Jairo Marques

Assim como você

 

A convenção da ONU e eu

Falei brevemente para vocês na semana passada que estava rolando no Brasil um processo de ratificação de uma convenção da ONU que prevê uma série de compromissos dos governos de diversos paises com as pessoas com deficiência, né, não?

 

Pois ontem, sem a presença do presidente Lula, que tá viajando, o Brasil ratificou o documento que tem 50 artigos e dita, entre outros, que os deficientes terão de ter melhores condições de educação, saúde, emprego e acessibilidade. Para quem quiser ler na íntegra, basta clicar aqui.

 

Evidentemente que não posso ser contrário a um acordo mundial que pretende dar mais qualidade de vida ao povo da Matrix a qual pertenço, claro, porém, de lei e regras meu saco de Papai Noel já está cheio.

 

 

Pra mim, que me perdoem as pessoas que tanto trabalharam por essa conquista, aqui no Brasil ela vai servir como mais uma muleta para políticos picaretas darem respostas assim durante as eleições:

 

“O que o sr. pretende fazer para tornar a cidade mais plena para pessoas com deficiência?

 

“Avançamos muito no que diz respeito aos deficientes físicos assinando a convenção da ONU. Agora vai, meu povo, agora vai!”

 

Concordo que foram longas e longas reuniões em Genebra discutindo o tratado à base de muito cafezinho e debates acalorados. Mas, para mim, seria mais útil fomentar ações aqui no Brasil, mesmo.

 

Está na Constituição Federal o direito ao trabalho, o direito de ir e vir, o acesso universal à saúde e à educação. Tá tudo escrito. Vou trazer para vocês, em detalhes, cada uma das legislações.

 

Mesmo assim, a Folha está sempre relatando o drama de mães que têm de carregar os filhos no colo para vencerem os degraus das escolas públicas de São Paulo; alguns donos de bares e restaurantes não estão nem aí para fazer um banheiro decente onde eu possa mijar como qualquer outra pessoa; os empresários seguem descaradamente afirmando que não há deficientes para preencher as vagas nas cotas reservadas e os governos não abrem mão de impostos sobre produtos que podem facilitar a vida de quem necessita de alguma adaptação para viver mais plenamente.

 

E a gente vai ter, agora, mais regras? Mais compromissos? O tio hoje dormiu com a cueca apertada .  Me desculpem o tom raivoso, mas o que muita gente precisa ter não são regras, não, é vergonha, mesmo.

 

 

A gente precisa é de políticos que cumpram o que já está escrito. A gente precisa de uma sociedade mais consciente da nossa existência e das nossas necessidades. A gente precisa que a Justiça aja com rigor diante da discriminação, dos desvios de conduta diante dos desrespeitos ao meu direito.

 

Tomara que eu esteja completamente errado e, a partir de hoje, muitas ações estejam sendo tomadas em prol de um mundo mais acessível. “Esbravejar aqui é fácil”, devem estar pensando alguns. Concordo. Por isso, eu sou tão chato e sempre reclamo de tudo, até mudar. Neste ano, também, vou participar do protesto do Superação, na Paulista. É tudo um bando de reclamão, como eu .

Escrito por Jairo Marques às 12h46

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Curtinhas...

 

Pelos bares da vida

 

“Pessoais”, o Portal Veja São Paulo fez uma reportagem bastante completa sobre acessibilidade dos principais bares da metrópole.

 

A repórter Érika Caprotti mostra em arte gráfica como é o bar ideal para pessoas com deficiência, ouve depoimentos de freqüentadores da boemia (adivinhem quem está lá, lindo e elegante?) e arremata ouvindo alguns donos de bares que não estão nem ai para essas tais “adaptações”.

 

Vale a pena vocês lerem o que dizem (ou não dizem) os proprietários de requintados botecos de São Paulo. Para alguns, cadeirantes não existem, uma vez que não freqüentam suas espeluncas, para outros, é difícil demais fazer um banheiro decente para todos.

 

Para saberem o que significa cada um dos "numerinhos", vão ter que ler a reportagem

 

Vou ver com o povo do Movimento Superação, que tem alguns membros mais “sangue no zóio” do que eu, se topam ir comigo, em massa, nesses lugares que dizem que deficiente não sai para noitadas. Vai ser massa! Alguém mais se dispõe a ir?

