Jairo Marques

Assim como você

 

As cartas

Povo, eu continuo, felizmente e mesmo com a greve dos Correios, recebendo muitas e muitas cartas . E é tão legal de ler e ir imaginando o caminho que a mensagem fez da cabeça do leitor até a minha caixa de email.

 

Como este diário é de todo mundo, nada mais justo do que compartilhar algumas mensagens com temas mais plurais, né, não?!

 

Começo hoje, então, a publicar emails que tem um assunto em comum: gente de fora da Matrix de quem tem alguma deficiência, mas que acompanha o blog todos os dias. E é muita gente!

 

O texto que abre a série é da Malu Filezio, uma verdadeira coisa querida e que tem um diário voltando a questões ambientais (tudo a ver, né? Tem gente que pensa que deficiente é tudo árvore, que fica parado )

 

Adorei a forma que ela explica como se tornou “dependente” da gente. Boa leitura!

 

 

Eu não sou exatamente assim como você

 

Jairo, meu querido

 

Acompanho seu blog desde que ele nasceu. Meus comentários normalmente são curtinhos, não porque os assuntos não mereçam um comentário mais elaborado, mas porque sou uma aluna e estou aprendendo. Portanto eu não achava que poderia acrescentar alguma coisa ao texto que você postava.

 

Porém, percebi que eu posso, sim, acrescentar alguma coisa e resolvi mandá-lo um e-mail.

 

Como já disse uma vez, eu não sou exatamente assim como você e muitos dos comentaristas do blog. Em mim, aparentemente, tudo (tirando o tico e teco) funcionam nos conformes.

 

Então, por que eu acompanho seu blog? Confesso que na primeira vez foi por curiosidade, depois porque eu ria muito com sua maneira de escrever e depois foi indo, foi indo, e hoje é por tudo e mais um pouquinho. 

 

O seu blog tem sido maravilhoso em minha vida, tem me dado lições, mas, principalmente, tirou o buraco que havia entre pessoas como eu, que não são exatamente assim como você, e pessoas assim como você.

 

Hoje, quando encontro com alguém que tenha alguma deficiência me sinto muito mais à vontade. Vou tentar explicar o porquê, e me desculpe se eu meter os pés pelas mãos na minha tentativa, sou ótima nisso (rsrsrs)!

 

Manja um namoro no começo? Imagine que eu acabei de conhecer um cara gatíssimo (meu marido que leia isso...), e ele me convida para sair (meu marido que leia isso parte II).

 

 

 

Primeiro encontro...aquela coisa...Saímos para jantar e ele me leva para um restaurante chiquetérrimo. Já imaginou? Quero ser gentil e agradável, mas eu mal conheço o rapaz, estou num restaurante que pede um conhecimento e traquejo (nossa...) que eu não tenho. O que acaba acontecendo? Fico na minha, meio constrangida, falando pouco para evitar falar besteira...ou falando muito e conseqüentemente falando muita besteira.

 

É esta sensação que eu tinha ao me deparar com o novo, com alguém que não estava numa situação exatamente igual a minha.

 

E o que você me ensinou com o seu blog? Me ensinou a usar todos os talheres e copos da mesa. Me ensinou que posso ficar na minha quando eu não quiser falar, mas que também posso... rir... falar besteira, contar piada e ser feliz. Mas, o melhor, foi aprender que posso, ou melhor, devo ser eu mesma.

 

Você, sua cadeira e todos os seus amigos que já passaram por aí, de alguma forma, hoje, fazem parte da minha vida.

 

Quando estou num restaurante, em corredores de supermercados, na rua... Hoje presto atenção no espaço, em passagens, rampas , banheiros...

 

Quanto às críticas a maneira como vc escreve. É esta maneira que faz com que possamos nos sentir em casa e à vontade. A idéia é esta, não é?

 

Sinto pelas pessoas que não tem sensibilidade para perceber a grandeza do seu trabalho. Em vez de aprender com ele ficam se pegando em detalhes que não tem nada a ver.

 

Parabéns Jairo, e muito obrigada por tudo.

Salve Jairão!!!!

Beijãozão,

Malu Filezio

Escrito por Jairo Marques às 22h51

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Flagrantes & Delírios

Hoje eu coloco três imagens que “surrupiei” em blogs de gente que vive na Matrix. São três flagrantes e algum "delírio" que ficaram ótimos e divulgo aqui também. Afinal, quem não cola não sai da escola, né, não?

