Jairo Marques

Assim como você

 

As cartas

O blog continua recebendo dezenas de emails todos os dias, o que é muito bom! E tem de tudo , pedido de casamento , ajuda para desatar trabalho espiritual, pedido de emprego, de dinheiro .

       Eu me diverto um bocado. E tem também muita, muita gente "Assim como Você" que escreve para falar que está se identificando com as histórias e curtindo o diário. Então, resolvi hoje publicar uma das cartas, escrita pela Luciane, que é deficiente visual.

 

 

 

 

Prezado Jairo Marques,

 
     Antes de mais nada venho parabenizá-lo pelo belíssimo trabalho, bem como pelos  textos postados em seu blog. Estou certa de que mereça, também, parabéns pela garra e determinação pelas quais sempre enfrentou os obstáculos encontrados pelo caminho e, venceu cada um deles com muita vontade.
 
     Não conhecia seu blog, até que recebi um link de um amigo que, nos convidava a ler uma  entrevista. Trata-se do Marcinho e sua cão-guia. Porém não me contive em ler apenas a matéria do Marcinho, mas passei por muitas outras e, emocionei-me, dei boas risadas, enfim, foi um misto de sensações que me trouxeram até este e-mail.
 
     Chamo-me Luciane Molina, 25 anos, também, deficiente visual. Pedagoga com especialização em grafia Braille e atuo em uma escola municipal ensinando Braille a quem não enxerga, em cursos particulares de informática, capacitação para professores de escola regular, palestras em instituições de ensino e, aventuro-me na escrita de alguns artigos sobre educação, já publicados em alguns sites e revistas da área. Sou fascinada por jornalismo, mas dadas as possibilidades da época, acabei seguindo o caminho do magistério, não menos gratificante do que o jornalismo deva ser.
 
    Com relação às deficiências, a realidade do nosso país ainda deixa a desejar. Cabe a nós, principalmente pelas nossas atitudes diante das dificuldades, transformar essa realidade. Também já passei por desafios bem complicados, uns superados e outros por superar, ainda, pois a justiça dos homens nem sempre vê os fatos verdadeiramente, mas quando o caminho da diplomacia não funciona, temos que apelar para os caminhos legais, talvez mais tortuosos.
 
    Vejo em cada conquista minha, de amigos e dos alunos, não apenas vitórias individuais, mas acima de tudo vitórias coletivas que abrem caminhos para tantos outros que virão atrás. Nossa missão é essa: abrir caminhos, mostrar que somos seres humanos acima da nossa deficiência e buscar um convívio comum a todos nós...
 
Muito obrigada pela oportunidade de leitura dos textos, pela rica reflexão que eles nos provoca, pelo compartilhar de fatos e histórias que nos fazem crescer e aprender ainda mais...
 
um grande abraço
Luciane

Escrito por Jairo Marques às 10h35

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Uma célula e a humanidade de esperanças

Foram oito cirurgias complexas, mais ou menos dois anos e meio usando gesso nas pernas, na coluna; sete meses morando no hospital Sarah; um bocado de dor; um tanto de esperança; uma porção de esforços e um choro de mãe.

 

Chega um dia em que você é fatalmente declarado “deficiente” e vai ter de encarar o fato que caminhar ao longo da praia sentindo a areia entre os dedos quentinha, quentinha, não será possível da maneira convencional.

 

 

Minha família tentou por treze anos seguidos reabilitar meus passos depois de eles terem sido levados pela pólio (a paralisia infantil) quando eu ainda era um bebê gordinho de nove meses que começara a engatinhar e a se agarrar nos móveis para ensaiar uma dança.

 

“Você prefere a cadeira de rodas ou o aparelho”, perguntou o médico, um dos mais preparados do país, para mim, longe da minha mãe, claro. Escolhi a cadeira. Vocês não imaginam o que são alguns aparelhos ortopédicos. Sabem o Robocop? Então, você vira o Robocop.

 

E é evidente que os tratamentos todos me “consertaram” muito. Me possibilitaram que hoje eu tenha uma vida tão fantástica a ser contada e lida que ganho mais adeptos todos os dias para saber dela e, conseqüentemente, saber um pouco mais de si e de um universo que muitos entendem como “paralelo”, a matrix daqueles que têm alguma limitação.

