Jairo Marques

Assim como você

 

A fantástica doutora Natália

 Pensei ontem o dia inteiro numa forma de fazer a introdução dessa história prender os “zóios” ou os  “zuvidos” de vocês, até o fim do post. Desculpem, mas não consegui dar em palavra a dimensão de grandeza que a trajetória da doutora Natália Sousa Gonçalves, de 23 anos, merecia.

 

Ela se formou há pouco em medicina em uma das melhores universidades do país, a UnB (Universidade de Brasília). Durante os DOIS primeiros ANOS da faculdade, aqueles melhores, onde a gente acha que a vida começou, ela assistia às aulas deitada em uma maca. Povo, vou repetir: deitada em uma maca (imaginem vocês entrando numa sala de aula assim. Imaginou?).

 

Como Natália havia ficado muito tempo sentada, estudando, se preparando para o vestibular, contraiu escaras (feridas imensas que dão na BUNDA, sobretudo). Então, ela não podia mais usar a cadeira de rodas até que se currassem os machucados.

 

Agora, formada, essa cearense deslumbrante de linda, começou a fazer residência médica. No futuro, estuda se especializar em REABILITAÇÃO.

 

Sabe, Natália, poucas vezes na vida eu tive desejo de ficar em pé. Mas confesso que, para gente “Assim como Você”, eu gostaria.... e gostaria para poder te aplaudir: clap, clap, clap, clap, clap, clap, clap, clap, clap....

 

Meu povo, ajeitem a cadeira, peguem um copo de água, mandem os meninos calarem a boca e viagem nessa história. Aguardo vocês lá no final, nos “coments”, aplaudindo comigo.

 

 

 

 

Blog - Conta um pouco sobre sua deficiência 

 

Natália de Sousa Gonçalves: Tive uma lesão medular não traumática aos cinco anos. Estava em uma festa e subitamente parei de andar, sem sentir nada antes. Fui internada para investigação e recebi o diagnóstico de Mielite Transversa. A mielite é resultado de uma ativação do sistema imunológico contra a medula espinhal que ocorre geralmente quando existem infecções virais ou bacterianas. Pode também ocorrer após vacinações ou associada a doenças imunes (lúpus, por exemplo). Mas, na maioria das vezes, como em meu caso, o fator que causou a mielite não é identificado.

 

Blog: Já aconteceu de o paciente achar que havia entrado na sala errada quando viu você na cadeira? Algo do tipo: ‘ai gzuis, entrei na ortopedia’?

 

Natália: Já aconteceu do paciente ficar um pouco desconfiado, pergunta se sou a médica que vai atender. Mas, depois que começo a consulta, nunca tive problemas, as pessoas passam a confiar. Às vezes, muitas vezes, as pacientes mais velhinhas, querem saber tudo que aconteceu comigo, até esquecem que foram pra se consultar e parece que são médicas! Perguntam tudo sobre minha paralisia! Outras vezes não tem cadeira pra levar o paciente (hospital público neh...) e o acompanhante olha pra mim e fala "Ah, se a doutora emprestasse a cadeira dela só um pouquinho... "

 

Blog: Conta da sua família ‘pa nóis’?

 

Natália: Desde quando tive a lesão, minha família me deu todo o apoio, todo empenho, como todos os pais. Passei anos fazendo fisioterapia diariamente. Só tenho a agradecer por meus pais terem me dado a mesma educação e criação que minhas outras irmãs. Fui criada com meus cuidados peculiares, mas sem um tratamento diferenciado, sem muito mimo. Tenho três irmãs que também sempre foram compreensivas e prestativas.

 Minha mãe deixou de trabalhar e sempre me levou em tudo que precisei. Fisioterapia de manhã, colégio à tarde... Uma maratona! Andava de órtese e bengala. Quando vim morar em Brasília (ela era de Fortaleza, no CE), aos 12 anos, passei a consultar no Sarah e lá  comecei a usar a cadeira de rodas.

 Foi uma das minhas maiores felicidades!!! Como foi melhor usar a cadeira em vez dos aparelhos. A vida fica mais prática! Acho que sou uma das poucas pacientes que ficou feliz ao saber que poderia andar de cadeira de rodas! (eu também, eu também!!!)

Desde pequena, antes mesmo da lesão, dizia que ia ser médica. E as idas aos hospitais, às consultas constantes, e as cirurgias só aumentaram minha vontade de ser médica. Continuei com esse objetivo. Vim morar em Brasília e ao terminar o terceiro ano entrei na faculdade de medicina aqui na UnB (Universidade de Brasília).

