Assim como você
Assim como você
 

As cartas

O blog continua recebendo dezenas de emails todos os dias, o que é muito bom! E tem de tudo , pedido de casamento , ajuda para desatar trabalho espiritual, pedido de emprego, de dinheiro .

       Eu me diverto um bocado. E tem também muita, muita gente "Assim como Você" que escreve para falar que está se identificando com as histórias e curtindo o diário. Então, resolvi hoje publicar uma das cartas, escrita pela Luciane, que é deficiente visual.

 

 

 

 

Prezado Jairo Marques,

 
     Antes de mais nada venho parabenizá-lo pelo belíssimo trabalho, bem como pelos  textos postados em seu blog. Estou certa de que mereça, também, parabéns pela garra e determinação pelas quais sempre enfrentou os obstáculos encontrados pelo caminho e, venceu cada um deles com muita vontade.
 
     Não conhecia seu blog, até que recebi um link de um amigo que, nos convidava a ler uma  entrevista. Trata-se do Marcinho e sua cão-guia. Porém não me contive em ler apenas a matéria do Marcinho, mas passei por muitas outras e, emocionei-me, dei boas risadas, enfim, foi um misto de sensações que me trouxeram até este e-mail.
 
     Chamo-me Luciane Molina, 25 anos, também, deficiente visual. Pedagoga com especialização em grafia Braille e atuo em uma escola municipal ensinando Braille a quem não enxerga, em cursos particulares de informática, capacitação para professores de escola regular, palestras em instituições de ensino e, aventuro-me na escrita de alguns artigos sobre educação, já publicados em alguns sites e revistas da área. Sou fascinada por jornalismo, mas dadas as possibilidades da época, acabei seguindo o caminho do magistério, não menos gratificante do que o jornalismo deva ser.
 
    Com relação às deficiências, a realidade do nosso país ainda deixa a desejar. Cabe a nós, principalmente pelas nossas atitudes diante das dificuldades, transformar essa realidade. Também já passei por desafios bem complicados, uns superados e outros por superar, ainda, pois a justiça dos homens nem sempre vê os fatos verdadeiramente, mas quando o caminho da diplomacia não funciona, temos que apelar para os caminhos legais, talvez mais tortuosos.
 
    Vejo em cada conquista minha, de amigos e dos alunos, não apenas vitórias individuais, mas acima de tudo vitórias coletivas que abrem caminhos para tantos outros que virão atrás. Nossa missão é essa: abrir caminhos, mostrar que somos seres humanos acima da nossa deficiência e buscar um convívio comum a todos nós...
 
Muito obrigada pela oportunidade de leitura dos textos, pela rica reflexão que eles nos provoca, pelo compartilhar de fatos e histórias que nos fazem crescer e aprender ainda mais...
 
um grande abraço
Luciane

Escrito por Jairo Marques às 10h35

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Uma célula e a humanidade de esperanças

Foram oito cirurgias complexas, mais ou menos dois anos e meio usando gesso nas pernas, na coluna; sete meses morando no hospital Sarah; um bocado de dor; um tanto de esperança; uma porção de esforços e um choro de mãe.

 

Chega um dia em que você é fatalmente declarado “deficiente” e vai ter de encarar o fato que caminhar ao longo da praia sentindo a areia entre os dedos quentinha, quentinha, não será possível da maneira convencional.

 

 

Minha família tentou por treze anos seguidos reabilitar meus passos depois de eles terem sido levados pela pólio (a paralisia infantil) quando eu ainda era um bebê gordinho de nove meses que começara a engatinhar e a se agarrar nos móveis para ensaiar uma dança.

 

“Você prefere a cadeira de rodas ou o aparelho”, perguntou o médico, um dos mais preparados do país, para mim, longe da minha mãe, claro. Escolhi a cadeira. Vocês não imaginam o que são alguns aparelhos ortopédicos. Sabem o Robocop? Então, você vira o Robocop.

 

E é evidente que os tratamentos todos me “consertaram” muito. Me possibilitaram que hoje eu tenha uma vida tão fantástica a ser contada e lida que ganho mais adeptos todos os dias para saber dela e, conseqüentemente, saber um pouco mais de si e de um universo que muitos entendem como “paralelo”, a matrix daqueles que têm alguma limitação.

 

No momento em que eu, menino, decidi ser cadeirante e que a busca pelo caminhar havia acabado, vi um choro incontido da minha mãe. Eu queria descansar, embicar a vida... ela queria mais esperanças, ela queria reparar o que, naquele momento, era irreparável.

 

Vocês devem estar achando que bebi e bati a cabeça, né? “Cadê o Boooozo???” É legítimo que conheçam a minha própria história em detalhes, não é mesmo? Afinal, entro e vasculho a várias das de vocês.

 

Não... mas é que quero que compartilhem comigo que essa decisão de ontem, do Supremo Tribunal Federal, liberando as pesquisas de células tronco embrionárias, desperta um fio de esperança novo talvez não para mim, mas para toda uma futura humanidade.

 

 

 

 "Eu sempre posso fazer você sorrir"

 

Não sei viram uma reportagem (só para assinantes UOL e Folha) publicada anteontem de um ser bizarro em Brasília dizendo para um grupo de cadeirantes parar de querer a liberação das pesquisas e ir buscar a solução de seus males em “Gzuis”.

 

Queria tanto que ele visse o documentário do Superação. E queria mais que ele ficasse meia hora trancado numa sala cheia de maribondos. E mais ainda que ele pudesse entender o que é devolver a milhares de pessoas a expectativa de retomarem sonhos quase extintos.

 

Diversas pessoas já me perguntaram e ainda perguntam se não tenho “vontade de andar”. Penso que a minha série de conquistas sobre essas quatro rodas ao longo da vida ajudaram a anuviar esse possível desejo.

 

 Acredito firmemente que é possível ser muito feliz, se realizar, ser completo sem a inexorável sensação de sentir a pressão do corpo na sola dos pés ao sair da cama ao amanhecer.

 

O mesmo, acredito eu, devem pensar muitos daquele que não escutam a corrida do vento, que não vêem o brilho intenso refletido pela lua cheia, que não gritam na montanha russa. Afinal, existir é muito mais do que apenas sensações.