 

Calçada, que calçada?

 

 

Essa foto é do Max Perdigão. Que abriu um diário há pouco. Ele é arquiteto e pretende falar bastante sobre acessibilidade.

 

Olhem isso que alguém chama de calçada, lá em “Belzonte”, em Minas. Quer testar passar por ali com uma cadeira de rodas? Empresto a minha! Acho que nem a pé o cabra consegue escalar tranqüilo esse “diacho”.

  

Um banheiro pra chamar de seu

 

 

O Evandro, que já esteve por aqui contando sua história, arquitetou esse banheiro perfeito pra um cadeirante e divulgou lá no cyber espaço dele. Pô, é quase do tamanho do meu apartamento!

 

Gostei do negócio. Dá pra fazer uma balada dentro dele, vocês não acham?

 

 Beatles... depois da batalha de Waterloo

 

 

 

Esta imagem incrível é do blog da Tabata Contri, aquela "dilícia" que também já “zambetou” aqui pelo Assim como você. Eu adorei essa foto,  que ela tirou na praia, junto com amigos. Dei muita risada sozinho com ela! Fiquei pensando sobre o que se passou na cabeça dos motoristas dos carros que tavam ali parado, esperando a tropa passar.

 

Será que alguém achou que tava pegando fogo no hospital?

 

Compõem o flagrante “parecidíssimo” com a famosa foto dos Beatles na capa do disco “Able road”: a Carol (com a Clara no colo), a Selma, o Sidão e "as própria" Tabata.

Escrito por Jairo Marques às 23h11

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Um lugar chamado... elevador

Responde com “sinceridadchi” pro tio: Você tem tara por elevador? É daquelas pessoas que não anda em uma escala rolante, nem sobe alguns degraus mesmo com um decreto do Lula? Tem fetiche, né? Lugar fechadinho, cheio de ‘butão’ pra “modi” apertar....

 

Eu não tenho dúvida que 90% da população brasileira adora um elevador. Isso porque, como cadeirante, é uma luta conseguir espaço dentro de um, sobretudo em shoppings, prédios públicos e grandes lojas.

 

“Sobe?”... “Você tá subindo, benhê? (não tô aqui vendo os números se acenderem) Espera ai que eu já volto que agora tá lotado. Fica quietinho ai.... Ainda tá lotado. Espera que eu já volto”. Esse diálogo insólito com ascensoristas eu já tive diversas vezes.

 

“Chega mais pro cantinho pra caber a cadeirinha dele, senhor. Iiiiissso, issso. Cola mais o ‘carrinho’ dele ali na parede que dá. Aí, agora dá.. num deu, num deu... espreme mais. Empurra. A senhora pode 'dismagrecê' a barriga pra dar mais espaço?”. Na hora desses sufocos, eu sempre desisto e saio do elevador. Num dá, né?

 

 

Eu acho que deveria haver uma lei que determinasse que elevadores em lugares de grande movimento e com outras opções de acesso, como escadas rolantes, deveriam ser exclusivos pra deficientes, gestantes, pessoas conduzindo carrinhos de bebê, idosos e pessoas com mobilidade reduzida momentânea (com uma perna quebrada, por exemplo).

 

E não adianta que as pessoas não se tocam nunca que eu não tenho outra maneira para acessar os andares superiores ou inferiores. Se tá lotado e eu quero entrar, é muito raro que alguém desça e ceda o lugar. Fica todo mundo com aquela cara de paisagem ou disfarçando que não está vendo que alguém que não tem outra opção de acesso precisa entrar no treco.

 

Já cheguei a esperar 15 minutos para conseguir pegar um elevador. As soluções, às vezes, são “bizonhas”. “O senhor tá subindo? Olha, então é melhor você descer agora comigo até o último subsolo porque quando eu voltar vai ta chapado de gente e não vai conseguir entrar, viu”.

 

Povo, ceda a sua vez para quem realmente precisa desse veículo, vai. Tenho certeza que é mais rápido esperar por outro elevador do que esperar por um ônibus adaptado nos pontos de São Paulo.

 

Vencido o desafio de entrar no caixote de aço, a batalha da gente da Matrix ainda não está totalmente vencida. Quando não conseguimos entrar no elevador vazio ou ser um dos primeiros a entrar, quem é cadeirante ter que ir... de costas pra porta!!!! Gente, é demais. Todo mundo de frente pra saída e eu de costas. Imaginou a cena?