Ai veio o momento mais difícil.... Quando passei no vestibular, estava com uma escara enorme... Afinal, passei muuuuito tempo sentada, estudando pra passar nas provas hehehehehe! Me foquei muito nos estudos e esqueci que não há traseiro que agüente muito tempo sentado!! Ai, me colocaram numa encruzilhada: ou trancar a faculdade e esperar a cicatrização ou ir pra faculdade e assistir as aulas deitadas!

Ansiosa pelos estudos, escolhi assistir às aulas deitadas. E foram dois anos assim, até a escara fechar! Parecia a aluna mais folgada assistindo às aulas deitada.... Mas deu tudo certo! Com a ajuda da minha mãe e o apoio dos amigos consegui fazer o curso direitinho. Depois, entrei pra parte prática do hospital e controlei bem o tempo sentada. Passei a usar as almofadas Roho (custa bem caro, vou contar para vocês depois) e nunca mais tive problemas com escaras (olha eu fazendo propaganda ahahahaha).

 

Blog: Fico imaginando você numa situação de ter de operar alguém ou um procedimento numa maca. Você anda com capangas para te suspender e ficar na altura da mesa de cirurgia?

 

Natália: Não faço cirurgias, ainda bem!!! Não gostei nada da área da cirurgia, por isso mesmo resolvi fazer clínica médica. Mas procedimentos a gente da um jeitinho, sempre tem alguma maca mais baixa que da pra fazer! Tudo é uma questão de costume e adaptação. Quando a gente entra no curso de medicina não sabe fazer nada disso, aprendemos do nosso modo. Eu aprendi a fazer tudo sentada, e não acho muito estranho. Agora, pra quem já aprendeu de outro modo, pode ser mais complicado. Nada de capangas! Hahahahaa! Mas, se precisasse, seriam escolhidos a dedo!

 

Blog: Você escuta muito a frase: ‘Doutora, deixa que eu te empurro’? Como reage?

 

Natália: Acho que ninguém resiste a uma cadeira de rodas! Sempre tem alguém querendo nos empurrar. Mas geralmente nego a ajuda! Gosto muito de tocar a cadeira sozinha, me viro muito bem. Falo que prefiro ir sozinha para fazer um exercício e as pessoas compreendem.

 

 Blog: Muitos vêem no médico a perfeição, o cara que tudo sabe, que tudo resolve. Isso te abala de alguma maneira diante da sua realidade?

 

 

Natália: A sociedade "endeusa a medicina". Esperam que os atos sejam sempre corretos, que temos a obrigação de sempre curar e resolver todos os problemas. Acho que a deficiência e a cadeira de rodas de certa forma ajudam a quebrar um pouco dessa expectativa excessiva e dessa perfeição esperada. O paciente vê que o médico é uma pessoa como todas as outras e que pode sim ter algum problema.

Escrito por Jairo Marques às 08h13

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Blog: Você ainda avalia se vai se dedicar à reabilitação. Eu quando vejo bebezinho dando os primeiros passos me acabo de chorar. Você vai mesmo se expor a ver bebezões levantando e caminhando de novo?

 

Natália: Me formei no início do ano e comecei a fazer residência em Medicina Física e Reabilitação. É uma área contagiante porque você fica envolvido com tudo que aprende, que se encaixa com você. Mas delicada também.... os pacientes queriam saber tudo sobre o que aconteceu comigo, como eu dirigia, como guardava a cadeira e por ai vai. Um dia, ao sair da enfermaria, os pacientes foram lá fora da internação pra me ver entrando no carro.

Foi uma experiência boa porque eles viam que qualquer pessoa poderia ter uma deficiência assim como eles, inclusive sua médica. Além disso, eu mostrava que isso não seria uma barreira para que eles continuassem lutando e alcançando seus objetivos. Mas também fui uma frustração para eles, quando me perguntavam há quanto tempo eu não andava. Quando eu respondia que já tinha 18 anos eles ficavam preocupados, pois os pacientes com lesão recente sempre esperam que seja algo temporário.

Mas por vários motivos acabei deixando essa residência. Estava morando fora e passei em outra prova aqui em Brasília. Resolvi voltar pra casar e fazer Clínica Médica. Depois dos dois anos de residência em clínica vou fazer outra especialização. Quem sabe eu volte pra área da reabilitação.... ainda não sei!!


