquei num lugar mega ultra bom e pude acompanhar tudo bem de perto. Mas, quem viu lá da cozinha, também saiu derretido “ingualzinho” a mim. E o teatro tava lotado, bem lotado!

 

 

 

Em certo momento, eu não sabia se eu ria, se chorava, se ria e chorava, se aplaudia, se vibrava, se gritava que nem a Priscila Rainha do Deserto, se deixava toda aquela luz e toda aquela garra daquele povo totalmente “Assim como você” cravar em mim uma noite especial, pra vida toda.

 

O “Noturno Cadeirantes”, para quem tá chegando agora no blog, é um espetáculo teatral/musical totalmente protagonizado por deficientes físicos. Acompanham a trupe, intérpretes cujas vozes estremecem a alma da gente por horas e horas a fio.

 

Confesso a vocês que eu não esperava tudo o que vi e ouvi. E a cada cena que se fechava, aquela gente que se deu de presente ir àquele espetáculo ia ao delírio fosse com os movimentos sutis de meninas lindas, fosse com um japonês que, com certeza, é parente do bozo, como eu, fosse com um careca maluco com trejeitos divertidíssimos.

 

 

 

 

E os arrepios seguiam depois das caras de mau de um cidadão cheio de dreadlooks, do encanto do sorriso de uma moça pequenininha numa cadeira de rodas que parecia grandona, da voz forte e da presença marcante de um cara que é quase mais bonito que eu , dos magníficos efeitos de luzes que faziam flutuar no ar pessoas que alguns vêem como “presos” a uma realidade “dura”.

 

 

 

 

Vejo tanta coisa de qualidade abaixo do razoável ser patrocinada por bancos milionários, por ricas estatais do governo, por empresas multinacionais de capital que beira ao trilhão e o “Noturnos Cadeirantes” ser ajudado com a força de patrocinadores de médio porte.

 

Uma pessoa me disse que é porque ninguém se interessa de cara por gente em cadeira de rodas fazendo “firulas”, que todo mundo imagina que será algo na linha do melodrama do pobre deficiente.

 

 

Quem pensa assim, está totalmente enganado. A apresentação fervilha na cabeça e no coração da gente. É arte, é teatro, é música de ótima qualidade. Por isso, divulgo com todo orgulho, mais uma vez, neste diário!

 

 

Se vocês vibram com as histórias que coloco aqui e riem de perder o fôlego com os “causos” que conto, aceitem o desafio de assistir o “Noturno Cadeirantes”.

 

 

As fotos que ilustram o post são do Rapha Bathe

 

Onde que é, heim? No teatro Dias Gomes, que fica na Domingos de Moraes, 348. Fica dentro de uma galeria e tem um estacionamento bem em frente. É pertinho da estação Ana Rosa, do metrô, em São Paulo.

 

Quanto que morre? Na hora, você paga R$ 40 contos, mas, se entrar no site (clica aqui) e comprar antecipado, paga só R$ 15 roiaus (Menos que a entrada de um cinema)

 

Quando que rola? Na sábado, dia 02, às 21h, e no domingo, dia 03, às 20h

 

Que mais? Telefone (11) 55757472

Escrito por Jairo Marques às 20h47

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Nós e as crianças

Criança é sempre um desafio para nós da Matrix de quem tem alguma deficiência física. Os “minino e minina” são tão diretos, lógicos e verdadeiros em seus questionamentos que desconsertam qualquer um.

 

“O tio você ‘quebô’ a peina? Pô que você não levanta daí pra eu dar uma voltinha no seu carrinho? Tá dodói?” As perguntas para os cadeirantes são geralmente estas. Com pequenas variações do tipo: “Você ta com peguiça e só anda na cadela é? Pô que você tem essas rodinhas? Você tá de castigo?”

 

Quando a molecada dispara a perguntar, e isso acontece em qualquer lugar, em qualquer hora seja no supermercado, na igreja, no hospital, numa festa, não para mais...nunca mais.

 

 

 

Como todo mundo sabe, criança é mesmo curiosa e quando ela vê algo ou alguém que esteja fora da realidade que ela conheça, aí, ferrou-se. Ela vai querer descobrir os detalhes daquele ser que é diferente!

 

O maior desafio nem é o menino doidinho que insiste que eu saia da cadeira para que ele brinque de Airton Senna. O maior desafio é fazer com que o pai ou a mãe encare a situação com maior naturalidade e ajude neste processo de mostrar que existem pessoas que não andam, não falam, não escutam.

 

“Menino, cala a boca! Menino não tá vendo que o moço é doente? Minha filha volta aqui e pára com isso. Filhinho, o moço vai ficar bravo com você”.

 

Entendo que a situação pode ser complicada, mesmo. Nem todo cadeirante é de boa como o tio , nem todo cego quer que brinquem com seu cão guia (isso é bem raro), nem toda pessoa pequena quer ficar dizendo que ele já cresceu, sim, e não tem mais cinco anos.

 

Porém, acho que, quando houver abertura do deficiente, o melhor é mesmo deixar rolar um papinho. Uma explicação, uma interação entre o andar e o não andar, entre o diferente aos olhos da criança e a verdade de fato.

 

 

 

Quando a reação é a de evitar o deficiente, por experiência, própria, digo que será um constrangimento puro. O moleque vai apontar o dedo, vai querer fugir para ir ao encontro do cadeirante, vai ficar com medo ou vai passar horas perguntando o porquê de aquela pessoa estar daquele jeito.