 

Porém, me alivia saber que no futuro, quem sabe, as pessoas portadoras de necessidades especiais poderão se sentir plenas em todos os sentidos. Oxalá essas células embrionárias, elas que originam a vida, brindem a humanidade com banhos de mais e mais esperanças e menos choros embargados de mães.

 

 

Escrito por Jairo Marques às 22h20

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Brasileiro sangue bom

Garanto a vocês que colocados juntos eu com a minha cadeira vermelha, o corredor Pistorius com suas duas próteses, mais o Márcio com a cadela Raíssa, na frente de qualquer terminal rodoviário, até o final do dia a gente conseguiu dinheiro suficiente para comprar uma Kombi bege velha ou um fusca 1976. Isso se não fizermos cara de cachorro que derrubou o arroz do jantar diante de uma igreja. Porque ai é recurso de Uno mil para cima.

 

O brasileiro é um povo bom demais. Se ele vê um deficiente parado, quieto, contemplativo (algo normal para qualquer mortal) tira logo um trocado do bolso e estende com a mão: “Tó, fio pra você. É de coração, viu?”.

 

E vai você querer explicar que não precisa daquele dinheiro, que está ali só esperando a hora do seu ônibus ou do trem ou a um amigo. “Rapaz mais orgulhoso. Tô dando de coração. Pega logo!”

 

É verdade, e as estatísticas não escondem, que boa parte dos portadores de necessidades especiais estão em camadas mais pobres da população.

 

Isso por razões como dificuldade de acesso à educação, trabalho, lazer, cultura.  Se as pessoas não conseguem sair de casa porque não há condições urbanas, se qualificar como?

 

E é fato também que muita gente com limitação está nas ruas, pedindo dinheiro em semáforos ou mesmo nas tais rodoviárias. Bom, mas eu não estou e muitos, muitos também não estão.

 

Esse negócio de receber dinheiro dos outros sem mais nem menos, podem acreditar, acontece comigo até hoje. Já sei o que estão pensando: “Também, com essa cara de pobre”.

 

Me lembro perfeitamente de um dia, ainda moleque, que fui com a minha mãe em uma inauguração de um novo supermercado na cidade. No interior, esse fato é comparado a uma festa popular dessas que juntam multidões.

 

Não me perguntem porque raios ela quis me levar nesse “divertido passeio”. Como era óbvio, ela me deixou na entrada da loja para não me expor àquela avalanche de gente louca para comprar extrato de tomate.

 

“Mamãe já volta, fica aqui quietinho” (até a minha mãe tira sarro de mim. Ela sabia que eu não iria sair correndo pela rua, né?)

 

E ela realmente voltou rapidinho, coisa de meia hora, e me encontrou com um sorriso largo no rosto:

 

“Mããããe, olha o tanto de dinheeeeeiro que ganhei!!!” Trabalhadora e honesta, ela quase me leva para a delegacia para responder por furto.

 

Meu povo, uma pessoa me viu ali, lindo, sentadinho na cadeirona (à época eu usava um trambolho imenso) e me deu uma moeda. Eu, menino, achei aquilo o máximo, ué! Logo, veio outra e outra e mais outra pessoa me dando dinheiro. “Tô rico! Tô rico!”.

 

 

 

Mais recentemente, uma outra situação de imensa “solidariedade”. Era cedo (eu entro no jornal junto com os seguranças, os porteiros, os faxineiros) e eu ia “a pé” para o trabalho. Morava pertinho e só precisava vencer duas quadras de subida tocando a cadeira até chegar à Folha. Usar o carro pra quê?

 

Como rotineiramente acontece, lá vem o brasileiro, solícito, me ajudar. “Deixa que eu te empurro!!!” Geralmente, não sobra tempo para responder se quero ou não a ajuda.

 

“Trabalha na Folha, é? Hummm....É telemarketi, né? Não??? Ahhh mexe com computadô, essas coisas de digitamento, né? Ahhh tá, vende jornal, jornaleiro, tendi”

 

O senhor, que usava bigode, um boné e roupa surrada, era uma simpatia e, realmente, tinha uma imensa e verdadeira boa vontade, reconheço.

 

“Vida dura, né, fio? Subir isso aqui todo dia. Tão cedo. Ôh pai amado, que vida, heim, fio? Deve cansar os bracinhos, né, fio? Mas hoje eu te levo!”

 

Num momento como esse, o pior que você pode fazer é reagir. Se eu dissesse que ele estava enganado, que tenho uma vida tranqüila, cheia de privilégios, com carro, namorada linda e adoro me exercitar um pouco pela manhã, poderia decepcioná-lo profundamente.

 

De necessitado eu passaria ao status de louco, de ingrato na cabeça dele. Digo isso por tentativas infrutíferas do passado de tentar demover as pessoas da idéia da “doação”.

 

Quase me “entregando” na porta do jornal, meu parceiro voluntário desabafa: “Já tô cansado a essa hora do dia, viu. Cê acredita, fio? Hoje já peguei três ônibus, vou caminhar mais um quilômetro, acordei às 4h. Ainda não tomei café, briguei com a mulher....”

 

Como vocês já sabem... eu só sorri e deixei o pensamento voar alto.

 

Claro que ao final da “viagem”, ela quis me dar R$ 1. “Toma, fio”. Gente, eu não tinha forças para resistir! Se ele achou que fez a boa ação do dia comigo, não poderia estragar aquele único prazer, até ali, daquela manhã do senhor bigodudo.

 

 

"Você não teria um blog onde eu pudesse baixar sua música de graça?"

 

Em tempo: Cadeiras de rodas, muletas, bengalas não podem compor um estereótipo das pessoas, a meu ver. Condição física não é credencial para tirar conclusões de nível intelectual ou financeiro de ninguém.

E essa projeção de imagem em um deficiente de que ele é um eterno necessitado não é, em definitivo, peculiar a apenas pessoas mais simples.  Fazer o bem eleva a qualquer um, mas ter informação, conhecer a realidade do outro é fundamental para que essa ação seja realmente produtiva, não acham?

Escrito por Jairo Marques às 22h31

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Eles se Superam

Hoje o STF (Supremo Tribunal Federal) vai dizer se pode ou não pode usar células tronco embrionárias para fazer pesquisas.