 

E tem mais, quando o "veículo" vai lotado, tem sempre alguém que se acha no direito de se escorar na cadeira, como se fosse assim, um balcão de bar, manja?

 

 Aqui na Folha isso acontece direto na hora do almoço, quando o rush nos elevadores é forte. Pela manhã, é bem mais tranqüilo na chegada. Afinal, eu entro super cedo pra passar o cafezinho do pessoal que trabalha mesmo, né?   Aí, geralmente, só tem eu e alguma das meninas do 10º andar, onde fica o “telemarqueti”.

 

O que é sensacional é que, depois do blog, toooodas me conhecem e fazem assim: “Bom dia, Jairo, tudo bem?” e dão uma risadinha. Puxa, eu num sei o nome de ninguém é gente demais! Mas, elas, gentilmente, apertam o botão do 4º andar pra mim, onde fica a redação e dizem que tão curtindo o “Assim como você”.

 

  

 

Ainda tenho muito pra falar de elevador e deficientes. Tem aqueles “exclusivos” do metrô, já viram? Você aperta um botão para se comunicar com o operador que, raramente, tá na cabine? E tem aqueles que são abertos, que só cabem mesmo a cadeira. Eu me sinto a verdadeira rainha da Inglaterra neles.  Mas isso eu conto "pro6" depois!

Escrito por Jairo Marques às 22h40

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O menino cortador de grama

A dica de hoje vem lá dos "próprio" Estados Unidos. A leitora Silva Dutra, que mora na Flórida, viu esse vídeo na CNN local e sugeriu ao blog.

Ele é bem curtinho e narra a história do menino Dylan Everage, de 12 anos e com 82 cirurgias na lomba . Ele mora numa cidade no Estado de Ohio e tem paralisia cerebral. Como todo moleque, ele quer ganhar uns dinheiros, né, povo!

A solução encontrada pelos pais para que ele se sinta igual a qualquer menino de sua idade foi inusitada e emocionante!

 

A Vivian Retz, da Folha Online, fez o melhor possível para colocar legendas para vocês. Se ficarem um pouquinho perdidos é só ver novamente que vão compreender tudinho! A tradução é da Manu Azevedo!

 

Escrito por Jairo Marques às 08h07

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A vida do Rodrigo é uma "barra"

Não tenho dúvidas de que muita gente que passa na rua e vê o personagem de hoje, o Rodrigo Tadeu Silva Ferreira, de 35 anos (ele jura que tem 25), deve pensar: “Nossa, a vida dele deve ser uma barra”.

 

E, realmente, é! Cadeirante há dez anos, depois que deu uma pirueta nervosa  (um duplo mortal de frente, no solo, duas voltas no ar) e sofreu uma queda, que acabou lesionando sua coluna, ele continua o atleta que sempre foi e ainda mais: ensina a teoria das barras paralelas, das barras fixas, das argolas, do cavalo com alças, do solo, da trave.

 

Rodrigo é professor universitário de um curso “moleza” para um deficiente físico: “EDUCAÇÃO FÍSICA”! “Arrupiou”? Ele já disputou mundial de natação, joga tênis, faz musculação, curte baladas raves (já fiquei cansado), mora sozinho há quatro anos e é um apaixonado pela vida e pelas ‘mininas’... quase todas que chegam perto  .

 

Mesmo após o acidente, esse paulista de Mogi das Cruzes não abandou sua paixão pela ginástica artística. Esporte que praticou por dez anos, até o momento do acidente.

 

 

Eu me surpreendo demais com essas “figuras” que encontro na Matrix. Aceitar os limites do próprio corpo e se expor a alunos que pretendem aprender diversas possibilidades do FÍSICO não é pra qualquer um.

 

“Em 1993, entrei na faculdade de Educação Física do Clube Náutico Mogiano, aqui em Mogi das Cruzes e, a partir daí, iniciei na área com escolinhas de ginástica artística e natação. Me formei em 1996.

 

Logo após de formado, sofri o acidente, em 1997. Me afastei de tudo para fazer reabilitação, que durou três anos. Em 1999 comecei a nadar e, em 2001, comecei a competir participando de alguns campeonatos regionais e brasileiros.