 

No momento em que eu, menino, decidi ser cadeirante e que a busca pelo caminhar havia acabado, vi um choro incontido da minha mãe. Eu queria descansar, embicar a vida... ela queria mais esperanças, ela queria reparar o que, naquele momento, era irreparável.

 

Vocês devem estar achando que bebi e bati a cabeça, né? “Cadê o Boooozo???” É legítimo que conheçam a minha própria história em detalhes, não é mesmo? Afinal, entro e vasculho a várias das de vocês.

 

Não... mas é que quero que compartilhem comigo que essa decisão de ontem, do Supremo Tribunal Federal, liberando as pesquisas de células tronco embrionárias, desperta um fio de esperança novo talvez não para mim, mas para toda uma futura humanidade.

 

 

 

 "Eu sempre posso fazer você sorrir"

 

Não sei viram uma reportagem (só para assinantes UOL e Folha) publicada anteontem de um ser bizarro em Brasília dizendo para um grupo de cadeirantes parar de querer a liberação das pesquisas e ir buscar a solução de seus males em “Gzuis”.

 

Queria tanto que ele visse o documentário do Superação. E queria mais que ele ficasse meia hora trancado numa sala cheia de maribondos. E mais ainda que ele pudesse entender o que é devolver a milhares de pessoas a expectativa de retomarem sonhos quase extintos.

 

Diversas pessoas já me perguntaram e ainda perguntam se não tenho “vontade de andar”. Penso que a minha série de conquistas sobre essas quatro rodas ao longo da vida ajudaram a anuviar esse possível desejo.

 

 Acredito firmemente que é possível ser muito feliz, se realizar, ser completo sem a inexorável sensação de sentir a pressão do corpo na sola dos pés ao sair da cama ao amanhecer.

 

O mesmo, acredito eu, devem pensar muitos daquele que não escutam a corrida do vento, que não vêem o brilho intenso refletido pela lua cheia, que não gritam na montanha russa. Afinal, existir é muito mais do que apenas sensações.

 

Porém, me alivia saber que no futuro, quem sabe, as pessoas portadoras de necessidades especiais poderão se sentir plenas em todos os sentidos. Oxalá essas células embrionárias, elas que originam a vida, brindem a humanidade com banhos de mais e mais esperanças e menos choros embargados de mães.

 

 

Escrito por Jairo Marques às 22h20

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Brasileiro sangue bom

Garanto a vocês que colocados juntos eu com a minha cadeira vermelha, o corredor Pistorius com suas duas próteses, mais o Márcio com a cadela Raíssa, na frente de qualquer terminal rodoviário, até o final do dia a gente conseguiu dinheiro suficiente para comprar uma Kombi bege velha ou um fusca 1976. Isso se não fizermos cara de cachorro que derrubou o arroz do jantar diante de uma igreja. Porque ai é recurso de Uno mil para cima.

 

O brasileiro é um povo bom demais. Se ele vê um deficiente parado, quieto, contemplativo (algo normal para qualquer mortal) tira logo um trocado do bolso e estende com a mão: “Tó, fio pra você. É de coração, viu?”.

 

E vai você querer explicar que não precisa daquele dinheiro, que está ali só esperando a hora do seu ônibus ou do trem ou a um amigo. “Rapaz mais orgulhoso. Tô dando de coração. Pega logo!”

 

É verdade, e as estatísticas não escondem, que boa parte dos portadores de necessidades especiais estão em camadas mais pobres da população.

 

Isso por razões como dificuldade de acesso à educação, trabalho, lazer, cultura.  Se as pessoas não conseguem sair de casa porque não há condições urbanas, se qualificar como?

 

E é fato também que muita gente com limitação está nas ruas, pedindo dinheiro em semáforos ou mesmo nas tais rodoviárias. Bom, mas eu não estou e muitos, muitos também não estão.

 

Esse negócio de receber dinheiro dos outros sem mais nem menos, podem acreditar, acontece comigo até hoje. Já sei o que estão pensando: “Também, com essa cara de pobre”.