Os estudos , no futuro, poderão devolver movimentos para muita gente, curar o câncer, recuperar órgãos, tecidos, ossos. Tudo coisinha básica. (Leiam mais sobre o assunto aqui

Para ajudar na decisão dos ministros _ai como eu tô metido, né?_, coloco no blog para vocês e para eles a primeira parte de um documentário que avalio como primoroso (a segunda eu coloco mais tarde). 

Trata-se da história do “Movimento Superação”. Uns “pessoais” sérios (não como eu, que usa o estilo Bozo de ser), que têm cadeiras de rodas turbinadas, tatuagem no braço e invadem a avenida paulista todo ano como forma de protesto.

Eles também cobram atitude do poder público (aquele que geralmente não faz muita coisa por gente Assim Como Você), fazem pressão por melhorias estruturais e congregam umas garotas daquelas que a gente casa sem pensar de tanta belezura, afinal, ninguém é de ferro. Juntam "pouca" gente na causa: coisa de 4 mil pessoas (este ano eu vou, de rambo!)

Vou escrever pouco para que vocês tenham tempo de curtir o trabalho feito por alunos Universidade Anhembi Morumbi, de São Paulo, como conclusão do curso de Jornalismo (mal sabem eles onde se meteram!).

 

       



 

Créditos:

 

Os meus aplausos, então, para Ana Carolina Câmara, Fernando Petroni, Guilherme Lima, Marina Paes, Pedro Zunkeller e Thadeu Reis, meus colegas de profissão e autores do projeto. 

Ao professor Danil Petrow, que orientou o documentário. 

E mais: edição: Marco Arantes; Câmeras: Eduardo Domingues, Fabiano Lupinacci, Marco Arantes e, Vandelei Vicário;

Fotos: Arthur Calazans.

Trilha sonora: Bob Dylan – Blowing in the wind; Cordel de Fogo Encantado – Árvore dos encantados; O Teatro Mágico – De ontem em diante; The Beatles – With a little help from my friend; Mongol / Oswaldo Montenegro – Aquela coisa toda
 

Segunda parte

Pessoal, sorry pela demora em colocar a segunda parte do vídeo. A internet não ajudou muito hoje. Queria ter postado depois da decisão do Supremo, mas ainda não saiu. Então, um pouco mais de gente "Assim como Você" pode energizar os ministros! ahaahha

 


Escrito por Jairo Marques às 20h15

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Quem tem medo do Pistorius?

            Quem ainda não viu o Oscar Pistorius correndo, tem de fazê-lo batendo recorde de velocidade (dou uma colher de chá no final do post). Ele é um atleta paraolímpico sul-africano, de 21 anos, detentor de marcas inéditas nos 100, 200 e 400 metros. Usa duas próteses de fibra de carbono no lugar das pernas. Eu disse duas. E dispara na pista qual seriema solta no mato.

 

            Na semana passada, ele conseguiu permissão de uma corte desportiva para disputar uma vaga nas Olimpíadas de Pequim (Leia mais no blog do Rodolfo Lucena). Anteriormente, o pedido havia sido negado. Alegam que as próteses dão “impulsão” a ele, o que poderia caracterizar vantagem em relação a outros corredores.

 

 

            Faz me rir, gente! Acho, então, que a alimentação de todos os competidores teria de ser igual. Só ração, com porções iguais todos os dias, e suco de beterraba. Um copo por refeição. Oras, vocês acham que aqueles atletas dos EUA, que são pura massa muscular, comem o mesmo que os quenianos com aqueles cambitos da grossura de um palito de fósforo?

 

            Se não podem as próteses, vamos também padronizar os desodorantes. Vai saber se algum pode provocar siricotico e o galego sair em disparada pela pista, alucinado com o efeito?

 

Tênis que podem absorver o impacto e jogar o cara léguas para a frente também não pode. Todo mundo descalço.  E   também não pode aqueles shortinhos de lycra, que apertam o traseiro e podem dar mais vontade de sair correndo pra prova acabar logo e o cabra se livrar daquilo.

 

 

 

Por fim, os lugares de treinamento precisam ser iguais e os treinadores têm de ter a mesma formação. Os suplementos de vitamina igualmente distribuídos e tratamentos médicos igualzinhos. Tudo em nome do equilíbrio. Topam? Acho que não. São as diferenças que fazem um vencedor, não é mesmo?

 

            As lâminas do Pistorius, que ele usa desde que quando era bebê e teve as duas pernas ambutadas, são, para mim, um símbolo de superação, de inteligência humana em prol da melhoria da qualidade vida. Jamais podem ser vistas como um limitador para o que quer que seja ou estamos fadados ao retrocesso.

 

O saltinho que muitos atletas alegam que Pistorius teria de vantagem diante dos outros competidores é o mínimo diante de uma situação psicológica extremamente mais delicada da parte dele diante da “normalidade” dos outros.

 

 

O saltinho que, concordo, pode representar algum milésimo precioso numa competição (porém não há comprovação científica, ainda), é nada diante da dor que ele aprendeu a suportar para se equilibrar naqueles J (o formato da prótese é um J, de Jairão, show, né?).

 

 É nada diante do treinamento intenso que ele fez para se “igualar” em tempo aos corredores das provas convencionais, que já começam a chiar pelos quatro cantos do mundo. Como diz um grande companheiro meu, todos uns "ridicolomen".

 

O Pistorius é um cara exatamente "Assim Como Você", mas usa próteses. Quebrar a barreira do tradicional e colocar juntas pessoas com e sem limitação física, pode ser um salto histórico muito maior do que o saltinho supostamente provocado pela ação da prótese.

 

 A discussão não deveria ser permitir ou não o uso das lâminas. Mas, sim, teríamos de estar preocupados com uma forma de garantir que todos tivessem acesso à tecnologia ou simplesmente uma forma de ter de volta uma parte do corpo, mesmo que artificialmente. (Leiam reportagem de Cláudia Colucci, sobre o tema, publicada na Folha. Só assinantes UOL e do jornal)

 

Edgar Alves, um amigo meu que sabe tudo de esportes, disse que Pistorius tem pouca chance de competir ainda neste ano, em Pequim, com os “normais”.

 

“Mas fica tranqüilo que ele vai garantir vaga, com certeza, em 2012!”, me informou o Ed, com um sorriso de vitória.