 

Em 2003, tive a oportunidade de uma convocação para a seleção brasileira e fui disputar um campeonato Mundial na Nova Zelândia.  Associado a isso, em 2000, comecei a acompanhar as aulas na faculdade onde me formei como professor monitor convidado. Em 2004, fiz especialização e, no ano seguinte, comecei a atuar como professor-assistente nas disciplinas de manifestações gíminicas e ginástica artística.”

 

Mais eu vez, posso garantir a vocês que, ao final da entrevista que fiz com ele, seu dia vai ser diferente e você irá ficar pensando se não é hora de cuidar melhor da sua saúde, da sua forma de ver o mundo e ver o outro.

 

Então, arruma a posição da bunda na cadeira, manda as crianças para o “praigraude”, alteia o volume das caixas de som, e conheça mais uma história de gente “Assim como você”, a do boa pinta Rodrigo.

 

 

 

                       

Escrito por Jairo Marques às 07h45

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Assim como você: Os alunos novos, quanto te vêem, devem achar que a faculdade anda meio quebrada, né?

Rodrigo Tadeu Silva Ferreira: Todo início de ano, fazemos as honras da casa e recebemos os alunos novos logo no primeiro dia de aula. Como todo aluno novo e "bicho", que é e assustado pelos veteranos e pelos trotes, num primeiro instante é curioso e assustador ao se deparar com um professor que possui uma deficiência física e usuário de cadeira de rodas. O impacto é muito grande e fico calado até chegar minha hora de falar e contar um pouco da minha historia de vida e esportiva. Aos poucos, vamos interagindo e quebrando os paradigmas de que educação física é apenas para um "corpo perfeito", aliás, educação física é para o corpo humano e não importa sua condição física.

 

Assim como você: O físico do deficiente é geralmente um tabu para os outros. No seu caso, mudaram os limites, mas não mudou a disposição, é isso?

Rodrigo: Realmente tudo aquilo que é desconhecido se torna um tabu, inclusive as deficiências seja ela física ou não, o que gera diversos preconceitos. Mas há a possibilidade de diminuir ou acabar com esses preconceitos dando oportunidade para que as pessoas conheçam e tenham contato buscando informações e passando a conhecer a pessoa, a deficiência, as limitações e as potencialidades. Minha vida ficou um pouco mais limitada do ponto de vista físico. Mas também, estas limitações impõem situações para nos adaptarmos e superar obstáculos. Jamais imaginei ter de reaprender a nadar, nunca, antes do acidente, pensei em pegar uma raquete de tênis que hoje é uma das minhas atividades esportivas.

Também tirei habilitação que foi outra conquista. A necessidade de me movimentar e recuperação que tive com a complementação  da reabilitação por meio da atividade física me fez seguir na profissão enxergando o quanto é importante na vida de qualquer pessoa e em qualquer condição que ela se encontre. E um pouco de sorte também de ter pessoas ao meu lado que sempre me incentivaram e não deixaram que eu me afastasse da área.

 

 

Assim como você: A gente acha que quem ensina atividade física precisa fazer junto para o aluno ver e fazer direitinho. E ai?

Rodrigo: Nossas aulas na faculdade e especificamente nas disciplinas que atuo (manifestações gíminicas e ginástica artística) são teóricas, práticas e práticas de ensino. As aulas teóricas, sou eu quem as elaboro e aplico. Elas irão preparar e complementar para as aulas práticas e práticas de ensino.

As aulas práticas, que são de execução para que o aluno possa experimentar e vivenciar o movimento ajudando na fixação do aprendizado, são aplicadas por outro professor e eu faço o acompanhamento com orientações verbais da forma mais didática e pedagógica possível para que o aluno entenda sem que eu precise de demonstrar os exercícios.

No começo era um pouco difícil por não haver a chance de mostrar fazendo, mas, depois, fui me adaptando e conseguindo me expressar melhor verbalmente e aprimorando a capacidade de comunicação com resultados bem positivos como está sendo até hoje.

 

Assim como você: Deficiente físico tem de fazer atividade física? Eu aperto os botões do controle remoto, levanto copo de chope e brinco "cas meninas", serve?