 

Me lembro perfeitamente de um dia, ainda moleque, que fui com a minha mãe em uma inauguração de um novo supermercado na cidade. No interior, esse fato é comparado a uma festa popular dessas que juntam multidões.

 

Não me perguntem porque raios ela quis me levar nesse “divertido passeio”. Como era óbvio, ela me deixou na entrada da loja para não me expor àquela avalanche de gente louca para comprar extrato de tomate.

 

“Mamãe já volta, fica aqui quietinho” (até a minha mãe tira sarro de mim. Ela sabia que eu não iria sair correndo pela rua, né?)

 

E ela realmente voltou rapidinho, coisa de meia hora, e me encontrou com um sorriso largo no rosto:

 

“Mããããe, olha o tanto de dinheeeeeiro que ganhei!!!” Trabalhadora e honesta, ela quase me leva para a delegacia para responder por furto.

 

Meu povo, uma pessoa me viu ali, lindo, sentadinho na cadeirona (à época eu usava um trambolho imenso) e me deu uma moeda. Eu, menino, achei aquilo o máximo, ué! Logo, veio outra e outra e mais outra pessoa me dando dinheiro. “Tô rico! Tô rico!”.

 

 

 

Mais recentemente, uma outra situação de imensa “solidariedade”. Era cedo (eu entro no jornal junto com os seguranças, os porteiros, os faxineiros) e eu ia “a pé” para o trabalho. Morava pertinho e só precisava vencer duas quadras de subida tocando a cadeira até chegar à Folha. Usar o carro pra quê?

 

Como rotineiramente acontece, lá vem o brasileiro, solícito, me ajudar. “Deixa que eu te empurro!!!” Geralmente, não sobra tempo para responder se quero ou não a ajuda.

 

“Trabalha na Folha, é? Hummm....É telemarketi, né? Não??? Ahhh mexe com computadô, essas coisas de digitamento, né? Ahhh tá, vende jornal, jornaleiro, tendi”

 

O senhor, que usava bigode, um boné e roupa surrada, era uma simpatia e, realmente, tinha uma imensa e verdadeira boa vontade, reconheço.

 

“Vida dura, né, fio? Subir isso aqui todo dia. Tão cedo. Ôh pai amado, que vida, heim, fio? Deve cansar os bracinhos, né, fio? Mas hoje eu te levo!”

 

Num momento como esse, o pior que você pode fazer é reagir. Se eu dissesse que ele estava enganado, que tenho uma vida tranqüila, cheia de privilégios, com carro, namorada linda e adoro me exercitar um pouco pela manhã, poderia decepcioná-lo profundamente.

 

De necessitado eu passaria ao status de louco, de ingrato na cabeça dele. Digo isso por tentativas infrutíferas do passado de tentar demover as pessoas da idéia da “doação”.

 

Quase me “entregando” na porta do jornal, meu parceiro voluntário desabafa: “Já tô cansado a essa hora do dia, viu. Cê acredita, fio? Hoje já peguei três ônibus, vou caminhar mais um quilômetro, acordei às 4h. Ainda não tomei café, briguei com a mulher....”

 

Como vocês já sabem... eu só sorri e deixei o pensamento voar alto.

 

Claro que ao final da “viagem”, ela quis me dar R$ 1. “Toma, fio”. Gente, eu não tinha forças para resistir! Se ele achou que fez a boa ação do dia comigo, não poderia estragar aquele único prazer, até ali, daquela manhã do senhor bigodudo.

 

 

"Você não teria um blog onde eu pudesse baixar sua música de graça?"

 

Em tempo: Cadeiras de rodas, muletas, bengalas não podem compor um estereótipo das pessoas, a meu ver. Condição física não é credencial para tirar conclusões de nível intelectual ou financeiro de ninguém.

E essa projeção de imagem em um deficiente de que ele é um eterno necessitado não é, em definitivo, peculiar a apenas pessoas mais simples.  Fazer o bem eleva a qualquer um, mas ter informação, conhecer a realidade do outro é fundamental para que essa ação seja realmente produtiva, não acham?