 

Com certeza, vou torcer para ele, seja quando e como for. Vou tentar entrevistá-lo e conto pra vocês. Vejam uma prova do atleta, na Itália, nos 400 metros livres. Ele aparece disparando, no canto direito da tela.

 

 

 

 

Escrito por Jairo Marques às 21h42

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Fale com ELE

           Eu e minha mãe (xodadis dela) temos uma piada tão antiga quanto o tempo do “êpa”. Lembram quando as pessoas diziam êpa pra tudo? Não? Nem eu, sou jovem . 

 

            Às vezes, sem mais nem menos, eu olho para ela digo: “Mas ele fala?” No que ela responde: “Fala, fala mais do que a boca, mais do que o homem da cobra”.

 

            É muito natural, até hoje, pensarem que eu não falo. Vai ver ficam fascinado com esse meu corpinho de perdição ou encantado com a cadeira fashion que uso e nem percebem que sou capaz de emitir som, como qualquer papagaio.

 

            Claro, há pessoas com limitação de fala ou mesmo alguns surdos que não são capazes de falar com palavras orais. Mas, acho que a maioria dos deficientes fala normalmente ou fala a seu modo, pausadamente, com algum esforço.

 

            Certa vez, quando eu ainda era criança (nem faz tanto tempo assim), uma senhora parou minha mãe na rua quando estávamos indo para a escola e começou a perguntar mil coisas: “Nossa, como ele faz pra fazer xixi? Como ele respira? Como é que você faz pra dar banho nele? Ele sente as perninhas? Ele baba muito?”

 

Como qualquer pessoa que não é o highlander, eu interrompi aquela produtiva conversa. “Mãe, vamos embora que vou chegar atrasado na aula”. Foi quando a senhora quase teve um ataque do coração, ali na rua.

 

“Nooooosssa, mas ele faaaaala? Que bonitinho! Ele fala”. Minha mãe, espirituosa como ninguém, respondeu: “Fala, fala mais do que a boca esse menino. Mais do que o homem da cobra”.

 

 

Uma outra situação, mais recente, aconteceu há cerca de dois anos. Inesquecível. Fui ao banco com Raquel, uma amiga sem igual, logo cedinho. Tinha de fazer uma chatice de um recadastramento.

 

Já na porta do prédio começou o meu martírio. Aquele sistema de segurança giratório por onde uma cadeira de rodas não passa, é claro.

 

 “Vamos ter de revistar ele, senhorita”, disse o segurança para a Raquel. “Revista, ué”. Normalmente eu vou ao banco com um estilingue ou com um fuzil AR-15, naquele dia eu estava com gases e resolvi não carregar peso.

 

Livre do flagrante, me dirigi, sempre com a Raquel a tiracolo, para uma mesa de atendimento. Agora tudo seria tranqüilo para fazer o fatídico recadastramento, não é? Não era. A moça que nos recebeu era uma bancária típica. De cabelos bem curtinho, óculos, roupa de festa brega e usando com perfeição o gerúndio.

 

"Você poderia estar me dando os documentos dele? Preciso do RG, CPF, comprovante de residência..." Raquel, então, vira pra mim, já com uma risada incontida no canto da boca e dispara: "Dá os seus documentos pra ela, Jairo. Ela ta pedindo".

       "Olha, eu vou precisar estar olhando o holerite (ou contracheque) dele também para estar atualizando os dados. Ele trabalha, né?"

      Ai a Raquelzinha já não estava mais com aquela paciência do Pai Mei do Kill Bill. "Por que raios você não pede pra ele, moça? A conta é dele, o dinheiro é dele. Só estou acompanhando. Não sou tradutora dele".

      Naquele momento eu senti que havíamos magoado a moça dos gerúndios de ferro. Foi quando, então, pela primeira vez, desde o início do festivo atendimento, ela olhou diretamente pra mim. Sabe aquela cara ridícula que fazemos para bebê bonitinho? Então, era assim que ela me olhava.

       O ponto alto dessa maratona bancária foi o final do atendimento. 

        "Prontinho! Agora, você pede para ele estar assinando aqui nesta linha de baixo? Bem aqui, onde tem o tracinho. Mas, olha, ele ganha isso aqui mesmo? Porque na situação dele, né? É que se não estiver tudo certinho o crédito não aumenta."

         Raquel desistiu de vencer a moça, e fez o que é sempre melhor: riu bastante e eu também ria que chorava. Claro, que, a essa altura, eu já estava mesmo me fazendo de louco para não perder a piada.

        Depois disso, achei melhor encerrar a conta naquele banco. Não pela simpatia da moça, mas é que os caixas eletrônicos de lá eram muito altos e eles nunca resolveram a questão (aguardem!).
            


Em tempo: Quando estiver em dúvida se o deficiente pode falar normalmente, talvez, o melhor caminho seja perguntar diretamente a ele. Entender também que uma limitação física não é, necessariamente, uma limitação de todos os sentidos ajuda um bocado!

 

 


Qualé a sua Parada, a revanche!

 

Pessoal, tô colocando algumas fotas do "Trio do Acesso Universal", que esteve ontem na 12ª Parada do Orgulho Gay, em São Paulo. Como meu bronzeado não estava em dia, realmente não fui  . Obrigado ao Adelino Ozores e a queridíssima Ana Jardim, pela colaboração!

 

 O povo todo do trio, se esbaldando na parada

Luis Mauch - Organizador do trio

 

mais com a vista geral do carro

Escrito por Jairo Marques às 21h04

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Domingo de música

 Hoje, como trabalhei no feriado, vou só curtir preguiça. Pra não dizer que abandonei todo mundo, deixo um clip delicioso de curtir. Foi a Juliana, que láááá da Itália, indicou para o blog. Achei sensacional e totalmente dentro das histórias que contei durante a semana por aqui.  

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Escrito por Jairo Marques às 11h20

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Qualé a sua parada?

            Sou um pouco avesso a multidões. Talvez herança do meu lado caipira láááá de Três Lagoas (ta, confesso, agora só existem duas), onde nasci.

 

       Primeiro que em eventos com muita gente meu pescoço fica sempre doendo de olhar pra cima. , segundo é que fico com receio de a boiada estourar e eu ser o vaqueiro escolhido para ela festejar a liberdade. E terceiro: fica aquele rela-rela na minha cadeira que quase perco a virgindade. 