Blog: Me diz o que é mais difícil pra você: andar com o pneu da cadeira furado ou decidir que remédio indicar para o paciente.

 

Natália: Pergunta difícil! Andar com o pneu furado em ambientes planos, sem obstáculos dá até pra agüentar. Mas em alguns terrenos irregulares se torna uma missão difícil. Do mesmo jeito é a medicina. Prescrever um remédio algumas vezes é fácil e tranqüilo. Mas tem paciente que nem sempre tem coisas comuns, que a investigação é difícil. Ai sim é um desafio pra nós!

 

 

 

 

Blog: Como é sua rotina?

 

Natália: Estou fazendo residência médica. A vida de residente não é nada tranqüila. Então vou pro hospital cedinho e passo o dia todo lá. Vou de carro, guardo e tiro minha cadeira sozinha (depois de muito treino e muita musculação!!). Em casa, à noite, tenho de estudar e descansar. Além dos dias que a gente tem plantão à noite ou no final de semana.

Fazia basquete, adoro! Mas tive que parar por falta de tempo mesmo! Atualmente parei com as atividades físicas.

E no meio disso tudo, arrumo um tempinho pra sair. Adooooro uma festa, show, boate. Qualquer coisa com muita gente. A gente sai, se diverte e agüenta o sono no outro dia se tiver que ir trabalhar! Adoro viajar também. Fui ao Carnaval de Salvador com outra amiga cadeirante no ano passado e foi perfeito! Fomo nos trios, no meio da galera mesmo. Ta certo que não é a coisa mais fácil andar no meio daquele povo todo, mas é bom demais, vale muito à pena! Ano que vem tem mais se Deus quiser! (Tô quase me convencendo em ir também!)

Trecho de uma música que gosto muito:  “É claro que a vida ensina a gente a ser feliz!”

 

 


VIAGENZINHA!

"Pessuar" (começaram as festas juninas, nem adiata reclamar ), vou descansar o esqueleto no final de semana e sumir de "Sum Paulo" e do "computadô". Me aguardem na segunda-feira! Abraço nas crianças!

 

 

Escrito por Jairo Marques às 08h07

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Curtinhas

Livros para escutar

 

A Ilustrada de ontem, na Folha, trouxe uma notícia boa “pa nóis”: vão ser lançados, até o próximo mês, 17 títulos de best sellers em audiolivros. Uma beleza pra quem tem deficiência visual ou mesmo dificuldade de manuseio. Tá, ta bom... vai ser ‘otemo’ para os bicho preguiça da vida também.

 Vai ser possível comprar os CD (de 24,90 e R$ 29,90) ou baixar os livros pela internet (R$ 14,90 e R$ 19,90) em http://www.plugme.com.br 

  Entre os títulos, que tem duração de cerca de cinco horas, vão estar “Marley e Eu” (chorei uma semana depois de ler), narrado pelo Humberto Martins; "Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia”, com o autor Nelson Motta fazendo a leitura e fazendo imitações do cantor (é bão, é bão) e "Alô, Chics!", lido por Gloria Kalil. Para quem é assinante do UOL ou da Folha, pode ler a reportagem completa aqui.

Quer ‘escuitar’ uns trechim? O que seria de vocês sem mim, heim? Clica no bozo e escuta vai .

 


Essas incríveis “bailalinas”

 

 

Na próxima quarta-feira, quem mora em São Paulo (ai, ai... eu moro) vai poder curtir a apresentação “I Dance & Aqueça”, com ‘bailalinas’  que quando eu era cliança eu quelia ser bombelo) com deficiência visual.

Vai ser no Memorial da América Latina, às 18h. Sabe quanto morre? Dois agasalhos. Pensa, você dá dois agasalhos em bom estado e pode ver a mulherada saltitando? Bom demais.

As meninas fazem parte da Cia. Fernanda Bianchini. Quer saber mais? (0xx11) 3291-6969 www.ciafernandabianchini.org.br

  


Camisetas fashion

 

Povo, o pessoal que mantém a Associação para a Integração Esportiva do Deficiente Físico e ajuda a formar atletas paraolímpicos está fazendo uma promoção para levantar alguns “roiaus” (sacaram? $$$) e garantir a realização dos trabalhos.