Escrito por Jairo Marques às 22h31

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Eles se Superam

Hoje o STF (Supremo Tribunal Federal) vai dizer se pode ou não pode usar células tronco embrionárias para fazer pesquisas.

Os estudos , no futuro, poderão devolver movimentos para muita gente, curar o câncer, recuperar órgãos, tecidos, ossos. Tudo coisinha básica. (Leiam mais sobre o assunto aqui

Para ajudar na decisão dos ministros _ai como eu tô metido, né?_, coloco no blog para vocês e para eles a primeira parte de um documentário que avalio como primoroso (a segunda eu coloco mais tarde). 

Trata-se da história do “Movimento Superação”. Uns “pessoais” sérios (não como eu, que usa o estilo Bozo de ser), que têm cadeiras de rodas turbinadas, tatuagem no braço e invadem a avenida paulista todo ano como forma de protesto.

Eles também cobram atitude do poder público (aquele que geralmente não faz muita coisa por gente Assim Como Você), fazem pressão por melhorias estruturais e congregam umas garotas daquelas que a gente casa sem pensar de tanta belezura, afinal, ninguém é de ferro. Juntam "pouca" gente na causa: coisa de 4 mil pessoas (este ano eu vou, de rambo!)

Vou escrever pouco para que vocês tenham tempo de curtir o trabalho feito por alunos Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, como conclusão do curso de Jornalismo (mal sabem eles onde se meteram!).

 

       



 

Créditos:

 

Os meus aplausos, então, para Ana Carolina Câmara, Fernando Petroni, Guilherme Lima, Marina Paes, Pedro Zunkeller e Thadeu Reis, meus colegas de profissão e autores do projeto. 

Ao professor Danil Petrow, que orientou o documentário. 

E mais: edição: Marco Arantes; Câmeras: Eduardo Domingues, Fabiano Lupinacci, Marco Arantes e, Vandelei Vicário;

Fotos: Arthur Calazans.

Trilha sonora: Bob Dylan – Blowing in the wind; Cordel de Fogo Encantado – Árvore dos encantados; O Teatro Mágico – De ontem em diante; The Beatles – With a little help from my friend; Mongol / Oswaldo Montenegro – Aquela coisa toda
 

Segunda parte

Pessoal, sorry pela demora em colocar a segunda parte do vídeo. A internet não ajudou muito hoje. Queria ter postado depois da decisão do Supremo, mas ainda não saiu. Então, um pouco mais de gente "Assim como Você" pode energizar os ministros! ahaahha

 


Escrito por Jairo Marques às 20h15

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Quem tem medo do Pistorius?

            Quem ainda não viu o Oscar Pistorius correndo, tem de fazê-lo batendo recorde de velocidade (dou uma colher de chá no final do post). Ele é um atleta paraolímpico sul-africano, de 21 anos, detentor de marcas inéditas nos 100, 200 e 400 metros. Usa duas próteses de fibra de carbono no lugar das pernas. Eu disse duas. E dispara na pista qual seriema solta no mato.

 

            Na semana passada, ele conseguiu permissão de uma corte desportiva para disputar uma vaga nas Olimpíadas de Pequim (Leia mais no blog do Rodolfo Lucena). Anteriormente, o pedido havia sido negado. Alegam que as próteses dão “impulsão” a ele, o que poderia caracterizar vantagem em relação a outros corredores.

 

 

            Faz me rir, gente! Acho, então, que a alimentação de todos os competidores teria de ser igual. Só ração, com porções iguais todos os dias, e suco de beterraba. Um copo por refeição. Oras, vocês acham que aqueles atletas dos EUA, que são pura massa muscular, comem o mesmo que os quenianos com aqueles cambitos da grossura de um palito de fósforo?

 

            Se não podem as próteses, vamos também padronizar os desodorantes. Vai saber se algum pode provocar siricotico e o galego sair em disparada pela pista, alucinado com o efeito?

 

Tênis que podem absorver o impacto e jogar o cara léguas para a frente também não pode. Todo mundo descalço.  E   também não pode aqueles shortinhos de lycra, que apertam o traseiro e podem dar mais vontade de sair correndo pra prova acabar logo e o cabra se livrar daquilo.