 

Leiam a reportagem completa clicando aqui.

 

Não deixem de ver!

 

Sexta-feira passada, antes de vir aqui para a minha propriedade “rurar” na parte mais ao sul do planeta , fui ao cinema conferir a obra “O escafandro e a borboleta”.

 

O filme é baseado no livro homônimo de Jean-Dominique Bauby (1952-1997), que era editor da revista "Elle" francesa e, aos 43 anos, sofreu um derrame que o deixou quase completamente paralisado, mas plenamente consciente.

 

Tendo apenas controle de seu olho esquerdo, Jean-Dominique aprende um método de se comunicar com piscadelas e passa, com a ajuda de uma paciente escrevente, a ditar o livro de sua vida e de sua experiência.

 

 

 

Como vivo falando aqui no blog de histórias que desanuviam supostos limites e revelam formas de ser feliz e interagir com o mundo diferentes do que o senso comum conhece, tenho certeza que vocês que seguem este trabalho irão gostar e se emocionar um bocado.

Escrito por Jairo Marques às 12h01

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Cadeira elétrica

“Ei, ‘minino’, por que você não compra uma cadeira elétrica?”. Desde que me entendo por gente, e olha que nem faz tanto tempo assim, eu ouço esta pitoresca pergunta. A última vez foi na semana passada enquanto eu tentava almoçar no sofisticado “shopping dos motocas”, que fica pertinho do jornal.

 

Geralmente, respondo assim: “Ah, tio, não tô pensando em me matar, não, viu?! Muito menos torrado numa cadeira elétrica”. Mas os interlocutores são incansáveis conselheiros dos cadeirantes:

 

 

 

 “Mas rapaz vai ser bom demais pra você. Vai descansar os bracinhos, andar mais ligeiro. Coloca, então, um motor de ‘dois tempos’ (não faço idéia do seja isso) nessa aí mesmo que você usa. Sua vida vai melhorar muuuuito. Tem um doido lá perto de casa que tem.”

 

Quando você ta andando de bicicleta no parque alguém pede pra você colocar um motorzinho para facilitar sua vida? Acho que não, né, não? Mas, a cadeira de rodas sem ser “elétrica” perturba muita gente.

 

Claro que entendo que as pessoas estão pensando em algo mais cômodo para mim, não é mesmo? Porém, não são todos os deficientes que necessitam e devem usar cadeiras motorizadas. Há situações em que a cadeira manual é a mais indicada e mais propícia.

 

No meu caso, por exemplo, que tenho paraplegia (sem movimento nos membros inferiores), se eu usasse a cadeira “elétrica”, além de não tá vivo para poder escrever esse blog  , eu já teria virado um tonel de chope ambulante de tão gordinho, teria retraído os movimentos dos meus bíceps de rambo e diminuído meu senso de equilíbrio, de independência.

 

 

A cadeira motoriza é mais indicada para pessoas com deficiência motora mais severa, que tenha dificuldade total de tocar os arcos que dão movimento ao nosso “cavalo”. Mesmo alguns tetraplégicos conseguem se virar sem a cadeira que dá choques .

 

Eu já tive duas cadeiras “com motorzinho” ao longo da vida, todas foram doadas. A primeira delas, ganhei de uma mulher que apareceu na porta de casa, eu era um menino ainda, lindo, como sempre, e desceu aquela espaçonave azul de uma caminhonete.

 

  Povo, pena que naquele tempo não havia máquina fotográfica  e não tenho como ilustrar para vocês. Mas era um triciclo azul, imenso, que mais parecia uma charrete. O banco era feito com aquelas cordas de plásticos que revestem o que, no interior, a gente chama de “cadeira de área”, sabem o que é?

 

E lá ia eu todo faceiro para escola com a minha cadeira que não cabia em lugar nenhum e vez sim, vez sim, me deixava na mão porque a bateria não resistia aos meus enduros e safáris de moleque.