 

Um grande amigo meu, o Heric, vive dizendo que sou bobo (ele usa uma palavra um pouco mais feia), que tudo é super seguro, que não tem problema nenhum em ir a esses festivais de música, por exemplo, nos estádios. Sei não.

 

Sou mais uma mesinha de boteco tranqüila ou uma baladinha onde eu tenha algum espaço para respirar. Respirar é tão bom. Em diversas ocasiões eu admito que fico com vontade de encarar, mas, quem sabe no futuro?

 

Bom, mas tô dizendo isso porque amanhã vai haver em São Paulo a “12 ª Parada do Orgulho Gay”, quer reunião maior de gente? Me convidaram para sair em um bloco: “O Trio do Acesso Universal”. Achei a idéia fantástica. No meio de tanta diversidade de gênero, vão defender também a diversidade de limites!

 

Mas fica ai a sugestão para aqueles que forem mais macho que eu! O trio vai usar o slogan , “Incluindo diferenças... em defesa dos direitos humanos!”. Muito bom o tema. O carro terá tradutor de Libras e será totalmente acessível para quem é cadeirantes ou tenha dificuldades de locomoção. Pô, quem for pode me enviar uma fotas depois?

 

O que? Trio do Acesso Universal

Onde? Na avenida Paulista, a partir das 12h, em frente ao Masp, em São Paulo. Será o sexto carro a entrar

Quando? Amanhã, domingo, 25 de maio

Quem faz? O A Mais Diferenças - Educação e Inclusão Social - e a 3IN - Inclusão, Integridade e Independência

Quem apóia? O Movimento Superação, a Dá Pra Ir e o Centro de Vida Independente Araci

Nallin e LeBomi

Como assim? Vai haver Djs, gente de todo canto do país e do mundo, dança, clima de festa

Ainda ta com dúvida? Mais Diferenças (11) 3881-4610 com Andréa ou pela caixa de mensagens md@md.org.br

 

Escrito por Jairo Marques às 11h45

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Prefira o térreo

            Feriadão prolongado, todo mundo na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê e eu aqui, na labuta, de plantão... aff.. Também, como diz um dos meus grandes amigos: “não estudei”! Mas vamos lá, só de raiva vou falar de trabalho pra vocês.

 

            Sou jornalista desde menino, quando escrevia cartas imensas fossem de amor, fossem de amigo, fossem para aqueles concursos de frases que nunca vi ninguém ganhando. E disso pra a faculdade foi um pulo.

 

Poucos meses depois que me formei, já estava na Folha. Saí láááá do “Mato Grosso” (Mato Grosso do Sul, para nós, nativos) para morar em Sum Paulo. Eu, uma mala gigante, uma cadeira de rodas vermelha e na cabeça o choro de uma mãe desesperada: “Menino, assim eu não agüento, você me mata”. O que não havia e nunca há na minha bagagem é medo de desafio, receio de não dar conta.

 

            Fui selecionado por meio do Programa de Treinamento do jornal. Eram uns 2.600 concorrentes para dez vagas. E passei, gente... Nunca fui um gênio, um cara que sabia de tudo. Acho que sempre fui curioso, li bons livros e sou viciado em notícia, em buscar um mundo ligeiramente melhor.

 

Até cheguei a perguntar para Ana Estela, editora de treinamento da Folha e a madrinha deste blog, se eu havia sido beneficiado por algum sistema de cota, sorteio de bingo ou pagamento de promessa de alguém. Lembro perfeitamente que ela olhou pra mim como me fuzilando com os olhos: “Não, passou porque passou, como todo mundo”.

 

E a carreira começou como repórter. Em princípio trabalhando de dentro da redação, mesmo, mas logo para todo canto do Brasil. Gelei no dia que meu editor à época olhou pra mim e lançou: “Você vai para o Maranhão”. E fui. De lá eu segui em outras dezenas de reportagens para quase todos os Estados do país, montado na minha cadeira, com uma vontade imensa de fazer bem feito.

 

Muita gente me pergunta se o jornal não tinha receio de eu não conseguir cumprir as missões que eu me propunha ou que me eram dadas. Bem, as respostas que eu tive eram sempre iguais: “você é um profissional como outro qualquer”. Êh, laiá.

 

Agora, o que repetidas vezes me acontecia era a incredulidade dos outros de que eu era “repórti” do maior jornal do país. “Da Folha, né?... sei... deixa eu ver o crachá, filho... hum... Veio lá de São Paulo? Hum... e você trabalha assim, sozinho? Hum... Tem medo, não? E você faz como? Hum... tem medo não, né? Hum... Mas... vai sair no jornal?”

 

Mais pra frente eu conto pra vocês uma dessas experiências com mais detalhe. E eu nem ligava. Ria, claro. Rir é tão bom.

 

Porém já passei perrengues de botar a mão na cabeça e pensar: “Agora a casa caiu”. Um desses casos aconteceu em outubro de 2003, em Florianópolis (SC). Aquela ilha linda, fantástica, cheia de gente bonita iria viver um blecaute histórico (acesso para assinantes do Uol e da Folha, quer moleza?). Todo o fornecimento de energia foi rompido por mais de 53 horas. Eu estava por lá, fazendo a cobertura de uma feira de telecomunicações. Cobertura tranquila. Claro, fui deslocado para quebrar pedra e relatar aquele drama que parecia que não ia terminar nunca.

 

Aqui dá pra ver a parte continental, iluminada, e a ilha, tooooda apagada

 

Em resumo, o que aconteceu foi uma explosão dentro do túnel que leva os cabos de energia do continente para a ilha. Tiveram de promover uma solução de emergência, criando um sistema externo, bastante vulnerável, mas, era a única saída. A cidade ficou sem semáforos, sem água (porque o sistema de bombeamento parou), a comida estava estragando em supermercados e geladeiras, funcionário de hospitais estavam em pânico para manter equipamentos ativos.

 

E trabalhei muito, muito naqueles dias. Mal tinha tempo de tomar banho. Havia uma capital quase inteira padecendo por todos os lados. Sem dúvida foi uma grande experiência de vida e de profissão. Em diversos momentos achei que meus "limites" iam me impedir de seguir bem na cobertura, mas, jornalistas tem de ter sorte e consegui cumprir meu papel.