 

 

 

Por fim, os lugares de treinamento precisam ser iguais e os treinadores têm de ter a mesma formação. Os suplementos de vitamina igualmente distribuídos e tratamentos médicos igualzinhos. Tudo em nome do equilíbrio. Topam? Acho que não. São as diferenças que fazem um vencedor, não é mesmo?

 

            As lâminas do Pistorius, que ele usa desde que quando era bebê e teve as duas pernas ambutadas, são, para mim, um símbolo de superação, de inteligência humana em prol da melhoria da qualidade vida. Jamais podem ser vistas como um limitador para o que quer que seja ou estamos fadados ao retrocesso.

 

O saltinho que muitos atletas alegam que Pistorius teria de vantagem diante dos outros competidores é o mínimo diante de uma situação psicológica extremamente mais delicada da parte dele diante da “normalidade” dos outros.

 

 

O saltinho que, concordo, pode representar algum milésimo precioso numa competição (porém não há comprovação científica, ainda), é nada diante da dor que ele aprendeu a suportar para se equilibrar naqueles J (o formato da prótese é um J, de Jairão, show, né?).

 

 É nada diante do treinamento intenso que ele fez para se “igualar” em tempo aos corredores das provas convencionais, que já começam a chiar pelos quatro cantos do mundo. Como diz um grande companheiro meu, todos uns "ridicolomen".

 

O Pistorius é um cara exatamente "Assim Como Você", mas usa próteses. Quebrar a barreira do tradicional e colocar juntas pessoas com e sem limitação física, pode ser um salto histórico muito maior do que o saltinho supostamente provocado pela ação da prótese.

 

 A discussão não deveria ser permitir ou não o uso das lâminas. Mas, sim, teríamos de estar preocupados com uma forma de garantir que todos tivessem acesso à tecnologia ou simplesmente uma forma de ter de volta uma parte do corpo, mesmo que artificialmente. (Leiam reportagem de Cláudia Colucci, sobre o tema, publicada na Folha. Só assinantes UOL e do jornal)

 

Edgar Alves, um amigo meu que sabe tudo de esportes, disse que Pistorius tem pouca chance de competir ainda neste ano, em Pequim, com os “normais”.

 

“Mas fica tranqüilo que ele vai garantir vaga, com certeza, em 2012!”, me informou o Ed, com um sorriso de vitória.

 

Com certeza, vou torcer para ele, seja quando e como for. Vou tentar entrevistá-lo e conto pra vocês. Vejam uma prova do atleta, na Itália, nos 400 metros livres. Ele aparece disparando, no canto direito da tela.

 

 

 

 

Escrito por Jairo Marques às 21h42

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Fale com ELE

           Eu e minha mãe (xodadis dela) temos uma piada tão antiga quanto o tempo do “êpa”. Lembram quando as pessoas diziam êpa pra tudo? Não? Nem eu, sou jovem . 

 

            Às vezes, sem mais nem menos, eu olho para ela digo: “Mas ele fala?” No que ela responde: “Fala, fala mais do que a boca, mais do que o homem da cobra”.

 

            É muito natural, até hoje, pensarem que eu não falo. Vai ver ficam fascinado com esse meu corpinho de perdição ou encantado com a cadeira fashion que uso e nem percebem que sou capaz de emitir som, como qualquer papagaio.

 

            Claro, há pessoas com limitação de fala ou mesmo alguns surdos que não são capazes de falar com palavras orais. Mas, acho que a maioria dos deficientes fala normalmente ou fala a seu modo, pausadamente, com algum esforço.

 

            Certa vez, quando eu ainda era criança (nem faz tanto tempo assim), uma senhora parou minha mãe na rua quando estávamos indo para a escola e começou a perguntar mil coisas: “Nossa, como ele faz pra fazer xixi? Como ele respira? Como é que você faz pra dar banho nele? Ele sente as perninhas? Ele baba muito?”

 

Como qualquer pessoa que não é o highlander, eu interrompi aquela produtiva conversa. “Mãe, vamos embora que vou chegar atrasado na aula”. Foi quando a senhora quase teve um ataque do coração, ali na rua.