 Eles estão vendendo por R$ 35 (uma pizza e meia) aquelas camisetas dry fit, sabe qualé? Aquelas com tecido inteligente que joga a umidade do corpo para fora da camiseta, um luxo. Povo, na boa, tá barato www.ciedef.org.br

 

 


      Pessoais, não percam a leitura de amanhã (to ficando bão de 'marketis'). Garanto a vocês mais um ponto alto de emoção, de superação, de coisa maravilhosa de 'Gzuis' e de jairão lindão!

 

Escrito por Jairo Marques às 22h44

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A Turma da Febeca

          Estou sempre escrevendo pra vocês que esse blog tem virado minhas emoções do avesso, não é? E essa história de hoje não deixa para menos.

 

         Como diz a minha colega Cíntia Acayaba, repórter com excelente visão social, “é uma das coisas mais legais de todo o mundo, de todo o universo” (Explicando: ela diz isso em várias, várias situações e nem sempre é tão legal assim, mas, neste caso, é sim!) .

 

         Há cerca de dois anos, o roteirista e cartunista Victor Klier, 37, criou o projeto “Turma da Febeca”, uma revista em quadrinhos em que todos os personagens têm algum tipo de deficiência ou enfrenta uma situação adversa de saúde.

 

         É uma verdadeira “coididoido”! Tem cadeirante, gente pequena, cego, usuários de prótese, tetraplégicos, gente que batalha contra o câncer, gente com paralisia cerebral. Olha o povo ai!

 

 

 

         “A deficiência e limitações dos personagens não são o foco das histórias. A turma vive suas aventuras, toca sua vida como todo mundo. Em vez de serem super-heróis, mutantes, os personagens são pessoas comuns que, por causa de suas deficiências, irão desenvolver uma série de outras habilidades”, disse Victor.

 

       ‘Tenderam’, pessoal? Tudo gente “Assim como Você”.

 

Quando o cartunista ainda estava se inspirando para criar os personagens (povo, olha que coisa linda), ele conheceu a Camila, de 19 anos, que tem paralisia cerebral e está na turma da Febeca. Eles se apaixonaram e namoram há oito meses .

 

As personagens principais das aventuras são treze adolescentes: “As superpoderosas”. Leiam abaixo um dos capítulos!!!

 

 

  

Tuuudo perfeito, não é? Nem tanto, claaaaro. Tá faltando patrocínio para tocar o projeto e ele decolar de vez. Será que estou pirado e essa iniciativa nem é tão legal assim?

 

Não sei... acho que mostrar à criança sem deficiência, de uma forma atrativa, que existem pessoas com realidades físicas ou mentais diferentes da dela, mas que estão no mundo também para serem felizes, me parece uma chance  única para uma mudança profunda de mentalidade.

 

Quando conheci a “Turma da Febeca” fiquei muito mais ansioso do que já sou naturalmente para mostrá-la para vocês, que tem tornado esse blog um sucesso! Isso porque este gibi é tudo o que a gente vive discutindo por aqui: É todo mundo igual, mas com pequenas diferenças.

 

 

Na foto, do alto, da esquerda para a direita, as “superpoderosas”

que inspiraram a revistinha!

 

Larissa (RN) , que tem amiotrofia espinhal

Janayna Alcântara, de Ribeirão Preto (SP), que enfrentou um câncer ósseo até ano passado, quando não mais resistiu. Antes, ela escreveu o livro: “A Janynha Estrela”.

 Letícia (RS) e Fernanda (MG), que usam prótese nas pernas

 Bruna, que batalha firme contra o câncer

 Thaíse (AL), que usa próteses nos dois braços e nas duas pernas

 Rebeca (PR) e Fernanda Souza (MS), cadeirantes

 Vanessa (PR), tetraplégica

 Marina (DF) e Daiane (PR), que têm paralisia cerebral

 Paula (RJ), que tem nanismo

 Camila (SP), que tem paralisia cerebral

 

O email do Victor: victor.klier@gmail.com

 

 

 

 

Escrito por Jairo Marques às 21h13

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Reunião de condomínio

Semana passada rolou reunião de condomínio no meu prédio. Ao contrário de quase toda a civilização, eu adooooro esse “evento social”. É uma verdadeira usina de piadas e uma exibição vistosa da fauna brasileira. Tem de tudo: anta, burro, cisne, leão, pavão... ah, pavão tem muito.

 

Meu condomínio já é bem civilizado no sentido de adaptações. Tem rampas em todos os locais, acessos facilitados, botão dos elevadores em braile e vaga na garagem demarcada exclusivamente para quem tem algum tipo de limitação.