 

Quando aquele pesadelo acabou e, enfim, a luz voltou. Era momento de relaxar... ôh, delícia! Missão cumprida, né?! Saí do hotel em que estava, no continente e onde o fornecimento não havia sido interrompido e fui para a casa da minha namorada naquela ocasião, que coincidentemente, eu disse coincidentemente, morava em Floripa, quase no último andar de um prédio do centro da cidade. Ninguém é de ferro, né?

 

Eu lá no maior relax depois de ter trabalhado como um cavalo que arrasta carroça quando começa uma chuva, um vento sem fim que, aos poucos, virou tempestade e....? A estrutura de emergência que fizeram para sanar o problema flopou. Em um estalo, a escuridão voltou a dar o dar da graça (ou o da desgraça, como preferirem). Meu povo, imaginem: estava no 11º andar de um prédio com o elevador parado e tinha de sair dali urgentemente para voltar a trabalhar. Já haviam me ligado do jornal, de São Paulo, pedindo matéria, pedindo informações do que havia acontecido. Sim, minha casa havia caído.

 

Aqui os técnicos estão criando a estrutura de emergência,

minha vilã

 

Liguei para o Corpo de Bombeiros pedindo pra me resgatarem de lá. "Senhor, há uns quatrocentos pedidos na sua frente. Dentro de cinco ou seis horas poderemos atendê-los". Gelei. Eu e a guria naquele breu atrás de uma solução para eu poder trabalhar. Liguei, então, para o assessor do governador do Estado. Oras, eles garantiram que aquilo ia funcionar. Não funcionou, então, que resolvessem a minha situação. E não era um caso particular. Entendo que o meu trabalho era necessário para informar milhares de pessoas. Sinceramente, não vi problema ético nenhum. Não matei, não roubei e não cobicei a mulher do próximo.  Como vocês agiriam?

 

Em poucos minutos, os homens da segurança particular do governador estavam na prédio. Saí dos braços de uma gatinha para cair no colo de dois marmanjos gigante (não rolou sentimento) que firmemente me levaram até o térreo, onde eu voltei a funcionar normalmente e pude trabalhar, seguir meu ofício de relatar o cotidiano. Enfim, a história já ficou bem longa.

 

Vou contar mais de trabalho, depois. Mas, este caso mostra um pouco que há, sim, obstáculos inesperados para uma pessoa com limitação. Eles podem ser simples para uns, mas dramáticos para outros. Ter bom senso e uma boa agenda ajuda a resolver. Morar em andares mais baixos, para quem tem dificuldades de locomoção, também!! 

 

 

 

Escrito por Jairo Marques às 11h24

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Raíssa vai à escola

Raíssa é uma preta paulistana, mas que se mudou para Niterói, no Rio, faz pouco. E foi para lá menos por causa da beleza das praias e dos monumentos de Oscar Niemeyer do que pelo forró.

 

Sim, pessoal, Raíssa é meiga, companheira, linda, fofa e forrozeira. Ela segue com afinco o grupo “Charme do forró”, seja para boates, bares, casamentos, “enterro de sogra”. Louca, louca pelo ritmo.

 

Raíssa também acorda cedo porque freqüenta o ensino médio em uma escola estadual e chama muita atenção pelas ruas por onde passa com seu rebolado maroto e um ar de convencimento. Mas, acima de qualquer qualidade, Raíssa veio parar aqui no blog porque ela fez um cidadão. É, um cidadão. Desses em sua plenitude, assim como você.

 

Raíssa é um cadela da raça labrador de dois anos e cinco meses e cão guia de Antonio Marcio da Silva, um boa pinta. Um sujeito fantástico. Pernambucano, de 19 anos, mas com a malemolência típica de quem mora no Rio.

 

            Há cinco meses Márcio recebeu Raíssa do treinador George Thomaz Harrison, com quem foi adestrada por um ano e sete meses, dentro de um projeto desenvolvido pela AFAC (Associação Fluminense de Amparo aos Cegos de Niterói). Eu não sabia que o processo de formar um cão era tão caro. O Márcio me disse que pode custar R$ 20 mil. Ele conseguiu a Raíssa com patrocínio. Puxa, da-lhe patrocínios para estas associações.

“A Raíssa me trouxe proximidade com outras pessoas. Ela me integrou à sociedade. Quando você usa uma bengala, você fica um pouco limitado e é alvo de diversos obstáculos na rua. Os outros só falam contigo gritando: ‘Ei, olha o buraco! Ei,vai bater no poste! Oh ceguinho, muda de direção!’

Agora, elas se aproximam de mim de um modo mais carinhoso, claro, pela atenção que a Raíssa chama. Ela me dita o caminho com perfeição, me desvia de qualquer problema. Ela me fez mais cidadão. Tem um amor incondicional por mim e eu tenho por ela”

            Quando Raíssa começou a ir à escola estadual Pinto Lima com Márcio, causou espanto e indignação. “Um cachorro na sala de aula?”. É, um cachorro. “Ela deita embaixo da carteira e fica ali, quietinha, o tempo todo. Não late, não lambe ninguém. Teve gente que já confundiu ela com um casaco de pele preta”, diz o Márcio, que teve retina prematura e é cego desde que nasceu.

            Tecladista da banda de forró que Raíssa é fã número um, Márcio é desses caras que a gente cria gosto em cinco minutos de conversa. Ele não vê, mas sente como ninguém, ouve como ninguém e cativa como ninguém.

 “Esses dias eu tava andando na rua com a Raíssa e uma senhora me perguntou se eu tinha não tinha medo de ser assaltado, ser atropelado. Eu disse pra ela que é um risco que todo mundo corre, que todo mundo ta exposto. Não posso ficar em casa trancado esperando a minha vida passar.”

            Por mim, Márcio, quero mais é que você e essa coisa maravilhosa que é a Raíssa andem mais do que o Tom Hanks em Forest Gump. Muito mais...