 

“Nooooosssa, mas ele faaaaala? Que bonitinho! Ele fala”. Minha mãe, espirituosa como ninguém, respondeu: “Fala, fala mais do que a boca esse menino. Mais do que o homem da cobra”.

 

 

Uma outra situação, mais recente, aconteceu há cerca de dois anos. Inesquecível. Fui ao banco com Raquel, uma amiga sem igual, logo cedinho. Tinha de fazer uma chatice de um recadastramento.

 

Já na porta do prédio começou o meu martírio. Aquele sistema de segurança giratório por onde uma cadeira de rodas não passa, é claro.

 

 “Vamos ter de revistar ele, senhorita”, disse o segurança para a Raquel. “Revista, ué”. Normalmente eu vou ao banco com um estilingue ou com um fuzil AR-15, naquele dia eu estava com gases e resolvi não carregar peso.

 

Livre do flagrante, me dirigi, sempre com a Raquel a tiracolo, para uma mesa de atendimento. Agora tudo seria tranqüilo para fazer o fatídico recadastramento, não é? Não era. A moça que nos recebeu era uma bancária típica. De cabelos bem curtinho, óculos, roupa de festa brega e usando com perfeição o gerúndio.

 

"Você poderia estar me dando os documentos dele? Preciso do RG, CPF, comprovante de residência..." Raquel, então, vira pra mim, já com uma risada incontida no canto da boca e dispara: "Dá os seus documentos pra ela, Jairo. Ela ta pedindo".

       "Olha, eu vou precisar estar olhando o holerite (ou contracheque) dele também para estar atualizando os dados. Ele trabalha, né?"

      Ai a Raquelzinha já não estava mais com aquela paciência do Pai Mei do Kill Bill. "Por que raios você não pede pra ele, moça? A conta é dele, o dinheiro é dele. Só estou acompanhando. Não sou tradutora dele".

      Naquele momento eu senti que havíamos magoado a moça dos gerúndios de ferro. Foi quando, então, pela primeira vez, desde o início do festivo atendimento, ela olhou diretamente pra mim. Sabe aquela cara ridícula que fazemos para bebê bonitinho? Então, era assim que ela me olhava.

       O ponto alto dessa maratona bancária foi o final do atendimento. 

        "Prontinho! Agora, você pede para ele estar assinando aqui nesta linha de baixo? Bem aqui, onde tem o tracinho. Mas, olha, ele ganha isso aqui mesmo? Porque na situação dele, né? É que se não estiver tudo certinho o crédito não aumenta."

         Raquel desistiu de vencer a moça, e fez o que é sempre melhor: riu bastante e eu também ria que chorava. Claro, que, a essa altura, eu já estava mesmo me fazendo de louco para não perder a piada.

        Depois disso, achei melhor encerrar a conta naquele banco. Não pela simpatia da moça, mas é que os caixas eletrônicos de lá eram muito altos e eles nunca resolveram a questão (aguardem!).
            


Em tempo: Quando estiver em dúvida se o deficiente pode falar normalmente, talvez, o melhor caminho seja perguntar diretamente a ele. Entender também que uma limitação física não é, necessariamente, uma limitação de todos os sentidos ajuda um bocado!

 

 


Qualé a sua Parada, a revanche!

 

Pessoal, tô colocando algumas fotas do "Trio do Acesso Universal", que esteve ontem na 12ª Parada do Orgulho Gay, em São Paulo. Como meu bronzeado não estava em dia, realmente não fui  . Obrigado ao Adelino Ozores e a queridíssima Ana Jardim, pela colaboração!

 

 O povo todo do trio, se esbaldando na parada

Luis Mauch - Organizador do trio

 

mais com a vista geral do carro

Escrito por Jairo Marques às 21h04

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Domingo de música

 Hoje, como trabalhei no feriado, vou só curtir preguiça. Pra não dizer que abandonei todo mundo, deixo um clip delicioso de curtir. Foi a Juliana, que láááá da Itália, indicou para o blog. Achei sensacional e totalmente dentro das histórias que contei durante a semana por aqui.  

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Escrito por Jairo Marques às 11h20

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 37, jornalista pela UFMS e pós-graduado em jornalismo social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999. É colunista do caderno "Cotidiano".
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