 

Mas, pelo menos, as pessoas que me viam na rua da pacata Três Lagoas ficavam mais contentes. “Agora vai, heim, Jairinho?! Nooooossa, que benção mais sagrada esse carrinho. Num vai ‘avuá’, heim? Dá uma carona?”.

 

Aquela alegria toda durou menos de um ano. A charrete mais dava problemas a mim e a meus irmãos e amigos, que tinham de me rebocar ao longo da rua porque o motorzinho dava problema, do que emoção com a velocidade.

 

Mais tarde, já às vésperas de entrar para a faculdade, o pai de um amigo rico, bem rico, mesmo, me presenteou com uma cadeira motorizada de “última linha”.

 

Ela era realmente bonitinha. Vermelha. Uma Ferrari, praticamente, para quem vive na Matrix. Não fazia barulho, não tinha dimensões tão grandes, era confortável e de autonomia razoável.

 

 

O problema, dessa vez, não era o veículo, mas, sim, o condutor. Eu metia a cadeira chique no meio do mato, na areia, nas quiçaças, brincava de bate-bate quando eu tava ‘bebido’, testava os “limites” do possante motor que não ultrapassava os 10km/h em situações adversas.

 

Mas ela durou até bastante. Meus colegas de faculdade me ajudaram muito a acomodar a bicha na sala de aula e também me resgatar quando a bateria já não agüentava mais minha rotina de Schumacher.

 

Enfim, as cadeiras motorizadas podem trazer algum comodismo, mas não são indispensáveis para um deficiente. Ah, sim, ia me esquecendo, elas custam sacos e mais sacos de dinheiro. Sem exageros, um modelo mais sofisticado é de valor suficiente para comprar um carro popular ligeiramente baqueado.

Escrito por Jairo Marques às 12h05

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Aos pés de Verônica

Você usa seus pés para quê? Para botar sandália de salto? Para criar calos? Para ficar sacudindo quando está impaciente? Pra levar à pedicure? É incrível como não temos noção das possibilidades do próprio corpo, né, não?

 

Apresento hoje a história da artista plástica Verônica dos Santos Teles de Góis, brasiliense de 25 anos, que aprendeu a fazer tudo, mas tudo mesmo, com os pés, desde criança, após ela ter nascido sem os dois braços.

 

 

 

Sou tão desastrado para fazer atividades manuais que meu quadrado sai redondo e meu redondo é triangular . A bela Verônica, porém, não aceitou os velhos rótulos do “difícil”, do “complicado” e foi fazer o curso de Artes da UnB (Universidade de Brasília), carreira em que as habilidades com as mãos são vistas como fundamentais.

 

A jovem, filha do seu Dionízio e da dona Glória e irmã caçula de Eliana e Eliene, concluiu a faculdade, que escolheu por prazer e por ter senso de criatividade, até hoje desenvolve pinturas e gosta das artes. Mas, já no tempo da graduação, outros talentos vieram à tona: ela passa em sucessivos concursos públicos e curte aprender línguas. É fluente em francês, arranha o inglês e fez “algumas aulas” de italiano e de alemão (o tio arranha o português, só) . Cansô? Ela também manja de história e de filosofia. 

 

 

 

Povo, a linda Verônica, trabalha na parte administrativa da POLÍCIA FEDERAL, no Distrito Federal, mas num é “puliça”, não. Como toda pessoa “Assim como Você”, ela só precisa de algumas adaptações para ter uma rotina normal.

 

Ah, sim, sem as mãos, apenas como os pés, ela foi fazendo provas e passando em outros concursos. Coleciona a aprovação no Tribunal de Justiça do DF e na CGU (Controladoria Geral da União). Pensar que tem gente que não passa nos testes nem da primeira comunhão (eu, eu!!)

 

Fiz a entrevista que segue abaixo com a Verônica por meio do MSN. Ela digitava quase na mesma velocidade que eu, que trabalho diariamente com o teclado.

 

 

Quer saber um pouco mais sobre essa espetacular história? Peça para os “menino” pararem com o barulho do vídeo game, fale pro seu chefe que chegou um email urgente, sacode essa preguiça sem fim de segunda-feira e bote o pé, o corpo e a alma na entrevista que vem a seguir:

Escrito por Jairo Marques às 02h35

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Assim como você: Você já deu muito pé na bunda de pessoas que te vêem como alguém que tem uma vida cheia de dificuldades, limitações?