 

 

 

Em tempo: Muita gente tem me escrito para dizer que se emociona e chora demais lendo os breves depoimentos que vocês me presenteiam nos comentários ou mesmo com trechos dos post que mal começaram. Uma amiga chegou a dizer que eu era um “animal”.... tomara que eu seja pelo menos igual a Raíssa,  . Bom, mas o que eu queria dizer é que falando com o Márcio para colocar a história dele aqui eu vibrava e sentia uma emoção danada. Queria muito entrar pelo fio do telefone e dar um abraço apertado neste cara genial. Viva o Márcio, viva a Raíssa.

Escrito por Jairo Marques às 00h00

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Se ela dança... claro, eu danço!

Sempre, desde molequinho, tive um jeito irrequieto, uma alma voadora, uma vontade de fazer tudo o que eu supostamente não “podia” fazer. Afinal, eu contraí pólio logo quando bebê e perdi o movimento das duas pernas, não ando, nem um passinho, uia! (falo mais para vocês do que houve, em breve).

 

Porém, sempre criava uma maneira minha e dos meus amigos para jogar futebol (eu era goleiro, imaginem, goleiro), para brincar de pique-esconde (alguém sempre me escondia junto), para empinar pipa (ai era fácil, vento tem em todo lugar) e para dançar. É, dançar.

 

E eu abusava nesta última modalidade de entretenimento. Adorava e ainda gosto de mexer o corpo de forma ritmada. Ah, e adoro o Carnaval. Hoje em dia eu trabalho em quase todos (jornalista, gente, jornalista), e só fico mesmo cantando de longe as marchinhas. Mas já fui bom folião, acreditem.

 

 

Agora, imaginem vocês um salão lotado (no interior, onde nasci, o legal são bailes em clubes), e eu ali, com a camiseta de bloco, uma cadeira de rodas bem grande passando por cima dos pés de todo mundo, girando e brindado a folia? Era uma festa, uma alegria incontida. Dançar é muito bom, muito bom.

 

Mas algo que me chama muito a atenção em festas são as pessoas que aparentam um certo desconforto diante de um cadeirante que dança ou mesmo de alguém com um par de muletas que viram asas ou de alguém que não enxerga e faz movimentos descompassados ou alguém que não ouve, mas sente as vibrações do som. Todo mundo ali, se esbaldando de rir ao sacolejar do corpo e o sujeito incomodado com a alegria alheia.  Parecem que não acreditam que é possível aquele sentimento de satisfação. Digo a vocês que é bem possível e é delicioso. Dançar nos faz mais leve, seja como for.

 

Agora, não posso falar de dançar sem também lembrar daqueles tipos onipresentes nas baladas e que querem, invariavelmente, “levantar o nosso moral”. E eles fazem assim:

 

 “Opaaaa, deixa eu levar ele para a pista. Vamos dançar. Segura ai.. oooopa”...

 

E o sujeito vai pegando na cadeira e saindo em disparada, em rodopios, em chacoalhões. Tudo em nome da inclusão. Ele nunca pergunta se quero, se estou achando gostoso, se o meu coração ainda está no lugar, se meu cérebro está funcionando direitinho. Invariavelmente, a inclusão que ficamos é a de um susto, de uma esperança de aquilo acabar logo ou, em casos extremos, de um hematoma na cara.

 

 

Caro amigo leitor, se você é um desses que puxam sem pedir alguém com alguma limitação para festejar, por favor, faz isso mais não. Vamos dançar cada um da sua maneira, com suas possibilidades! Somente em casos de muita intimidade ou de amigos do peito isso funciona. E não é porque somos xaropes, ranzinzas. A cadeira pode virar, a muleta pode bater em alguém, o ritmo de alguém com limitação é diferente dos convencionais.

 

Bom, mas falando em dança, vejam que dica bacana. Para quem mora em São Paulo. Vão até o dia 4 de junho as inscrições da oficina de dança “Danceability”, técnica que junta deficientes e pessoas sem limitações físicas no mesmo baile!

É tudo de graça em um lugar totalmente adpatado, mas há um processo de seleção, quer moleza? As fotos usadas aqui do post é de um espetáculo em que a técnica é colocada em prática e foram cedidas pela assessoria do evento. Achei bem bonito. Vocês gostaram?

 

 

O que? Oficina de Danceability

 

Onde? Na sala Crisantempo (R. Fidalga, nº 521, Vila Madalena,  São Paulo/SP)

 

Como faço? Pessoas, com ou sem deficiência, podem se inscrever pelo contato@nucleodancaaberta.com ou por carta: Núcleo Dança Aberta, A/C Neca Zarvos (R. Iucatan, 184, Jardim América, São Paulo/SP CEP 01439- 040)

 

            Quando? As inscrições abriram no dia 19 de maio e vão até 4 de junho. A oficina acontece de 24 de junho a 14 de agosto, com aulas às terças e quintas, das 15 às 18 horas

 

Quanto? Nadinha de nada

 

Vagas? Para 15 felizardos

 

 

 

 

 

Escrito por Jairo Marques às 20h32

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Uma mulher, uma beleza...

    Um dos casos de superação que chamam muito a minha atenção, e também deve ter chamado a de vocês, é o da miss Ceará deste ano, Vanessa Vidal, que ficou em segundo lugar no concurso da mulher mais bonita do Brasil.

 

    Como boa parte das pessoas já sabe, a beldade tem limitação auditiva, não ouve, nadinha, desde que nasceu. Uma amiga comentou comigo que, sem demérito, é claro, ninguém se lembra ao certo quem foi a vencedora do concurso, mas a Vanessa ficou na história.

 

    Que coragem daquela jovem deslumbrante, diante de centenas de pessoas que assistiam ao evento, de “falar” com expressões das mãos, dos dedos. Foi de tirar o fôlego. (veja um dos vídeos aqui)

 

    E a Vanessa sorria, bailava com suas Libras (a língua de sinais) de forma a dominar aquele espaço e de mostrar às concorrentes: sou assim como vocês: bonita, simpática, miss, mas não escuto.

 

     É muito natural que alguém fora do padrão tenha dificuldades de se afirmar diante de suas próprias limitações, de exibir uma perna mecânica, um aparelho de correção de postura, um óculos. E, por isso, a Vanessa é história a ser aplaudida e seguida.

 

Leiam uma entrevista que fiz com ela, por e-mail. Boa Leitura!

 

 

 Blog: Sem falar nenhuma palavra você calou muita gente e se tornou a segunda mulher mais bonita do Brasil. Nem sempre se ganha no grito?