 

No meu caso, quando sou abordado, procuro explicar que fiquei na cadeira porque não tomei as gotinhas. Em geral, a criança fica quietinha um tempo, pensando, e depois sorri, como se dissesse: “tudo bem, tio!”

 

E eu deixo que me empurre um pouquinho para brincar de “corrida”, deixo que toque a cadeira, que sente no colo, que aperte as “peininhas”. A interação é necessária porque a criança quer ter certeza que aquela pessoa é mesmo igual a ela, com algumas diferenças.

 

Uma amiga, na semana passada, me contou que cadeirantes foram até a escola da filha dela darem uma palestra e que a menina pirou o cabeção . Que ela conseguiu entender as diferenças entre as pessoas e que, tem certeza, que a filha aprendeu muito.

 

O que não adianta é forçar uma situação. Para ser legal, deficiente, criança e pais precisam estar dispostos a interagir de forma a todos saírem com um sorriso.

 

Tenho muitas histórias de crianças, mas hoje meu tempo tá corrido demais, meu povo. Escrevo mais adiante.

Escrito por Jairo Marques às 08h22

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Um sorriso para Malu

Todo mundo que passa por esse diário tem sempre uma grande história relativa à inclusão. Com a Malu, Maria Luiza, de cinco anos e meio, não vai ser diferente, é claro. E ela abre alas como a primeira personagem do “Assim como você” que ainda é criança!

 

E ela é escorpiana como eu, risonha como eu, cadeirante como eu, santista como eu (ela nasceu em Santos, e eu sou torcedor do Santos), e é linda .... (tá, tá bem, eu sou apenas bonito )

 

Malu nasceu com uma má-formação no sistema nervoso central. Precisa de cuidados especiais 24 horas por dia de diversos profissionais e de pais com dedicação acima da média!

 

Ela tem de usar um respirador artificial e se alimenta também de uma forma especial, diretamente pelo estômago. Como é de se supor, ela não tem uma rotina de criança baladeira! Porém, nada disso impediu essa coisa querida de ganhar uma passarela da moda. Eu explico “procêis”, porque eu sou um menino “bão”.  

 

 

 

A mãe da Malu, a Lenarde Nascimento dos Santos Mendes, sempre comprou as roupas da filha na mesma loja, desde quando ela era bebê. É uma grife dessas concorridas do país com modelos que encantam e deixam as crianças ainda mais irresistíveis pra gente querer apertar.

 

“As vendedoras sempre pediam para eu levar a Maria Luiza até a loja. Elas não a conheciam e também não sabiam da deficiência dela. Sair à rua com ela é muito complicado e é preciso muitos cuidados. Evitamos ao máximo”, me contou a Lenarde.

 

Na última vez que voltou à loja, a mãe foi surpreendida pela gerente: “Vamos ter um desfile com a coleção de inverno e queremos que a Maria Luiza seja uma das modelos.”

 

“Eu não aceitei e também não expliquei nada na hora. Mas, depois de alguns dias, me ligaram em casa insistindo novamente para que ela participasse. Aí eu contei sobre a situação da Maria Luiza, que ela não poderia participar, que usava cadeira de rodas e precisava de cuidados especiais”.

 

Meu povo, agora, “arrupiem”. Os representantes da loja voltaram a ligar para Lenarde pedindo que ela levasse a Malu para desfilar, que a cadeira não tinha problema nenhum, que ela era uma criança como outra qualquer. “Falai” povo, isso é inclusão, né, não? Isso é ter sensibilidade para saber que todo mundo é bonito, é feliz e é modelo... a sua maneira.

 

“Conversei com os médicos dela, que autorizaram e disseram que não haveria risco nenhum se tomados todos os cuidados. Discuti muito a situação com meu marido (o engenheiro José Mauro Mendes) e chegamos à conclusão que ela tinha esse direito. Afinal, a vida dela é tão privada de tudo.”

 

“Eu tinha muito medo da reação das pessoas vendo a Maria Luiza. Como elas iriam reagir? Ficariam com pena ou aceitariam? As mães iriam ficar com medo de ela ter uma doença transmissível?”

 

E há quase um mês, Maria Luiza saiu de casa, com seu respirador e com toda a logística que precisa para ser “Assim como você”, e foi para a passarela onde, evidentemente, brilhou e foi recebida com emocionantes aplausos e centenas de disparos de fashs de câmeras fotográficas.

 

 

 

“Criança não tem preconceito. Elas ficaram encantadas, fizeram várias perguntas. E pegavam no cabelinho dela, tocavam na perninha da minha filha e diziam que ela era linda e que logo, logo ela iria melhorar e voltar a andar. A alegria da Maria Luiza estava na cara. Ela adorou, sorriu o tempo todo”.

 

 

O sucesso de Malu foi tão grande que ela já convidada para participar do desfile de verão. “Ainda estamos pensando se vai dar certo. Ainda faltam acessos nas ruas e no próprio evento para que o conforto dela seja maior. Mas, acho que ela irá, sim”.

 

Tomara que as condições sejam mais fáceis para que a Malu continue nas passarelas. O meu sorriso hoje vai para essa encantadora menina. E o seu?

 

Escrito por Jairo Marques às 22h51

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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