Rodrigo: A atividade física, movimentar o corpo é necessidade de todo ser vivo, animais e humanos. Desde a pré-historia até os dias de hoje o movimento humano sempre se fez presente e quando se fala da pessoa com deficiência, principalmente o usuário de cadeira de rodas, é de extrema importância. E não é porque a cadeira de rodas traz uma falsa imagem de inatividade que a atividade física é dispensável. Muito pelo contrário, pois, a atividade física é manter a qualidade de vida e, quem sabe, até aumentar.

Ficar sem andar, sem caminhar não é o mais difícil. Difícil é evitar todos os problemas e doenças possíveis que acompanham a lesão, como aquelas escaras, calcificações, problemas respiratórios, renais, etc. Quem vê a gente na cadeira de rodas todo arrumadinho, bonito seja num shopping ou numa balada não tem idéia do quanto é uma batalha diária.

 Recomendo atividade física para todas as pessoas e falo por experiência própria e como profissional da área. Gosto de praticar atividade física, mas não sou nenhum viciado ou compulsivo. Não deixo de tomar um choppinho, sair pra balada, curto raves e viajo ao som da música eletrônica.

 

 

Assim como você: Tem gente que tem preguiça até de subir escada, quanto mais ir a uma academia. Você avalia que o fato de ter tanta vitalidade incentiva às pessoas ao seu redor a se mexerem mais?

Rodrigo: Sem duvida que sim porque muitas vezes aprendemos e ensinamos pelo exemplo. Nada mais impactante que o olhar e a vontade de fazer igual ou pensar igual. ‘Se ele que é usa cadeira de rodas faz eu também posso’. Fico feliz quando me tomam como exemplo. Na faculdade mesmo onde trabalho e pratico natação há outros deficientes. Pra mim é um exemplo ver pessoas cegas nadando, algo que não consigo me imaginar nos dias de hoje. Pra mim é normal nadar só com os braços, mas das vezes que fechei os olhos para imaginar e comparar, achei difícil. Ou seja: isso também me incentiva a não parar de me movimentar com aquilo que tenho como potencial.

 

Assim como você: Você já era formado quando teve a lesão. É possível um cadeirante encarar a carreira de educação física?

Rodrigo: Sim, tive a sorte de me formar antes de sofrer o acidente e ficar paraplégico. Entrei na faculdade de Educação Física quando ainda o vestibular era composto de prova teórica e provas praticas eliminatórias. Seria algo impensável e altamente seletivo. De uns anos para cá, as provas práticas no vestibular foram abolidas e assim se deu oportunidade para que qualquer pessoa possa escolher como carreira a Educação Física. Já tive dois alunos com deficiência, sendo um amputado de braço e outro de perna. Tenho um amigo que era meu companheiro de equipe de natação que está se formando esse ano e outro amigo que foi meu companheiro de seleção brasileira que iniciou a faculdade esse ano.

Tomar consciência de que o deficiente físico tem potencial para ser educador físico e poder ser um bom profissional no mercado é praticar a verdadeira inclusão. A vida na cadeira de rodas não é fácil, mas também não é o fim do mundo e cada um saberá o que fazer para enfrentar os desafios que irão surgir durante o curso e na profissão. Cadeirante que é cadeirante é guerreiro, é desafio vencido a cada minuto, a cada dia.

 

 

Assim como você: Um atleta sempre nos passa a impressão da "perfeição". Pra você, o que é ser um atleta e o que é perfeição?

Rodrigo: Antigamente eu só tinha uma referência que era a de não ter um olhar como pessoa deficiente. Enxergava tudo como normal. Nunca me passou pela cabeça ser usuário de cadeira de rodas e enfrentar mais desafios que qualquer pessoa enfrenta no seu dia a dia. Hojen meu conceito de perfeição é fazer aquilo que traga satisfação, felicidade, bem estar físico e emocional.

Acredito que ser atleta vai além das atividades esportivas com conquistas e vitórias passageiras. Existe algo muito mais importante que um pedaço de metal que são vitórias do dia a dia. Vejo por aí pessoas com diversas limitações que jamais irão participar de uma competição esportiva, mas que buscam para sua vida a perfeição. Eu nado, jogo tênis e já fui pra fora do Brasil, mas pintar um quadro com os pés ou com a boca, pra mim, é algo de extrema perfeição, de beleza, de superação e longe das minhas habilidades. Cada um deve ser como é, aceitar e buscar sempre o melhor como pessoa.

Escrito por Jairo Marques às 23h53

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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