 

Vanessa Vidal: Nasci com uma perda auditiva bilateral profunda, mas, graças a minha mãe e com a ajuda de uma fonoaudióloga, desenvolvi a fala. Até os 13 anos, não sabia a língua de sinais: "Libras". Dai em diante, descobri minha língua própria, pois os surdos têm identidade, tem sua cultura, são pessoas extremamente inteligentes.

 

Como sempre digo, a falta de um dos sentidos nunca me impediu de crescer, de evoluir, de sonhar. de amar e de ser feliz. Faço duas faculdades, ciências contábeis e letras libras. Trabalho em um órgão da Prefeitura de Fortaleza (CE). Sou voluntária na causa dos deficientes. Amo trabalhar com pessoas especiais.

 

Blog: Você abriu um caminho importante mostrando que perfeição e limitação podem caminhar juntas. Mas, certamente, dificuldades foram e são presentes na sua carreira.

 

Vanessa: É verdade, perfeição e limitação podem e devem caminhar juntas mostrando sempre que é possível vencer obstáculos, ultrapassar barreiras. Dificuldades já enfrentei muitas na minha carreira, na minha vida pessoal, pois bem sabemos que a vida já não é fácil, para os ditos "normais" imagina para aqueles com limitações?  Mas sempre lutei com coragem, sempre fui guerreira, não desisto nunca  do que quero. Aprendi que a vida é uma batalha e vou lutar sempre, cada dia procuro novos desafios.

 

Blog: E como você supera o fato de ter uma limitação auditiva no seu dia-a-dia, por exemplo, em namoros, nas atividades de estudo? Deve ser comum te perguntarem "será que você é surda", não é?

 

Vanessa: A minha vida é bem agitada, sempre tive um dia-a-dia bem corrido. Já namorei rapazes surdos, namorei rapazes ouvintes. No primeiro momento, sempre falo que sou surda, mais que tenho uma boa leitura labial, e que sou oralizada, tento ensinar minha língua, as "Libras. No começo é tudo novidade mais depois acostuma. Muitas vezes já me fizeram essa pergunta: "você é surda mesmo"? Ou é brincadeira?

 

Blog: Como você adquiriu a sua limitação?

 

Vanessa: Segundo minha querida mãe, os médicos falaram que foi rubéola na gravidez, mas ela nunca teve a doença, Na verdade são só suposições, nós não sabemos ao certo a causa.

 

Blog: Você ficou em segundo lugar no concurso, mas ficou mais famosa que a ganhadora, a gaúcha Natália Anderle. Tem tirado proveito disso? O que você pretende fazer daqui para a frente e como as pessoas reagem a sua conquista?

 

 Vanessa: O segundo lugar foi muito gratificante. Estou colhendo os frutos desta conquista. Como já trabalhava como modelo, agora os trabalhos se intensificaram. Muitas entrevistas, tv, jornais, revistas, campanhas publicitárias.  Está sendo maravilhoso. As pessoas me apóiam muito, me parabenizam. Estou bastante feliz

 

Blog: Graças a você, um evento tão visto como o Miss Brasil teve apresentação com a linguagem de sinais. Como fazer as pessoas terem mais contato com esse tipo de comunicação e torná-la mais comum e menos exótica, aos olhos de quem não tem essa limitação?

    

Vanessa: Tenho feitos muitos projetos no sentido de tentar divulgar mais as Libras, que já é uma língua oficializada, como qualquer outra.  Estou tentando capacitar pessoas que ouvem para fazer o curso de Libras para facilitar mais a vida dos surdos. Libras é uma língua fascinante, e muito fácil de aprender. Basta começar e se apaixonar.

Escrito por Jairo Marques às 21h29

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Um explosão de gente assim como você

Pessoal, estou recebendo centenas de emails e não estou conseguindo abrir e liberar todos os preciosos comentários. Vou me esforçar para botar tudo em dia, mas vocês me pegaram de surpresa com tamanha repercussão. A minha logística ficou pequena! Obrigado e sigam acompanhando. Vai haver novidades em breve!

 

Escrito por Jairo Marques às 16h16

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Igual... mas diferente!

Este diário nasce com um objetivo bem claro: mostrar que viver pode ser uma constante aventura de superação, de reinvenção de caminhos, de fazer valer um desejo incontido de mostrar ao mundo que, cada um, a sua maneira, faz acontecer.

 

Para isso, neste espaço vão estar sempre histórias de gente que, "Assim como você", mesmo com pequenas ou grandes adaptações, pode jogar futebol, dançar balé, saltar de pára-quedas, namorar, aprender, ensinar, mergulhar, vencer.

 

Diversas das situações que vão estar aqui relatadas foram experimentadas por mim mesmo! Sou cadeirante (usuário de cadeira de rodas) desde a infância (vou falar disso depois), então, tenho uma certa coleção de assuntos para tratar e rir junto com vocês (sim, várias das minhas histórias são bem engraçadas).

 

O blog também trará serviços, debates e novidades para pessoas que estão “fora do padrão”, seja por uma limitação física ou mental, pela idade ou por um aspecto do corpo.

 

Mas o público do diário, não se restringe a grupos. Afinal, quem não conhece alguém portador de alguma necessidade especial ou convive com situações em que essas pessoas estão inseridas? A minha proposta é abordar o diferente para revelar que no fundo, realmente, somos bem iguais.

 

Agradeço aos meus amigos e colegas que me deram a coragem de encarar esse desafio (mais um) de fazer mais plural um universo que, para muitos, parece bem restrito e cheio de “dificuldades”. Agradeço também ao Grupo Folha que acreditou e apoiou a idéia de criar um espaço inédito nas mídias mais importantes do país para falar de um público que, sem dúvidas, pouco aparece, mas que ganhou fôlego novo com o avento da internet, do mundo digital.

 

Espero que gostem deste ponto de encontro e me ajudem a jogar luz em trajetórias de pessoas que transformam suas limitações em simples detalhes diante de vitórias, de exemplos, de vontade de ir sempre além do que suas realidades supostamente permitiriam.

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Escrito por Jairo Marques às 19h17

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PERFIL

Jairo Marques Jairo Marques, 35, é formado em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e pós-graduado em jornalismo-social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999 e é cadeirante.

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