 

 

 

Bem, na tal “ronião” estava na pauta justamente fazer o sorteio das vagas da garagem. Por isso, o quorum foi altíssimo e houve muita, muita animação.

 

O meu espaço para estacionamento é bem amplo. Posso deixar o carro deliciosamente torto e ninguém me enche a paciência. A vaga fica num lugar estratégico, próximo ao acesso do hall do prédio. Consigo abrir bem a porta para sair com a cadeira sem arranhar o carro do lado . Tão avançado, né? Nem tanto.

 

Nesse tipo de congregação as pessoas querem discutir tudo: o passarinho que canta muito cedo, o cachorro do vizinho que abana o rabo com muita força, o entregador de pizza que usa roupas muito démodé.

 

Uma das primeiras polêmicas da acalorada reunião foram as buzinadinhas que os condôminos dão antes de entrar no prédio para abrir o portão, que é automatizado e funciona com um controle remoto. Ou seja, hipoteticamente, não é preciso buzinar, certo?

 

Mas eu buzino . Acontece que levo a minha cadeira no porta malas do carro e, quando chego do trabalho, preciso da ajuda do Josiel ou do Manuel, os porteiros, os quais chamo de presidente por viverem de terno preto.

 

Por mais que, quando o controle remoto seja acionado um bip soe na cabine dos presidentes, eles nunca prestam atenção, é óbvio. Ai eu estaciono, tenho de esperar por hooooras, até o Josiel ou o Manuel virem me ajudar. (Eu ligo na portaria e eles vêm correndo, preciso ser justo)

 

“Ôh seu Jaro (é Jaro, mesmo) eu tava falando no ‘intelfone’ e nem vi o senhor entrando, viu?!; “Êh, rapaz, essa portaria é um agito só”; “Seu Jaro, eu tava acendendo as luizes do prédio”; “Seu Jaro, o senhor entrou tão rápido que nem percebi. Eta homi ligeiro”, mentem, com classe, os meus porteiros que são boa gente, de verdade.

 

Entenderam, então, a buzinadinha?  Pra eles acordarem!

 

 

Depois de muito debate, ficou decidido que, no meu caso, não haverá pagamento me multa depois do flagrante! Povo ‘bão’, né? Mas os cachorros que abanam o rabo com muita força vão ter de ser controlados.

 

Bem, mas ai começou o sorteio das vagas, tão esperado. Aquela emoção... e, para mim, momentos de tensão. Sempre pode haver um sujeito querendo mostrar argumentos para derrubar o meu direito à vaga especial.

 

“Alguém se opõe ao Jairo e ao seu Joaquim (um senhor bem velhinho que não tem limitações físicas, mas anda devagarzinho) não participarem do sorteio e continuarem com suas vagas especiais?”, bradou o síndico.

 

“Nãaaaaao”, respondeu o povão....

 

Fiquei feliz um bocado. Deve ta todo mundo lendo o “Assim como Você”, pensei humildemente.

 

Em tempo: Calma que ainda vou falar mais de espaços reservados, de como comprar um carro, de porteiros amigos e outros. Algumas pessoas disseram que tenho uma realidade privilegiada e que não tenho “problemas” na vida. Vou responder com uma frase que só pode ter sido criada por shakespeare : “Todo mundo já viu as pingas que bebi, mas ninguém viu os tombos que levei”.

 

Agora sério. As prefeituras estão bem mais rigorosas atualmente com as construtoras de prédios e exigindo que haja vagas especiais, mais amplas, e acessos universais nos condomínios. É um avanço.

 

Em construções mais antigas, geralmente, esse direito não é respeitado. Mas, acho que, com bom senso, é possível criar soluções que facilitem a vida de quem precisa de algum tipo de adaptação. Você já pensou se nem o lugar onde você mora tem condições ideais para te receber? Aí é broca. É possível criar exceções às regras para atender quem tem peculiaridades físicas sem desrespeitar ninguém.

Escrito por Jairo Marques às 22h08

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Essa gente pequena

           Cadeirantes em geral adoram anões. Afinal, eles são os únicos que, ficando em pé, a gente consegue olhar cara a cara .  Uma colega minha tem pânico de gente pequena. Nem ela sabe ao certo o porquê, talvez porque imagine que sejam pessoas que vivam na floresta planejando uma invasão às cidades.