 

Verônica: Já, geralmente eu provo a elas que é possível viver bem com as limitações que tenho. Afinal, todo mundo tem problemas, mas os nossos são visíveis, né? Me deparo com isso quase que diariamente. As pessoas, ao me verem, não acreditam que eu me vire tão bem, algumas acham que eu dependo em tudo de alguém, mas, com o convívio, elas percebem que são poucas as coisas que preciso de ajuda para fazer.

 

Assim como você: Só uso meus pés para calçar sapato, para as meninas fazerem “maxagi” e para criar calos. O que é possível fazer, de fato, com os pés?

 

Verônica: Em casa eu tenho um pouco mais de liberdade, consigo trocar de roupa, ir ao banheiro, tomar banho, comer, tudo sozinha, usando os pés. Na rua, é mais complicado. Em restaurantes, por exemplo, eu prefiro que me dêem a comida na boca é mais rápido porque preciso que o prato fique à altura da cadeira para poder comer sozinha. Uso os meus para fazer TUDO. Escovar os dentes, pentear os cabelos, comer, escrever, digitar...... até para fazer a sobrancelha. Não uso nada nos pés, tenho flexibilidade nos dedos, nos pés e nas pernas. Gosto dos meus pés livres.

 

 

Assim como você: Você se formou em artes plásticas. Por que não optou por algo mais tranqüilo do tipo amassar uva em Bento Gonçalves (RS), jogar futebol?

 

Verônica: Muitas pessoas me perguntaram isso: Por que não fazer algo menos "manual"? Mas eu me senti apta e quis o desafio mesmo que fosse para tirar a dúvida se conseguiria ou não. Foi um desafio legal. Percebi que poderia ir além das minhas próprias expectativas. Consegui fazer todas as atividades que os outros alunos fizeram.

 

Assim como você: Adquiriu suas habilidades ao longo da vida ou desde muleca suas lembranças são de "se virol"?

 

Verônica: Quando eu era bebê, minha mãe percebeu que eu usava os pés para tocar objetos. Então, ela e minhas irmãs começaram a incentivar o desenvolvimento colocando coisas entre os dedos dos pés para que eu segurasse. E fui evoluindo mais tarde com comida para levar à boca, caneta para rabiscar papel. Logo tomei gosto e parti para o desenho.

 

Assim como você: Qual o verbo que substitui para você o “abraçar”?

 

Verônica: Nenhum substitui. Eu abraço. Mas com os braços da pessoa que quero abraçar.

 

 

Assim como você: A falta de um membro costuma causar estranhamento nas pessoas. O bom é que a ciência já provou que o cérebro é capaz de substituir qualquer disfunção, não é isso?

 

Verônica: O corpo se adapta à falta, procura novos caminhos para conseguir realizar as atividades. Comigo foi natural. Desde bebe, quando era para eu estar desenvolvendo os braços, desenvolvi as pernas e os pés. Quanto ao estranhamento, é engraçado perceber as mais diversas reações das pessoas ao me verem desde o estranhamento, passando pela curiosidade, até pela compaixão cada um reage de uma forma eu não ligo, não. ao andar na rua, todo mundo olha. alguns disfarçam, mas todos têm curiosidade.  alguns perguntam, outros param e olham.  mas eu entendo que é algo que eles não estão acostumados a ver. Eu sei que sou diferente

 

Assim como você: Como é pra você o processo de vencer o olhar do outro, de vencer os limites que os outros te impõem e não os reais?

 

Verônica: Não procuro vencer os olhares, busco modificá-los, fazer com que as pessoas não rotulem ou sentenciem alguém que tem limites a ser sempre alguém atrás dos limites. Eu já ultrapassei muitos e sei que muitos virão, mas isso faz parte da vida de quem não se contenta em ficar olhando a vida passar. Não me contento em olhar, quero participar dela e de forma a mudar não só a minha, mas tentar transformar as outras vidas que eu encontrar nesse caminho.

Escrito por Jairo Marques às 01h37

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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