 

            Brincadeiras à parte, os anões também são gente que compõe o “Assim como Você”. Há diversos tipos de nanismos que afetam o desenvolvimento do corpo de maneiras distintas e os desafios dessa gente pequena vão muito além do que encontrar uma vaga para trabalhar em circo ou em programas de humor, o que é também digno, evidentemente.

 

            O mundo para quem tem nanismo impõe barreiras que passam desapercebidas, mas que precisam ser derrubadas como em qualquer outro tipo de limitação. Quando você é menor do que o outro, se impor e mostrar suas idéias, seus anseios é naturalmente mais complicado. Quando você é muito menor, é mais complicado ainda.  

 

            Os caixas eletrônicos dos bancos são altos, as gôndolas de supermercados são altas, os balcões dos bares são altos. Você já viu móveis adaptados para gente pequena? E roupas específicas? E o que acha do fato de levar safanão na cabeça, motivados por um programa humorístico, dizendo: “Pedaaaala Robinho”?     

 

O Casal Hélio Potts, publicitário, e Kênia Hubner, enfermeira, em seu carro adaptado. Tudo igual, 

com pequenas diferenças

 

            Até pouco tempo, os anões não tinham nem direitos estabelecidos em lei para garantir isenções de impostos para aquisição de automóveis ou mesmo vagas especiais no mercado de trabalho.

 

            Algo comumente ignorado pelas pessoas é que um casal de anões pode ter filhos com estatura normal (a genética explica). Esta questão, por si só, já apresenta um desafio profundo. A sociedade desacredita que possam criar uma criança de forma satisfatória e a criança vai ficar maior que os pais em pouco tempo. Já pensaram nisso?

 

            Estou contando isso tudo para vocês porque, para quem tem TV por assinatura, vai poder curtir a repetição de uma série, a partir de julho, que me comoveu e me fez aprender um bocado: “A Pequena Grande Família” (Little People, Big World em inglês).

 

            Trata-se de um reality show produzido nos Estados Unidos com uma família composta por Matt, o pai, Amy, a mãe, ambos anões, e os quatro filhos: Jeremy, Zachary (que tem nanismo), Molly e Jacob. As histórias são surpreendentes, tocantes e muito divertidas.

 

            Um dos capítulos da primeira temporada que me chamou muito a atenção foi quando a filha, Molly, uma adolescente com estatura normal, fala sobre os pais, que são alvos de olhares curiosos o tempo todo.

 

            “Não me incomoda mais que todo mundo olhe para eles. É normal que o que é diferente chame a atenção das pessoas”.

 

É de uma sinceridade e simplicidade cortantes a frase da garota, mas achei perfeita. As diferenças realmente existem e se impõem, como sempre digo. O que devemos fazer é mostrar que apesar de formas distintas e limitações, no fundo, somos todos muito parecidos.

 

            A série começou a ser transmitida pelo People+Arts, mas, agora, vai “migrar” para o Discovery Home & Health porque, segundo a assessoria de imprensa dos canais, tem um perfil “mais família e saúde”.

 

            Acho que a exibição do programa é um avanço e tanto para portadores de necessidades especiais, mas, essa “migração” me deixou um tanto indignado.

 

As histórias de gente pequena em um canal voltado mais ao entretenimento contribuía, ao meu ver, mais para diminuir distâncias do que em um canal sobre “saúde” simplesmente.

 

Isso porque a série estava sendo exibida lado a lado com motociclistas, tatuadores, pessoas bonitas, descoladas e bem sucedidas. Agora, os novos vizinhos da “pequena família” serão doenças exóticas, mães grávidas e inseguras e pessoas neuróticas. Confiram a aparência e diferença dos sites.

 

            Talvez eu esteja sendo ranzinza , mas senti um toque ligeiro de preconceito com essa mudança. Será que não deu audiência? Será que alguém reclamou da presença daqueles “estranhos” no canal? Enfim...

 

            Abaixo, vocês podem ver uma chamadinha do “A Pequena Grande Família”.

Escrito por Jairo Marques às 20h21

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"En tus Brazos"

Já que durante a semana eu falei de "retomada de sonhos", hoje eu divido com vocês um presente maravilhoso que recebi da Fernanda Pereira, de Campo Grande (MS), uma das colaboradoras e incentivadoras mais ativas do blog. Trata-se de uma animação chamada "En tus Brazos" (Em seus Braços")! Como é domingo, tem música, claro. Vejam até o final, é curtinho...boa emoção!

 

 

Escrito por Jairo Marques às 10h46

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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